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Entrevista: James
Watson O radical da genética
Um dos cientistas que descobriram a estrutura do DNA diz que não
deve haver restrição nenhuma à pesquisa com genes  Jerônimo
Teixeira
Suzanne Dechilot/The New York Times
 | "Se
um dia pudermos mudar os genes para que as crianças fiquem mais bonitas
ou inteligentes, não vejo por que não fazê-lo" |
| O biólogo americano
James Watson, de 77 anos, participou de uma das maiores revoluções
científicas de todos os tempos. Testes de paternidade, transgênicos,
clonagem nada disso seria possível sem a descoberta realizada por
ele e seu parceiro Francis Crick (que morreu no ano passado) em 1953. A dupla
desvendou a estrutura do DNA, a molécula que contém as informações
do código genético. Na época, Watson achou que Crick
a quem couberam as principais intuições matemáticas do achado
exagerava ao dizer que eles haviam revelado o "segredo da vida". No livro
DNA (Companhia das Letras), que chega nesta semana às livrarias
brasileiras, Watson revisa o avanço da ciência e conclui que seu
parceiro estava certo: o DNA encerra o segredo da vida, e também de como
melhorá-la. À frente do Laboratório de Cold Spring Harbor,
em Nova York, o cientista é um defensor do aprimoramento genético
da humanidade com um potencial para a controvérsia que fica claro
na entrevista que se segue. Veja Em
1953, o senhor e seu parceiro Francis Crick anunciaram ter descoberto a estrutura
do DNA, num artigo de uma página. Dada a importância do achado, o
texto talvez seja um dos mais contidos da história da ciência. Por
que essa modéstia? Watson Porque não podíamos
prever o futuro. Ao redigir aquele ensaio, Crick e eu acreditávamos estar
contribuindo para um melhor entendimento da realidade. Não sabíamos
que, na verdade, estávamos contribuindo para transformá-la. Essa
transformação começou a ocorrer vinte anos depois, quando
os cientistas Herb Boyer e Stanley Cohen inventaram uma técnica que permitiu
manipular a molécula de DNA e inauguraram a era da engenharia genética.
Eles deram um uso prático à nossa descoberta, e, a partir dali,
as coisas se aceleraram. Veja Que
inovações podemos esperar da genética nos próximos
anos? Watson Eu diria que em dez anos quase todas as lavouras
serão modificadas geneticamente. Na área da pesquisa médica,
com a qual trabalho, destacaria progressos em duas direções. No
tratamento do câncer, estamos caminhando no sentido de fazer biópsias
de DNA, nas quais examinaremos o tumor para verificar que tipos de alteração
genética estão ocorrendo. Com isso, teremos tratamentos melhores,
com drogas que matam as células cancerosas que sofreram determinada mutação
em seus genes. Tenho esperança de que daqui a uns 25 anos o câncer
já não será considerado uma doença grave. Saberemos
de suas causas, poderemos combatê-lo. Por outro lado, creio que em breve
começaremos a encontrar os genes responsáveis por uma série
de distúrbios mentais, como a esquizofrenia e o autismo. Em meu livro DNA,
quase não discuto esse tema, pois ainda não há muito que
dizer sobre isso em um texto de divulgação científica. Mas,
como eu digo no próprio livro, ele está destinado a se desatualizar.
Veja A compreensão
genética dos distúrbios mentais é então uma fronteira
que a genética ainda precisa cruzar? Watson Sim,
creio que sim. Nosso laboratório está até construindo uma
nova ala que será dedicada à pesquisa da esquizofrenia. Esse é
um bom tópico para a ciência hoje. Veja
O senhor mesmo tem um filho com problemas mentais. Watson
Sim, mas não quero tecer comentários a respeito. Ele
é capaz de ler, e não quero que leia coisa alguma sobre si mesmo.
