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Irracionais
MC's?
Parece que a principal banda
de rap do Brasil
está descambando
para a apologia da violência
Sergio
Martins
Rui Mendes
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| Mano
Brown (à frente) e os Racionais: para "manos" e "playboys"
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Os
Racionais MC's são um caso único na música brasileira.
Recusam-se a aparecer em programas de TV, não dão entrevistas
e lançam seus discos sem estardalhaço de marketing. Ainda
assim, vendem muito. Sobrevivendo no Inferno, de 1997, chegou a
1 milhão de cópias. Lançado no início da semana
passada, Nada Como um Dia Após Outro Dia também já
se tornou um fenômeno. O álbum duplo, que é distribuído
pela gravadora independente Zâmbia, esgotou a tiragem inicial de
100.000 cópias em três dias. É o dobro do que o novo
disco dos Raimundos, uma banda de sucesso entre os adolescentes, vendeu
ao longo de três semanas, desde o seu lançamento.
Outro fato torna os Racionais MC's especiais: a admiração
que conquistaram tanto entre os moradores da periferia quanto entre os
jovens da classe média. Os primeiros veneram o quarteto de rappers
paulistanos porque suas letras retratam o cotidiano dos bairros pobres
e porque sua atitude desafiadora lhes transmite a mensagem de que "é
possível vencer sem vender-se ao sistema". Os adolescentes bem
nutridos absorvem as criações dos rappers de maneira um
pouco diferente. Pô-las para tocar no carro é uma forma confortável
de expressar rebeldia. No campo da música brasileira, aliás,
é a única forma possível, dada a indigência
dos grupos de rock e pop. "O playboy se sente mais homem quando ouve a
gente falar de tiro e favela", filosofa KL Jay, um dos Racionais.
A
música do quarteto está ligada à dos primeiros expoentes
de um gênero que, nos Estados Unidos, é conhecido como gangsta
rap. No princípio de suas carreiras, os "gangsta" eram essencialmente
cronistas da vida nos guetos negros. Mais recentemente, ficaram associados
à apologia da violência e do sexismo. Mano Brown, Ice Blue,
Edi Rock e KL Jay, os integrantes dos Racionais MC's, parecem estar seguindo
pelo mesmo caminho. Em algumas músicas, eles narram o dia-a-dia
da periferia paulistana como se estivessem compondo o roteiro de um filme
de ação: 12 de Outubro fala sobre uma criança
que foi espancada pela mãe, enquanto A Vítima traz
a versão de Edi Rock para um acidente de carro em que se envolveu
no fim de 1994. Outras faixas, contudo, são ambíguas. O
machismo entrou definitivamente para o repertório do grupo (o disco
traz pelo menos cinco novas gírias para chamar mulheres de prostitutas).
E nem sempre é possível dizer se os músicos, quando
cantam, simplesmente constatam como as coisas ocorrem entre os bandidos
ou se apóiam o modo de vida marginal. "Verme é verme, é
o que é / Rastejando no chão sempre embaixo do pé
/ E fala uma / Duas vezes, se marcar até três/ Na quarta
xeque-mate, que nem no xadrez", canta Mano Brown em V. L. (Parte II).
Verme é uma gíria para designar quem delata criminosos.
O pessoal de Bangu 1 vai adorar essa faixa.
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V. L. (Parte II).
Verme é uma gíria para designar quem delata criminosos.
O pessoal de Bangu 1 vai adorar essa faixa.
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