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O
Dr. Morte da filosofia
Esse é um dos apelidos do australiano
Peter Singer, que levou a ética para
o terreno do chocante
Carlos Graieb
AP
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Peter
Singer: "A vida humana não tem mais valor que a dos outros animais"
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Veja também |
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O
homem que aparece na foto acima causa arrepios em muita gente. Ele já
foi chamado de "Dr. Morte" pela imprensa dos Estados Unidos, de "propagandista
de Herodes" por um líder católico australiano, de "pessoa
mais perigosa da face da Terra" por ativistas políticos da Europa.
Na Alemanha, tacharam-no de nazista. São palavras duras, que fariam
supor que se trata de alguma espécie de psicopata. O australiano
Peter Singer, no entanto, é apenas um filósofo. Filósofo
moral, para ser mais exato, e atual responsável pela cátedra
de bioética na universidade americana de Princeton onde
sua contratação, em 1999, ensejou passeatas e piquetes.
Anos atrás, um dos livros de Singer, Ética Prática
(Martins Fontes), foi editado no Brasil. Passou despercebido. Agora, um
novo lançamento chega às prateleiras. Chama-se Vida
Ética (tradução de Alice Xavier; Ediouro;
420 páginas; 33 reais). O volume reúne textos escritos ao
longo de trinta anos e compõe um quadro abrangente do pensamento
do autor além de revelar os motivos da hostilidade contra
ele.
O que causa tanta celeuma em torno de Peter Singer? Em termos simples,
o fato de ele dizer que o aborto, a eutanásia e o infanticídio
são justificáveis sob certas circunstâncias
quando, por exemplo, uma lesão cerebral torna impossível
que um bebê tenha vida normal, ou quando a dor transforma em tormento
a existência de um velho doente. Outras pessoas, no entanto, defendem
essas causas sem despertar o mesmo tipo de represália. O problema,
então, deve encontrar-se na forma e nos desdobramentos do raciocínio
de Singer. Como de fato se encontra.
Avesso aos eufemismos e às fórmulas edulcoradas, Singer
é com freqüência chocante. "Algumas crianças
seriamente retardadas jamais atingirão o nível de inteligência
de um cão", escreve ele, num trecho em que discute a possibilidade
de submeter bebês deficientes à morte indolor. Singer, além
disso, jamais se detém diante de uma conclusão inusitada
ou incômoda ensejada pelas premissas de seu pensamento. Sua doutrina
parte do utilitarismo formulado inicialmente, no final do século
XVIII, pelo inglês Jeremy Bentham. Um dos pilares dessa corrente
é que o ato moralmente justo é sempre aquele que resulta
num acréscimo da felicidade geral, em detrimento da dor. Ao seguir
com rigor essa idéia, até as últimas conseqüências,
Singer conclui que bebês são "substituíveis" em algumas
situações. "Quando decorrer da morte de um bebê deficiente
o nascimento de outro bebê com maiores perspectivas de uma vida
feliz, a quantidade total de felicidade será maior se for eliminada
a criança deficiente. A perda de uma vida feliz é compensada
pelo ganho de uma vida mais feliz ainda." Peter Singer, finalmente, faz
distinções inaceitáveis. É difícil
não se espantar com uma frase como "o ato de matar um bebê
deficiente não equivale, moralmente, ao ato de matar uma pessoa".
O autor explica que, em seu vocabulário, a palavra "pessoa" se
aplica apenas a seres dotados de autoconsciência, de autonomia e
de capacidade para vivenciar sensações como dor e prazer.
Curiosamente, quem conhecesse apenas os textos escritos por Peter Singer
até 1975 seria incapaz de imaginá-lo causando ultraje algum
dia. Polêmica, talvez, mas ultraje não. Seu primeiro ensaio
importante, Fome, Riqueza e Moralidade (1971), afirma que nenhum
cidadão de um país rico tem o direito de considerar-se moralmente
decente quando se mantém omisso diante de notícias sobre
a fome e o sofrimento, ainda que num lugar distante como Biafra ou Ruanda.
Singer vai ainda mais longe: segundo ele, seria um imperativo doar dinheiro
aos pobres até que o sacrifício próprio se tornasse
comparável ao deles.
Quatro anos depois, Singer lançou um livro de grande impacto. Mistura
de libelo e tratado filosófico, Liberação dos
Animais (1975) denuncia o sofrimento de porcos, frangos, bois e ratos
em fazendas de criação e laboratórios médicos.
Segundo Singer, os humanos exercem uma espécie de tirania sobre
os bichos. Ela se funda numa crença que, a seu ver, seria insustentável:
a de que a vida do Homo sapiens é intrinsecamente mais valiosa
que a das outras espécies. Singer batizou essa crença de
"especismo", por analogia com palavras igualmente negativas, como racismo
e sexismo. Esse livro já vendeu mais de 500 000 exemplares no mundo.
É a bíblia do movimento de proteção dos animais,
ao qual deu base filosófica e contornos políticos. O próprio
Singer é um ativista ecológico, que já se enjaulou
em praça pública para protestar contra experiências
médicas em bichos, foi preso tentando fotografar a fazenda de criação
de porcos de um ministro australiano e concorreu ao Senado de seu país
natal pelo Partido Verde. Nem é preciso dizer que é vegetariano
radical.
Peter Singer não é um neonazista (ele, aliás, descende
de vítimas do holocausto, crime que já denunciou em várias
oportunidades). Ele também não pôs em prática
suas teses sobre a eutanásia quando sua mãe perdeu a consciência,
vítima do mal de Alzheimer. Mas não há dúvida
de que ele perde os limites ao defender com unhas e dentes a cidadela
filosófica em que se enclausurou. Sua tentativa de enfrentar problemas
éticos como se fossem teoremas baseados em "quantidades de sofrimento"
e sua tendência a fazer comparações que ofendem a
dignidade humana mostram como o fetiche da lógica e a soberba intelectual
às vezes mais obscurecem do que clarificam uma mensagem.
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SOBRE
RATOS E
HOMENS
AP
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| Uma
bizarra experiência genética: fruto do "especismo"? |
Quando se trata de justificar experiências com animais, os
pesquisadores já dispõem de uma resposta pronta: será
que nós estaríamos dispostos a deixar que morram milhares
de seres humanos, quando eles poderiam ser salvos por uma única
experiência, feita com um animal? A maneira de responder a
essa pergunta hipotética é fazer outra pergunta: será
que os pesquisadores estariam dispostos a realizar suas experiências
utilizando um ser humano órfão, de idade inferior
a 6 meses, se o único jeito de salvar milhares de vidas fosse
esse? Se os pesquisadores não estiverem dispostos a usar
uma criança humana, então sua prontidão em
usar animais não-humanos revela uma injustificável
forma de discriminação baseada no especismo, já
que macacos, cães, gatos, ratos e outros animais são,
mais que uma criança humana, conscientes daquilo que lhes
acontece, auto-orientados e, no mínimo, tão sensíveis
à dor quanto aquela.
Trecho
de Vida
Ética
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mais que uma criança humana, conscientes daquilo que lhes
acontece, auto-orientados e, no mínimo, tão sensíveis
à dor quanto aquela.
Trecho
de Vida
Ética
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