Veja A pergunta
é sobre o senhor: como a doença de seu filho determinou seu interesse
pelas pesquisas nessa área? Watson É claro
que houve uma influência. Mas meu filho já sofre de sua doença
há bastante tempo, e só recentemente me dediquei a pesquisar sobre
o tema. Nos últimos quarenta anos, estive mais voltado para a pesquisa
do câncer. Ocorre que por muito tempo não tínhamos nenhuma
pista na área dos distúrbios mentais. Agora, creio que o problema
está ao alcance da genética, embora ainda não tão
claramente. Veja O
senhor causou muita controvérsia ao dizer que a burrice poderia ser tratada
como uma doença. Pode explicar sua posição? Watson
Muitos acreditam que somos todos iguais, que, com boa escola e boas
condições sociais, todos aprenderão da mesma forma. Não
é assim. A dificuldade de aprendizado nem sempre é resultado do
ambiente. Algumas pessoas nascem com impedimentos. Há doenças relacionadas
a agentes infecciosos, a traumas durante a gravidez, a genes ruins pode
haver diferentes causas para o mesmo efeito final. Qualquer que seja essa causa,
se o seu cérebro não consegue trabalhar, digamos, com matemática,
não é um cérebro normal. Se você não consegue
juntar dois e dois para fazer quatro, é porque algo não está
bem. Chamamos a esquizofrenia de doença mental, e o mesmo pode valer para
certos QIs muito baixos, que não são funcionais. Se uma criança
não consegue aprender a ler, eu acredito que isso seja uma doença.
Ou, se a palavra "doença" é muito forte, diria que essa pessoa precisa
de ajuda. Chamar isso ou não de doença não é o principal.
Veja Que tipo de
ajuda a genética pode fornecer a essas pessoas? Watson
Depende das razões do problema. Pessoas com dislexia moderada, por exemplo,
sabem ler, mas quem tem uma forma mais severa desse distúrbio nunca aprenderá.
Quando alguém sofre de Alzheimer e sua memória se dissolve, não
temos nenhum problema em chamar isso de doença. O mesmo pode valer para
quem não é capaz de formar memórias. Essa pode ser a razão
da burrice de algumas pessoas: talvez elas não sejam capazes de reter certas
lembranças por algum defeito genético. O fato de chamarmos isso
de doença não significa que nada possa ser feito a respeito. Pelo
contrário, significa que estamos buscando formas de ajudar essas pessoas.
E estamos fazendo progressos. Veja
Uma característica como a inteligência, que envolve
um complexo de genes, poderá um dia ser manipulada? Watson
Não temos idéia. A inteligência envolve, sim, todo um complexo
de genes. Mas você pode perdê-la com um defeito em apenas um deles.
É o que ocorre, por exemplo, na síndrome do X frágil: por
causa da falha em um gene, a pessoa nunca vai progredir além da inteligência
de uma criança de 5 anos. No momento, não temos cura para essas
condições. Talvez algum dia tenhamos uma terapia genética
para resolver o problema mas creio que será tecnicamente muito difícil
inserir um gene sadio no cérebro das vítimas da síndrome.
O que a ciência pode oferecer, no momento, é prevenção.
Podemos impedir o nascimento de crianças com problemas mentais graves.
Veja O senhor considera
aceitável abortar bebês que poderiam viver, ainda que com deficiências?
Watson Algumas pessoas pensam que o aborto é irresponsável.
Do meu ponto de vista, o que é irresponsável é deixar nascer
uma criança que terá uma doença incurável grave. É
algo que causará sofrimento desnecessário. Mas isso, é claro,
é uma escolha individual que cabe à mulher grávida. Cada
um age de acordo com seus valores, e não quero roubar a ninguém
o direito de tomar suas decisões. Se, por exemplo, o seu filho ainda não
nascido tiver síndrome de Down, você pode perguntar se há
alguma chance de curá-lo. Como cientista, responderei que não, que
não existe hoje nenhuma chance de que essa criança seja normal.
Esse é um fato científico: como as pessoas lidarão com ele
é outro problema. Algumas verão a síndrome como sendo a vontade
de Deus. Eu a vejo como uma falha biológica: no lugar de ter duas cópias
do cromossomo 21, ela tem três, e isso conduz à anormalidade. Não
vejo propósito no nascimento de quem vai levar uma vida menor, restrita.
Veja E se um dia
pudermos prever que um feto será, digamos, homossexual? Razões como
essa seriam aceitáveis para um aborto? Watson As mulheres
devem ter a liberdade de fazer o que elas consideram o melhor para sua família.
Mulheres de diferentes culturas e circunstâncias terão diferentes
concepções. Aquilo que é certo para uma delas pode não
ser para outra. Decisões genéticas devem ser tomadas pelas mães,
ou em acordo com sua família. O Estado não deveria influir sobre
isso de forma alguma. Veja
Há necessidade de alguma restrição legal à pesquisa
genética? Watson Eu diria que não. Sou muito
libertário. Se alguém um dia descobrir que podemos adicionar algum
gene para que as crianças nasçam mais inteligentes, ou mais bonitas,
ou mais saudáveis bem, eu não vejo por que não fazê-lo.
