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Brasil A
dama e os vagabundos Jeany Mary Corner, fornecedora
de "recepcionistas" para festas de arromba em Brasília, talvez
seja a única personagem honesta da novela do mensalão  Juliana
Linhares
Jonne
Roriz/AE
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classifica assim o andamento do seu negócio nos diferentes governos: "O
de Collor foi o melhor. O de FHC foi 'marrom' ('marromenos'). O de Lula estava
bom demais para ser verdade" |
No início do mês, o senador Demostenes
Torres (PFL-GO) perguntou na CPI dos Correios, para estarrecimento e terror de
alguns de seus pares, se Simone Vasconcelos, a diretora financeira da agência
SMPB, de Marcos Valério, conhecia "a cafetina Jeany Mary Corner". Desde
então, um número ainda não calculado de parlamentares
cujos nomes, sobrenomes e telefones constam da agenda-bomba da auto-intitulada
"empresária de eventos" de Brasília demonstra preocupação.
Jeany também anda intranqüila. Organizadora das festas mais explosivas
da República, supostamente financiadas pelo valerioduto, ela diz que vem
recebendo ameaças por telefone e reclama que os negócios estão
parados e que os amigos poderosos, "esses covardes", sumiram. E eles eram muitos.
A longa militância de Jeany no ramo do entretenimento masculino começou
no governo Collor e vinha caminhando de vento em popa no governo Lula até
o senador Demostenes acabar com a festa. Jeany
Gomes da Silva nasceu no Crato, interior do Ceará. Passou a adolescência
em Lavras da Mangabeira, terra natal do ex-ministro das Comunicações
Eunício Oliveira, com quem chegou a dividir carteira na época do
colégio. Um incidente obrigou-a a deixar o Ceará: Jeany foi flagrada
por uma tia no quarto com um rapaz, "merendando antes da hora", como ela diz,
e seus pais, católicos fervorosos, a expulsaram da cidade no mesmo dia.
Ela, então, se mudou para o Rio. Lá, foi faxineira e rodomoça,
mas por pouco tempo queria mesmo era conhecer São Paulo. A partir
daí, ela conta a amigos a seguinte versão acerca da sua trajetória:
ao chegar à capital paulista, foi apresentada por uma amiga ao circuito
das feiras do Anhembi, o principal centro de convenções da cidade.
Trabalhando como recepcionista, percebeu que os agenciadores que a contratavam
cobravam caro pelo serviço e lhe repassavam pouco. Passou a recrutar ela
mesma as moças. Assim teve início a sua "empresa de eventos". As
meninas de Jeany, "as mais lindas do mercado", como ela faz questão de
ressaltar, começaram a atender empresários e políticos de
Brasília. Sua entrada definitiva no circuito do poder se deu em 1990
e em grande estilo. Diversas de suas moças foram contratadas para a festa
de posse de Fernando Collor, de quem Jeany se diz amiga. De Pedro Collor, o irmão
do ex-presidente, morto em 1994, afirma não ter boas lembranças.
"Depois do que aquele filho de rapariga fez com o Fernando, rompi relações
com ele", conta a amigos.
Reprodução
 | BRASÍLIA
É UMA FESTA "Recepcionista" oferece seus
serviços em site de Brasília: políticos são clientela
preferencial |
Com a instalação
da República de Alagoas, Jeany fez de Brasília sua base. Teve clientes
em todos os governos. O de Collor, para ela, "foi o melhor de todos. Pena que
tenha durado tão pouco", costuma dizer. O de Fernando Henrique foi "marrom"
(abreviação de "marromenos"). Já o de Lula, afirma, "estava
bom demais para ser verdade". Ela conta que as festas promovidas por empresários
ligados ao PT eram animadas e que os pagamentos vinham sempre em cash (150 reais
por menina, podendo chegar a 5.000 reais no caso de funcionárias "especialíssimas").
Uma dessas festas, ocorrida em fevereiro, serviu para promover a candidatura do
deputado Virgílio Guimarães, do PT mineiro, à presidência
da Câmara. Cinco de suas mais belas moças circularam pelo salão
do Hotel Nacional em Brasília usando camisetas "baby look" com o nome do
deputado estampado no peito. Algumas das meninas de Jeany se afeiçoaram
a figuras do PT a ponto de uma delas, chamada Carla, ter-se tornado grande amiga
do advogado Rogério Buratti, ex-assessor do ministro Antonio Palocci, preso
na última quarta-feira (veja reportagem na pág.
60). Se Jeany até agora tem mantido a discrição,
o mesmo não se pode dizer de algumas de suas meninas. Desde a semana passada,
circulam pelo Congresso notícias sobre a existência de uma fotografia
tirada pelo telefone celular de uma delas. A foto mostraria um deputado petista,
famoso pelos modos francos e pela baixa estatura (moral, inclusive), posando ao
lado de duas garotas como veio ao mundo e com um charuto na boca. Pois
é, quem disse que as mulheres de Jeany levam uma vida fácil?
Apesar de se sentir abandonada por deputados e empresários que sempre usufruíram
de seus serviços, Jeany diz que não pretende revelar a identidade
deles. Nessa novela do mensalão ela parece ser uma das únicas pessoas
que agem com honestidade. Nas atuais circunstâncias, uma dama entre muitos
vagabundos. |