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Vinhos
A vitória dos bons
e baratos
Os consumidores brasileiros aprimoram
o gosto por vinhos finos,
e os importados
batem recordes e provocam a reação
dos produtores nacionais pela busca
da qualidade
Mario Rodrigues
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O
Pão de Açúcar (foto) promove palestras sobre vinhos
que atraem 12 000 pessoas por ano. No Carrefour, a participação
de vinhos finos saltou de 11% para 21% das vendas
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Por
causa da geografia e das condições climáticas
e de composição do solo, o Brasil não tem nenhuma
parte de seu território classificada entre as privilegiadas
regiões do planeta com vocação natural para
produzir grandes vinhos. E não os produz. A exceção
são os espumantes feitos no Rio Grande do Sul, que têm
potencial para ganhar espaço no disputado mercado mundial
de bebidas finas. Há cerca de dez anos, a francesa Moët
& Chandon fabrica no sul do Brasil um vinho espumante produzido
pelo método champenoise, o mesmo pelo qual a companhia obtém
na França seus famosos champanhes. A limitação
natural, porém, não impediu os brasileiros de desenvolver
uma crescente preferência por vinhos de qualidade. Em quantidade,
o Brasil ainda figura entre países onde o produto é
uma raridade à mesa. Na França, o consumo per capita
anual é de 56 litros. Na Itália chega a 49 litros.
No Brasil, é de 1,8 litro. Esse número é típico
de países amantes de outras bebidas, como a cerveja. É
o caso também dos Estados Unidos, que, apesar de terem a
economia mais rica do planeta, consomem somente 7 litros de vinho
per capita. Em qualidade, o brasileiro avançou muito. Há
dez anos apenas duas de cada dez garrafas do fermentado de uvas
vendidas no Brasil eram de vinho fino importado. Atualmente, quase
cinco entre dez garrafas do produto compradas pelos brasileiros
são de bebida estrangeira. "Nunca passamos por um momento
como o de hoje, com um interesse tão grande do brasileiro
pelo vinho", diz Ciro Lilla, dono da importadora Mistral.
Os especialistas mais apaixonados dizem que aprender a beber vinho
é um salto sensorial extraordinário, que já
foi descrito como enxergar as cores, tendo-se permanecido boa parte
da vida com visão monocromática. O grau de conhecimento
do consumidor brasileiro aumentou muito nos últimos anos.
As grandes redes de supermercado, onde é comercializada a
maior parte da produção nacional e dos vinhos importados,
são as maiores responsáveis pela popularização
do bom gosto entre os bebedores de vinho no Brasil. O grupo Pão
de Açúcar promove cerca de oitenta palestras anuais
sobre a bebida para seus clientes. Sua concorrente, a rede Carrefour,
organiza festivais em que se podem comparar vinhos das mais variadas
procedências.
Antonio Milena
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André Penner
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Piva,
da Expand: associação para produzir vinho no Brasil
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"Nunca
o interesse por vinhos foi tão grande", diz Lilla, da Mistral
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Com
o aumento da exigência dos consumidores brasileiros, os vinhos
importados ganharam participação no mercado. Com dólar
subsidiado pelos importadores (o dólar-vinho vale, em média,
2,34 reais) e uma superprodução mundial nas regiões
tradicionais da França, Itália e Portugal, o vinho
estrangeiro não encontra maiores dificuldades de chegar às
prateleiras dos supermercados brasileiros. Além dos vinhos
europeus, o mercado brasileiro se abastece dos australianos, dos
fabulosos e baratos chilenos e dos argentinos, que, favorecidos
pelos acordos tarifários da região do Mercosul, entram
no país a preços menores ainda que os dos concorrentes.
É dura a vida dos produtores brasileiros, inferiorizados
pela natureza e pela força do mercado mundial. As vinícolas
nacionais continuam investindo, pois, como se sabe, além
da bandeira e do hino, muitos consumidores transferem para os vinhos
nacionais certo ardor patriótico, o que os torna mais palatáveis.
Alguns produtores brasileiros, especialmente no Rio Grande do Sul,
estão fazendo tentativas sérias de aprimorar as videiras.
O objetivo é torná-las mais aptas a vencer as limitações
climáticas, como o regime de chuvas adverso, de verões
muito úmidos. Essa condição reduz drasticamente
a quantidade de açúcar natural das uvas, o que obriga
os produtores a acrescentar açúcar de cana ao mosto
na fermentação. Esse processo, embora usado por algumas
vinícolas de renome na Europa, aumenta o teor alcoólico
de qualquer vinho, mas só melhora a qualidade de poucos.
As vinícolas brasileiras estão fazendo a chamada reconversão
dos vinhedos. Plantações antigas são substituídas
por outras mais novas, com mudas importadas e de melhor qualidade.
Em 1998, foram importadas 423.000 mudas. No último ano, esse
número chegou a 1,5 milhão. A primeira safra das videiras
importadas foi colhida em 2002 e o vinho deverá estar no
mercado apenas em 2004. A gaúcha Casa Valduga, de Bento Gonçalves,
empregou nos últimos três anos 4 milhões de
dólares na reconversão e ampliação da
área plantada. A Miolo, outra vinícola brasileira,
investiu 21,5 milhões de reais nos últimos cinco anos
e tem previsão de aplicar outros 40 milhões de reais
nos próximos dez. Pela reação do mercado, o
investimento vale a pena. "A demanda por produtos especiais é
maior que a oferta", diz João Valduga, diretor-enólogo
da vinícola. "Se o Brasil conseguisse dobrar sua produção
de vinhos finos de qualidade, ainda assim não conseguiria
suprir a demanda", afirma Carlos Eduardo Nogueira, gerente de marketing
e exportação da Miolo. A Expand, do empresário
Otávio Piva de Albuquerque, maior importador do país,
está colocando fé na bebida nacional. Piva formou
uma parceria com produtores gaúchos e portugueses e pretende
começar a vender um vinho tinto nacional no próximo
ano.
Com
reportagem de Silvana Mautone
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