Edição 1821 . 24 de setembro de 2003

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Vinhos
A vitória dos bons e baratos

Os consumidores brasileiros aprimoram
o gosto por vinhos finos,
e os importados
batem recordes e provocam a reação
dos produtores nacionais pela busca
da qualidade

 
Mario Rodrigues

O Pão de Açúcar (foto) promove palestras sobre vinhos que atraem 12 000 pessoas por ano. No Carrefour, a participação de vinhos finos saltou de 11% para 21% das vendas



A lista completa de vinhos indicados por especialistas
DOS ARQUIVOS DE VEJA
Argentina produz vinhos bons e baratos (17/9/2003)
Entrevista: Robert Parker (20/8/2003)
Entrevista: Eric Beaumard (27/11/2002)

Por causa da geografia e das condições climáticas e de composição do solo, o Brasil não tem nenhuma parte de seu território classificada entre as privilegiadas regiões do planeta com vocação natural para produzir grandes vinhos. E não os produz. A exceção são os espumantes feitos no Rio Grande do Sul, que têm potencial para ganhar espaço no disputado mercado mundial de bebidas finas. Há cerca de dez anos, a francesa Moët & Chandon fabrica no sul do Brasil um vinho espumante produzido pelo método champenoise, o mesmo pelo qual a companhia obtém na França seus famosos champanhes. A limitação natural, porém, não impediu os brasileiros de desenvolver uma crescente preferência por vinhos de qualidade. Em quantidade, o Brasil ainda figura entre países onde o produto é uma raridade à mesa. Na França, o consumo per capita anual é de 56 litros. Na Itália chega a 49 litros. No Brasil, é de 1,8 litro. Esse número é típico de países amantes de outras bebidas, como a cerveja. É o caso também dos Estados Unidos, que, apesar de terem a economia mais rica do planeta, consomem somente 7 litros de vinho per capita. Em qualidade, o brasileiro avançou muito. Há dez anos apenas duas de cada dez garrafas do fermentado de uvas vendidas no Brasil eram de vinho fino importado. Atualmente, quase cinco entre dez garrafas do produto compradas pelos brasileiros são de bebida estrangeira. "Nunca passamos por um momento como o de hoje, com um interesse tão grande do brasileiro pelo vinho", diz Ciro Lilla, dono da importadora Mistral.

Os especialistas mais apaixonados dizem que aprender a beber vinho é um salto sensorial extraordinário, que já foi descrito como enxergar as cores, tendo-se permanecido boa parte da vida com visão monocromática. O grau de conhecimento do consumidor brasileiro aumentou muito nos últimos anos. As grandes redes de supermercado, onde é comercializada a maior parte da produção nacional e dos vinhos importados, são as maiores responsáveis pela popularização do bom gosto entre os bebedores de vinho no Brasil. O grupo Pão de Açúcar promove cerca de oitenta palestras anuais sobre a bebida para seus clientes. Sua concorrente, a rede Carrefour, organiza festivais em que se podem comparar vinhos das mais variadas procedências.

 
Antonio Milena
André Penner

Piva, da Expand: associação para produzir vinho no Brasil

"Nunca o interesse por vinhos foi tão grande", diz Lilla, da Mistral

Com o aumento da exigência dos consumidores brasileiros, os vinhos importados ganharam participação no mercado. Com dólar subsidiado pelos importadores (o dólar-vinho vale, em média, 2,34 reais) e uma superprodução mundial nas regiões tradicionais da França, Itália e Portugal, o vinho estrangeiro não encontra maiores dificuldades de chegar às prateleiras dos supermercados brasileiros. Além dos vinhos europeus, o mercado brasileiro se abastece dos australianos, dos fabulosos e baratos chilenos e dos argentinos, que, favorecidos pelos acordos tarifários da região do Mercosul, entram no país a preços menores ainda que os dos concorrentes. É dura a vida dos produtores brasileiros, inferiorizados pela natureza e pela força do mercado mundial. As vinícolas nacionais continuam investindo, pois, como se sabe, além da bandeira e do hino, muitos consumidores transferem para os vinhos nacionais certo ardor patriótico, o que os torna mais palatáveis. Alguns produtores brasileiros, especialmente no Rio Grande do Sul, estão fazendo tentativas sérias de aprimorar as videiras. O objetivo é torná-las mais aptas a vencer as limitações climáticas, como o regime de chuvas adverso, de verões muito úmidos. Essa condição reduz drasticamente a quantidade de açúcar natural das uvas, o que obriga os produtores a acrescentar açúcar de cana ao mosto na fermentação. Esse processo, embora usado por algumas vinícolas de renome na Europa, aumenta o teor alcoólico de qualquer vinho, mas só melhora a qualidade de poucos.

As vinícolas brasileiras estão fazendo a chamada reconversão dos vinhedos. Plantações antigas são substituídas por outras mais novas, com mudas importadas e de melhor qualidade. Em 1998, foram importadas 423.000 mudas. No último ano, esse número chegou a 1,5 milhão. A primeira safra das videiras importadas foi colhida em 2002 e o vinho deverá estar no mercado apenas em 2004. A gaúcha Casa Valduga, de Bento Gonçalves, empregou nos últimos três anos 4 milhões de dólares na reconversão e ampliação da área plantada. A Miolo, outra vinícola brasileira, investiu 21,5 milhões de reais nos últimos cinco anos e tem previsão de aplicar outros 40 milhões de reais nos próximos dez. Pela reação do mercado, o investimento vale a pena. "A demanda por produtos especiais é maior que a oferta", diz João Valduga, diretor-enólogo da vinícola. "Se o Brasil conseguisse dobrar sua produção de vinhos finos de qualidade, ainda assim não conseguiria suprir a demanda", afirma Carlos Eduardo Nogueira, gerente de marketing e exportação da Miolo. A Expand, do empresário Otávio Piva de Albuquerque, maior importador do país, está colocando fé na bebida nacional. Piva formou uma parceria com produtores gaúchos e portugueses e pretende começar a vender um vinho tinto nacional no próximo ano.

 

 

Com reportagem de Silvana Mautone

 
 
 
 
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