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Ponto
de vista: Lya Luft Meu
país é uma fênix "Não
nos iludamos com alguns números da economia nem com os sorrisos da
elite do poder. Estamos por baixo, e, se não aproveitarmos a ocasião
para graves mudanças, seremos o subpovo de um subpaís, digno
de piedade" Enjoei. Cansei. As palavras
se tornam repetitivas, a esperança sofre um ataque de anemia, o termo "indignação"
anda mal-usado e, como tudo o que se malbarata, perde o valor real. O exercício
do poder exige um sólido alicerce humano e cultural, grande dose de humildade,
realismo, experiência e visão de mundo para que se possam
pronunciar de boca limpa termos como "ética".
O barco afunda: alguns ratos já foram lançados na água, outros
se agarram ao que sobrou com dentes, patinhas e longo rabo. Adianta ranger os
dentes, vale a pena se expor, não se esgotou o velho tema da renovação
e da busca de honradez? Os que foram sinceros curvam-se
ao peso da omissão: podíamos ignorar tudo isso? Os honrados, revendo
conceitos de uma vida inteira, questionam-se dolorosamente. Os cínicos
usam da velha arrogância ou fingem nada saber, e os covardes se dissimulam
atrás de desculpas escandalosas. Quando
esta coluna for lida, estarei, ironia do destino, no berço de boa parte
de nossa cultura ocidental e da democracia: a Grécia. Preferiria escrever
sobre as Ilhas Gregas, porém o pano de fundo de minhas frases acabaria
sendo invariavelmente a teia de malfeitos que de momento constrange o meu país,
coisa inimaginável para o cidadão comum, que se esfalfa para manter
uma vida digna.
Ilustração
Atômica Studio
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O
Brasil geme nas dores do parto de (esperemos) uma democracia menos infestada pela
corrupção. A turma dos panos quentes acorre solícita, porém
band-aid não resolve doença tão grave e espalhada. Quando
a ferida explodiu, eram tantos os tumores e tantos os atingidos que quase não
conseguimos respirar nós que vivemos do suor do nosso trabalho,
nós que pagamos as contas com dificuldade e os impostos com indignação,
nós que estamos quase paralisados por juros absurdos e estímulo
pífio, nós que acreditamos neste país mas somos forçados
a desacreditar de boa parte dos que o comandam. Nós, desmoralizados pelas
mentiras do bando que assinava sem ler, fazia reuniões sem ver, viajava
sem saber, negociava a vida do seu país como se fosse um objeto qualquer,
prevaricava sem se dar conta, e agora experimenta todas as máscaras disponíveis
enquanto aponta o dedo para os outros: "Ele também fez xixi na calça,
ele é pior que eu!".
Nas coxias procura-se
(ou procura-se ainda ocultar) o responsável: quem esteve por trás
de tudo isso? Que pessoa, grupo, entidade manejava os cordéis, enganava
e intimidava todo mundo e, covarde criminoso, não mostra o rosto? Quem
assassinou tão meticulosamente a nossa confiança? Que surpresa malévola
nos aguarda a cada dia? O fio da meada se desenrola
cada vez mais longo, mais complicado e sombrio, mesmo para quem gostaria de fechar
os olhos e morrer negando a traição: "Eu posso explicar. Não
é o que parece". Não nos iludamos com alguns números da nossa
economia nem com os sorrisos da elite do poder. Estamos por baixo, estamos naufragando,
e, se não aproveitarmos a ocasião para graves mudanças, seremos
o subpovo de um subpaís, digno de piedade.
A desculpa geral foi, até há poucos dias, que este país é
assim ou todos são, as leis são assim, as condições
são assim, isso se faz há muito tempo. O homem decente estava quase
sendo acusado de incomodar, marchando contra o passo universal (ou nacional).
De um lado, receio uma caça às bruxas,
que joga na fogueira inocentes junto com os culpados; de outro, temo uma varredura
generalizada para debaixo dos tapetes, com o sacrifício de alguns bodes
expiatórios para nos fazer crer que tudo está resolvido. Apesar
da ameaça da descrença que me ronda, preciso esperar que ao fim
e ao cabo a vergonha não tenha passado de moda inteiramente.
Talvez a verdade enfrentada de peito aberto nos devolva a confiança, e
a nossa alma brasileira habite um país com narizes menos compridos, memórias
menos lesadas, bandidagem presa ou expulsa e esperança ainda viva. Podem-se
então estabelecer novas regras e soprar novos ares, sem palavrório
falso nem idealismo oco. É possível
que a esperança e o otimismo ainda tenham espaço por aqui, e o Brasil
seja mesmo uma fênix que há de renascer mais forte desta fogueira
das vergonhas. A gente espera que sim. Lya
Luft é escritora |