Edição 1919 . 24 de agosto de 2005

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Carta ao leitor
Delação premiada

Doze membros da CPI dos Correios voaram até São Paulo, na semana passada, para ouvir o doleiro Antonio Oliveira Claramunt, conhecido como Toninho da Barcelona. Condenado a 25 anos de prisão por evasão de divisas, Toninho da Barcelona transformou-se em uma das duas principais novas fontes de informação sobre o funcionamento do escândalo financeiro que ora consome o PT e o governo. A outra, também de algemas e uniforme laranja, é o advogado Rogério Buratti, secretário de governo na primeira gestão de Antonio Palocci na prefeitura da cidade paulista de Ribeirão Preto. Ambos fizeram revelações demolidoras. Ambos o fizeram na esperança de reduzir sua pena.

Criminosos desesperados podem ser considerados testemunhas idôneas em investigações sobre a vida financeira de políticos e autoridades? À primeira vista parece uma temeridade dar ouvidos a alguém nessa situação, ainda mais quando o preso se dispõe a colaborar apenas mediante o benefício de redução de sua longa pena – ou seja, não está nem um pouco interessado em ajudar a Justiça e pensa somente em seu interesse mais imediato. Criminosos em situações semelhantes costumam ser, porém, uma das mais valiosas armas da investigação policial e judiciária. É vã a idéia de que os meandros de um crime possam ser revelados por testemunhos apenas de gente honesta e idônea. Gente honesta e idônea, em geral, nada sabe dessas coisas, pois está trabalhando, descansando, cuidando da vida enquanto outros roubam seu futuro.

São incontáveis os casos de delação premiada na história policial recente. O mais famoso é o de Tommaso Buscetta, o mafioso preso no Brasil em 1983 que, em troca de benefícios, foi a testemunha-chave para o desmonte da Máfia italiana. Ivan Boesky, o megafraudador americano, aceitou falar tendo como contrapartida uma pena menor. Suas revelações foram decisivas para esclarecer o maior escândalo financeiro dos Estados Unidos nos anos 80. Toninho da Barcelona é uma testemunha legítima e valiosa, mas suas acusações não são provas em si mesmas. São apenas pistas que podem e devem ser investigadas com rigor e seriedade para, possivelmente, chegar às provas. Em entrevista por escrito a VEJA, o doleiro apresentou novas informações sobre as operações subterrâneas do PT e detalhou o formidável esquema financeiro do partido no exterior. A reportagem sobre o assunto começa na página 58.

 
 
 
 
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