Não acredito que o sofrimento faça bem a uma pessoa. Algumas pessoas
dizem: "Cristo sofreu, então os homens também precisam sofrer".
Eu não compro esse argumento. Hoje, não temos a capacidade de melhorar
a humanidade dessa forma. Se um dia pudermos, por que não? Alguns alegam
que isso favoreceria os ricos, mas não há novidade aí: os
ricos sempre compram a nova tecnologia antes dos demais.
Veja Não há sempre o perigo
de essas tecnologias serem usadas por ideologias racistas? Watson
Tudo pode ser usado para o mal, mas isso não é motivo para parar
o progresso. Será tolo limitar a pesquisa genética porque os racistas
podem se apropriar dela. Uma epidemia causada por um vírus ou uma bactéria
pode ser uma ameaça bem maior do que o racismo poderia até
dizimar a raça humana. Há pouco tivemos a gripe do frango na Ásia,
que felizmente pôde ser controlada. A peste, cerca de 600 anos atrás,
devastou a população européia e deixou uma recessão
que se arrastou por séculos. E se uma nova infecção dizimasse
hoje a metade da população do Brasil? Seria terrível. A genética
pode nos proteger desse perigo, se um dia tivermos a capacidade de mudar a constituição
das pessoas para que elas se tornem, por exemplo, resistentes ao HIV, que causa
a aids. Veja O senhor não
veria razões nem para proibir a clonagem humana? Watson
Em 1972, quando pela primeira vez me dei conta de que um dia teríamos a
possibilidade de clonar um ser humano, escrevi um artigo a respeito. Foi um texto
prematuro: ninguém lhe deu a mínima atenção. Não
gosto da idéia de produzir cópias humanas. Acabam de clonar um cachorro,
mas ainda é algo difícil de realizar. Se um dia a técnica
se tornar mais acessível e a maioria da humanidade for de clones
bem, esse não seria um mundo que eu desejaria ver. Um só clone,
porém, não vai mudar o mundo. Não é uma arma nuclear.
E não estou mais interessado em projeções futuristas. Clonagem
deve preocupar o cientista que está na casa dos 20 anos. Na minha idade,
estou mais preocupado com a cura da doença de Alzheimer. Veja
O senhor é tido como um gerador de controvérsias.
É mesmo? Watson A genética sempre será
uma matéria controvertida. Porque as pessoas não gostam de imaginar
que aquilo que elas são é determinado por moléculas de DNA.
Nenhuma mulher gosta de pensar que nasceu feia. "Bom", elas dizem, "se eu usar
o cabelo desse jeito, ou se vestir roupas melhores..." Ela pode fazer tudo isso,
claro. Mas o fato incontestável é que algumas mulheres tiveram mais
sorte no jogo de dados genético do que outras. A questão é
ainda mais delicada no que concerne ao cérebro personalidade, inteligência
etc. As pessoas gostam de imaginar que o cérebro é totalmente maleável,
mas não é. Veja Algum
dia chegaremos ao fim do debate sobre o que tem mais efeito sobre nossa personalidade
os genes ou o ambiente? Watson Não. Essa discussão
vai sempre nos acompanhar. Muita gente ainda insiste em que a criação
que você recebe em casa tem mais influência sobre o que você
é do que sua natureza. Algumas pessoas querem até mesmo negar que
existam diferenças inatas entre os indivíduos. Afirmam que, se alguém
tem alguma deficiência, é porque foi vítima da pobreza, do
capitalismo, da poluição. Não penso que isso seja verdade,
mas compreendo a motivação: é natural que, quando algo está
errado, tentemos primeiro modificar o ambiente para eliminar o problema. Modificar
os genes é muito mais difícil. A genética e a evolução
podem ser cruéis, e algumas pessoas têm azar nesse jogo.
Veja A polêmica entre os
adeptos da teoria da evolução e aqueles que acreditam no "desenho
inteligente", na idéia de que os seres vivos já foram criados como
são, voltou a se aquecer. O que acha dessa controvérsia? Watson
Mais de um século depois de Darwin, há um impasse entre
a ciência e a religião ou, pelo menos, entre a ciência
e certas religiões, que estão obcecadas pelos rumos da biologia.
Elas não gostam do conceito de evolução, embora todos os
biólogos o apliquem, pois não se trata de uma mera teoria, mas de
um fato. A controvérsia atual é sobre a conveniência de ensinar
na escola o "desenho inteligente" lado a lado com o evolucionismo. Isso é
misturar ciência e crença. É misturar idéias com base
experimental com outras que não têm nenhuma. Não acho que
deva ocorrer. |