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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Um prodígio chamado
Duda Mendonça
Entre outras proezas,
ele é responsável
por jogar fora 460 milhões
do contribuinte
paulistano
"Xô, corrupção."
Assim pregava o primeiro comercial produzido por Duda Mendonça
para a campanha do PT, em 2002. A imagem era de um bando de ratos
roendo a bandeira nacional. "Ou a gente acaba com eles ou eles acabam
com o Brasil", dizia o texto, antes de soltar o "xô" que era
a peça de resistência, o fecho de ouro, o bordão
concebido para impressionar e ficar na memória. Talvez o
"xô" tenha sido pronunciado sem a devida energia. Talvez tivesse
sido proclamado com os dedos fazendo figa. Naquele mesmo momento
em que era espantada, no mundo de sonho dos anúncios, a corrupção
se abria para o autor do "xô", no mundo real, farta e generosa
como o Mar Vermelho para Moisés. O anúncio do "xô"
foi a peça inaugural de uma campanha em que os pagamentos
seriam feitos em ilhas caribenhas, paradisíacas não
apenas pelo sol generoso, ou em pacotes de dinheiro que a sócia
do marqueteiro ia diligentemente buscar na Avenida Paulista.
Curiosa figura do nosso tempo,
esse Duda Mendonça. Tão emblemático de sua
categoria quanto Joãosinho Trinta dos carnavalescos, ele
se apresentou à CPI dos Correios com paletó escuro
sobre camiseta escura. Nada de camisa branca e gravata. Ele é
diferente. Os publicitários, ou, pelo menos, boa parte dos
publicitários, pretendem-se artistas, e ao artista, como
se sabe, não basta ser é preciso parecer
artista. Esse negócio de se apresentar como o comum das pessoas
fica para os artistas menores um Carlos Drummond de Andrade,
que num sarau de poesia seria tomado pelo encarregado de recolher
os ingressos, um Graciliano Ramos, que continuaria a ter cara de
amanuense mesmo num mundo onde não existiam mais amanuenses.
Mas o problema não é Duda Mendonça tomar ares
de artista quando, evidentemente, não é. O problema
é ele tomar ares de simples publicitário, quando,
evidentemente, também não é ou, pelo
menos, não é só isso.
É muito mais. Ele faz
milagres. Um deles foi vender a idéia de que Paulo Maluf
é um ser humano. Isso ocorreu durante a eleição
para prefeito de São Paulo de 1992. Duda Mendonça,
contratado pelo veterano político, concebido e desenvolvido
na incubadeira do regime militar, teve a ousadia de inventar como
símbolo da campanha... um coração! Nada menos
que um coração, órgão que, como é
de geral conhecimento, Maluf não possui. O empenho em operar
na natureza mesma do candidato, transformando-o quase num vizinho
a quem se confiaria a chave de casa quando se vai viajar (quase,
pois até Duda tem seus limites), foi tão bem-sucedido
que Maluf obteve, na ocasião, a única vitória
em eleições majoritárias pelo voto direto que
ostenta em seu currículo.
Outro milagre foi incutir no
eleitorado a noção de que o governo Lula seria um
primor de zelo, rigor e competência. Um anúncio da
campanha de 2002 mostrava um grande escritório, com uma sucessão
de escrivaninhas, onde cérebros privilegiados estudavam cada
pormenor da realidade nacional. Lula passeava entre as mesas, com
a desenvoltura do líder seguro e confiável, dando
tapinha nas costas de um, debruçando-se sobre o papel em
que outro trabalhava. Parecia a Nasa na véspera de lançamento
espacial. Dava-se a entender que o PT se preparava para o governo
com idéias claras e soluções na ponta da língua.
Lula prometia lançar o foguete Brasil rumo ao futuro. Hoje
esse anúncio virou comédia.
Curiosa figura do nosso tempo,
essa do marqueteiro. Duda Mendonça foi de Maluf a Lula, e
ninguém achou nada de mais. Reclama-se do futebol de hoje
porque os jogadores vivem mudando de clube. Reclama-se do político
que muda de partido. Mas ao marqueteiro se permite que em um dia
se entregue ao campeão da direita e no outro ao da esquerda,
um dia acenda velas a Jesus Cristo e no outro reze a Maomé.
E no entanto seu poder vai além do da maioria dos políticos.
Na campanha de 1996 para a prefeitura de São Paulo, Duda
Mendonça inventou para o candidato Celso Pitta uma engenhoca
a que deu o nome de "fura-fila". Tratava-se de um fabuloso meio
de transporte, capaz de vencer distâncias de modo rápido
e seguro, sobre trilhos que repousavam em vias suspensas.
O pior é que Pitta ganhou
a eleição (mais um milagre) e teve mesmo de construir
o fura-fila. Foram gastos na obra exatos 468.688 000 reais, em valor
atualizado, e o resultado são estruturas que apodrecem em
alguns recantos da cidade. A obra não foi concluída
e talvez jamais será, dada sua duvidosa utilidade. O responsável
em última análise pelos 468.688 000 reais do contribuinte
paulistano jogados fora é Duda Mendonça. E ainda bem
que Marta Suplicy não ganhou a última eleição
em São Paulo. Duda Mendonça havia preparado para ela
(agora ele tinha trocado, também em âmbito municipal,
Jesus por Maomé) um certo Céu Saúde
majestosos palácios onde a população seria
curada de suas moléstias.
Essa instituição
do marqueteiro político, nas proporções que
tomou no Brasil, tem jeito de não ter similar no mundo. A
política brasileira está clamando por um "Xô,
marqueteiro".
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