Edição 1919 . 24 de agosto de 2005

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Cinema
Políticos na fogueira

O cineasta Fernando Solanas
faz uma retrospectiva da crise
econômica argentina


Miguel Barbieri Jr.

 

Jaime Razuri/AFP
O ex-presidente Carlos Menem: "astro" de Memória do Saqueio

Cansada da crise que se abateu sobre o país, a população sai às ruas para protestar. Descontente com a corrupção no governo, ela pede, de caçarola nas mãos, a renúncia do presidente. Não, não se trata de uma previsão para os próximos capítulos da atual crise política brasileira. As cenas são do documentário Memória do Saqueio (Memoria del Saqueo, Argentina/França/Suíça, 2004), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, Porto Alegre e Brasília, e elas remetem à saída da Casa Rosada do então presidente argentino Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001.

Quem está por trás da fita é o cineasta bissexto e militante esquerdista Fernando Solanas. Exilado em Paris nos anos 70, à época da ditadura militar na Argentina, Solanas construiu uma carreira sustentada em filmes de ficção alegóricos, a exemplo de A Nuvem (1998). O diretor volta agora ao documentário, gênero que abraçou com vigor no emblemático La Hora de los Hornos (1966-1968). Dividido em dez capítulos, com títulos provocativos como "A dívida eterna" e "A mafiocracia", Memória do Saqueio joga luz sobre a catastrófica situação político-econômica que atingiu o país vizinho a partir de 1976. Didático na narrativa e com muitas imagens de arquivo, Solanas rememora os sucessivos desastres provocados pelos presidentes Raúl Alfonsín (1983-1989), Carlos Menem (1989-1999, em dois mandatos) e Fernando de la Rúa (1999-2001).

Ao contrário de Michael Moore (Fahrenheit 11 de Setembro), hoje a maior celebridade do cinema-verdade, Solanas, também narrador, abdica do humor cínico, mas mantém a artilharia verbal. Uma das questões que levanta diz respeito à dolarização da economia, que provocou recessão e falência de empresas. Com isso, o desemprego subiu de 11% para 20%. Há mais dados e outras situações embaraçosas que colocam em xeque desde o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo até líderes sindicalistas.

O cinema engajado de Solanas não se permite ser imparcial. Em seu ataque feroz à política de Menem e seus sucessores, sobram imagens do horror. No capítulo "O genocídio social", o diretor quer causar comoção e, manipulador, registra o cotidiano de miseráveis. Em cenas dispensáveis, mira suas lentes para bebês subnutridos e crianças no caixão. Aí, já é demagogia.

 
 
 
 
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