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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Irracionais MC's?

Parece que a principal banda
de rap do Brasil
está descambando
para a apologia da violência

Sergio Martins

 
Rui Mendes
Mano Brown (à frente) e os Racionais: para "manos" e "playboys"

Os Racionais MC's são um caso único na música brasileira. Recusam-se a aparecer em programas de TV, não dão entrevistas e lançam seus discos sem estardalhaço de marketing. Ainda assim, vendem muito. Sobrevivendo no Inferno, de 1997, chegou a 1 milhão de cópias. Lançado no início da semana passada, Nada Como um Dia Após Outro Dia também já se tornou um fenômeno. O álbum duplo, que é distribuído pela gravadora independente Zâmbia, esgotou a tiragem inicial de 100.000 cópias em três dias. É o dobro do que o novo disco dos Raimundos, uma banda de sucesso entre os adolescentes, vendeu ao longo de três semanas, desde o seu lançamento.

Outro fato torna os Racionais MC's especiais: a admiração que conquistaram tanto entre os moradores da periferia quanto entre os jovens da classe média. Os primeiros veneram o quarteto de rappers paulistanos porque suas letras retratam o cotidiano dos bairros pobres e porque sua atitude desafiadora lhes transmite a mensagem de que "é possível vencer sem vender-se ao sistema". Os adolescentes bem nutridos absorvem as criações dos rappers de maneira um pouco diferente. Pô-las para tocar no carro é uma forma confortável de expressar rebeldia. No campo da música brasileira, aliás, é a única forma possível, dada a indigência dos grupos de rock e pop. "O playboy se sente mais homem quando ouve a gente falar de tiro e favela", filosofa KL Jay, um dos Racionais.


A música do quarteto está ligada à dos primeiros expoentes de um gênero que, nos Estados Unidos, é conhecido como gangsta rap. No princípio de suas carreiras, os "gangsta" eram essencialmente cronistas da vida nos guetos negros. Mais recentemente, ficaram associados à apologia da violência e do sexismo. Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay, os integrantes dos Racionais MC's, parecem estar seguindo pelo mesmo caminho. Em algumas músicas, eles narram o dia-a-dia da periferia paulistana como se estivessem compondo o roteiro de um filme de ação: 12 de Outubro fala sobre uma criança que foi espancada pela mãe, enquanto A Vítima traz a versão de Edi Rock para um acidente de carro em que se envolveu no fim de 1994. Outras faixas, contudo, são ambíguas. O machismo entrou definitivamente para o repertório do grupo (o disco traz pelo menos cinco novas gírias para chamar mulheres de prostitutas). E nem sempre é possível dizer se os músicos, quando cantam, simplesmente constatam como as coisas ocorrem entre os bandidos ou se apóiam o modo de vida marginal. "Verme é verme, é o que é / Rastejando no chão sempre embaixo do pé / E fala uma / Duas vezes, se marcar até três/ Na quarta xeque-mate, que nem no xadrez", canta Mano Brown em V. L. (Parte II). Verme é uma gíria para designar quem delata criminosos. O pessoal de Bangu 1 vai adorar essa faixa.


    V. L. (Parte II). Verme é uma gíria para designar quem delata criminosos. O pessoal de Bangu 1 vai adorar essa faixa.

   
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