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Cinema Políticos
na fogueira O cineasta Fernando Solanas
faz uma retrospectiva da crise econômica argentina  Miguel
Barbieri Jr.
Jaime
Razuri/AFP
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ex-presidente Carlos Menem: "astro" de Memória do Saqueio |
Cansada
da crise que se abateu sobre o país, a população sai às
ruas para protestar. Descontente com a corrupção no governo, ela
pede, de caçarola nas mãos, a renúncia do presidente. Não,
não se trata de uma previsão para os próximos capítulos
da atual crise política brasileira. As cenas são do documentário
Memória do Saqueio (Memoria del Saqueo, Argentina/França/Suíça,
2004), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo, Porto Alegre
e Brasília, e elas remetem à saída da Casa Rosada do então
presidente argentino Fernando de la Rúa, em dezembro de 2001.
Quem está por trás da fita é o cineasta bissexto e militante
esquerdista Fernando Solanas. Exilado em Paris nos anos 70, à época
da ditadura militar na Argentina, Solanas construiu uma carreira sustentada em
filmes de ficção alegóricos, a exemplo de A Nuvem (1998).
O diretor volta agora ao documentário, gênero que abraçou
com vigor no emblemático La Hora de los Hornos (1966-1968). Dividido
em dez capítulos, com títulos provocativos como "A dívida
eterna" e "A mafiocracia", Memória do Saqueio joga luz sobre a catastrófica
situação político-econômica que atingiu o país
vizinho a partir de 1976. Didático na narrativa e com muitas imagens de
arquivo, Solanas rememora os sucessivos desastres provocados pelos presidentes
Raúl Alfonsín (1983-1989), Carlos Menem (1989-1999, em dois mandatos)
e Fernando de la Rúa (1999-2001).
Ao contrário de Michael Moore (Fahrenheit 11 de Setembro), hoje
a maior celebridade do cinema-verdade, Solanas, também narrador, abdica
do humor cínico, mas mantém a artilharia verbal. Uma das questões
que levanta diz respeito à dolarização da economia, que provocou
recessão e falência de empresas. Com isso, o desemprego subiu de
11% para 20%. Há mais dados e outras situações embaraçosas
que colocam em xeque desde o ex-ministro da Economia Domingo Cavallo até
líderes sindicalistas. O cinema
engajado de Solanas não se permite ser imparcial. Em seu ataque feroz à
política de Menem e seus sucessores, sobram imagens do horror. No capítulo
"O genocídio social", o diretor quer causar comoção e, manipulador,
registra o cotidiano de miseráveis. Em cenas dispensáveis, mira
suas lentes para bebês subnutridos e crianças no caixão. Aí,
já é demagogia. |