|
|
Em
foco: Sérgio Abranches
Desgovernança
"O
fracasso de Cancún debilita a OMC,
que pode deixar os países médios e os
mais pobres desprotegidos no processo
comercial, que já se globalizou"
O
que o ataque ao Iraque, a reunião de Cancún, os pesadelos
em Kosovo, as crises financeiras e cambiais do fim do século
passado e os problemas da Argentina com o FMI têm em comum?
Quem
respondeu sérios problemas de governança, em todos
os níveis, acertou. O processo de globalização
foi muito mais rápido no âmbito das finanças
e do comércio do que no plano político e institucional.
Mas não há caminho de volta nem para a globalização
nem para as instituições de governança regional
e global. O único caminho possível é avançar
no processo de transformação da ordem mundial e institucionalizá-lo.
Ilustração Alê Setti
 |
É claro que no passado bipolar havia problemas graves, tanto
no bloco sob o controle hegemônico dos Estados Unidos quanto
no dominado pela URSS. Parte dos conflitos que explodiram com a
desintegração dos blocos, principalmente com o desmoronamento
das instituições do lado soviético, entre elas
o Pacto de Varsóvia, era controlada com repressão
e brutalidade. Exemplos? A invasão de Praga pelos tanques
do Pacto, o grande conluio autoritário que aprisionou a América
Latina na cadeia de regimes militares repressivos, congelou o poder
oligárquico do PRI no México, manteve ditaduras por
toda a Ásia, como nas Coréias, na Indonésia
e na China.
A
ordem global em formação tem algumas vantagens e muitos
riscos, parte deles criada pelo desmoronamento das instituições
multilaterais. A principal vantagem é a integração
pelas comunicações. Hoje, atrocidades como as que
aconteciam sob a censura e o véu da impunidade hegemônica
no século passado se tornam conhecidas em tempo real, pela
opinião pública mundial. É o primeiro passo
para o estabelecimento de limites e sanções à
violação em larga escala dos direitos da humanidade.
Mas aí está Kosovo para provar que a humanidade ainda
é impotente diante desses eventos. O horror instantâneo,
porém, já não nos pode ser sonegado. Nós
nos horrorizamos em tempo real. A rede global de comunicações
dá novos recursos aos movimentos coletivos de defesa dos
direitos e da paz e compromete governantes.
Há
falhas, claro. O reconhecimento, tardio, da censura e da pressão
à imprensa nos EUA e na Inglaterra durante o ataque ao Iraque,
por exemplo. Mas aí estão Christiane Amanpour e outros
jornalistas como ela, no front da denúncia e da autocrítica,
para criar anticorpos contra a onda antidemocrática dos últimos
anos. Outra falha, contundente e grave, que na minha opinião
tem mais a ver com a debilidade da governança global, é
a ausência na mídia global da abrumadora tragédia
africana. Um continente em regresso brutal, vítima de suas
contradições internas e da negligência do resto
da humanidade.
A
análise das crises que atingiram o mercado financeiro global
mostra um tríplice problema de governança como parte
de suas causas e elemento decisivo da incapacidade de controlá-las,
antes que produzissem grandes estragos econômicos e sociais.
Problemas de governança corporativa, em empresas, bancos,
fundos de investimento e bancos centrais. Problemas de governança
política nos países. Problemas de governança
global, evidenciados pela ineficácia e obsolescência
de instituições como FMI, Banco de Compensações
Internacionais (BIS) e Banco Mundial. E não só nos
mercados emergentes. A crise nos EUA revelou graves falhas de governança
empresarial e regulação. Pesquisa recente mostrou
que, das 100 falências de hedge funds de 2000 para cá,
mais da metade se deveram a essas falhas, que propiciaram fraudes
e desvios. E eles eram também protagonistas do "espetáculo
do crescimento" dos mercados emergentes e de sua debacle. Claramente,
as soluções que as instituições são
capazes de oferecer não são coetâneas dos problemas
a que se dirigem.
A
crise do Iraque desnudou a falência do Conselho de Segurança
da ONU. O regresso africano e o horror em Kosovo mostram a decadência
das Nações Unidas, como instrumento de ação
coletiva global. No caso da África, as organizações
multilaterais se revelam incapazes de desenvolver programas e construir
alianças que permitam tirar o continente da trajetória
de ruína social e econômica.
O
fracasso de Cancún debilita a OMC, que pode deixar os países
médios e os mais pobres desprotegidos no processo comercial,
que já se globalizou.
Da
enorme quantidade de reuniões de chefes de Estado, de encontros
globais, de políticos, cientistas e intelectuais, não
se vê uma sequer que pretenda criar um fórum sério,
orientado para a ação e que tenha o objetivo de construir
instituições de governança global contemporâneas
e ajustadas às necessidades da nova ordem. Definitivamente,
como disse Caetano, "alguma coisa está fora da ordem, fora
na nova ordem mundial".
Sérgio Abranches é cientista político
(sergioabranches@sda.com.br)
|