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Dois
loiros, um destino
Redford e Brad Pitt encenam
um estimulante conflito de
gerações em Jogo de Espiões
Isabela
Boscov
Divulgação
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| Mentor
e pupilo, em ação em Beirute: nos tempos "heróicos" da CIA |

Veja também |
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Tudo
o que Robert Redford tem de auto-indulgente como diretor vide os
longos e brandos O Encantador de Cavalos ou Lendas da Vida
, ele tem de austero como ator. Um vestígio de sorriso ou
um franzir de sobrancelhas quase imperceptível é tudo o
que ele se permite e eles estão na medida justa para um
personagem que tem na inescrutabilidade um meio de vida. Em Jogo
de Espiões (Spy Game, Estados Unidos, 2001), desde
sexta-feira em cartaz no país, Redford é Nathan Muir, um
agente da CIA que está literalmente na véspera de sua aposentadoria
e que, na prática, já foi posto de escanteio há muito
tempo. Com seus casacos de tweed, óculos de aro fino e rugas intocadas
pelo Botox, Muir é uma relíquia dos mais liberais e combativos
anos 70, sem nada em comum com os burocratas de sobretudo preto que tomaram
conta da agência. Com seu escritório já resumido a
um punhado de caixas de mudança, Muir fica sabendo, via um informante,
que Tom Bishop (Brad Pitt), um colega que ele mesmo recrutou e treinou,
está numa prisão chinesa por causa de uma operação
não-autorizada. Em 24 horas, ele será executado. Muir descobre
também que a CIA não pretende resgatar seu funcionário,
para não pôr a perder os incipientes acordos comerciais entre
China e Estados Unidos (a história se passa em 1991). O veterano
tem, então, esse prazo exíguo para achar um meio de se imiscuir
no novo círculo de poder, ganhar dos seus integrantes em seu próprio
jogo e, sem deixar seu quartel-general, dar um jeito de tirar Bishop da
prisão.
Jogo
de Espiões tem um verniz dos bem finos de aventura
politizada. Na superfície, ele comenta as transformações
por que a CIA passou na última década, quando assumiu uma
feição marcadamente corporativa. Muir seria um representante
de tempos mais heróicos e fica ao gosto do freguês
acreditar se é isso mesmo que eles foram , em que seus agentes
atuavam não sentados a uma escrivaninha, e sim nas zonas conflagradas
da Guerra Fria. O inglês Tony Scott, que é irmão do
Ridley de Gladiador e dirige cada vez mais como uma franquia dele,
usa com habilidade esse pano de fundo. Em longos flashbacks, em que Muir
narra seus anos ao lado de Bishop no Vietnã, em Berlim e em Beirute,
ele explora o verdadeiro tema do filme: algo como o conflito geracional
na esfera do superestrelato.
Não é por outro motivo que se escalam Redford e Brad Pitt
para os papéis de mentor e discípulo e há
algo mais do que a semelhança física em questão aqui.
Um foi, nos anos 70, o que o outro é hoje, o maior astro loiro
de Hollywood. Ambos têm também um gosto algo aventureiro
pelo cinema independente Redford com o seu Sundance Institute,
que praticamente formatou esse filão, e Pitt com suas participações
como coadjuvante em produções um pouco mais à margem
do cinema comercial. Redford, além disso, tem um bocado de crédito
na invenção de Brad Pitt, a quem deu o primeiro bom papel
como protagonista, em Nada É para Sempre. É nessas
associações edipianas com o papel público dos dois
atores que Jogo de Espiões resulta acima da média.
O auge de Redford pode ter ficado para trás, mas ele certamente
não é uma relíquia. Assim como Muir, ele ainda tem
um truque ou outro a ensinar a Pitt e aos novos burocratas do cinema americano.
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