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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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O mercado de dívidas podres

É incrível, mas muitos investidores
enxergam oportunidades e lucram nas
crises
de países pobres ou desconhecidos

Adriana Carvalho

Na sala virtual de discussões, um investidor animado diz para o outro: "Os negócios com títulos da dívida búlgara dispararam na semana passada! Um operador da União de Bancos da Bulgária disse que os investidores estão saindo da América do Sul e da Rússia e colocando seu dinheiro em lugares mais seguros, incluindo os títulos búlgaros". Em outro fórum, alguém procura ansiosamente respostas para suas dúvidas: "Os títulos da Ucrânia estão com preço bom para comprar? Alguém poderia me informar qual é a taxa de juro que estão pagando?". Esses diálogos, reproduzidos do site BradyNet, são uma pequena mostra de um frenético mercado de títulos da dívida de países pobres, quebrados, desconhecidos ou simplesmente exóticos.

Sempre há alguém disposto a diversificar seus investimentos e colocar dinheiro em papéis considerados incomuns, como os títulos da dívida da ensolarada Costa do Marfim ou da ex-república soviética da Letônia. Uma reportagem do jornal inglês Financial Times ressaltou recentemente que o colapso da Argentina e os ataques terroristas nos Estados Unidos no ano passado de modo surpreendente não afastaram totalmente os investidores de papéis arriscados da América Latina. "Há investidores que vêem em El Salvador, por exemplo, uma oportunidade de manter suas aplicações em um país que oferece rentabilidade alta em um momento em que outros emergentes mais famosos enfrentam período de perigosa turbulência", explica um analista de um grande banco estrangeiro. Um olhar mais cuidadoso para os fundamentos das economias de países como a República Dominicana revela dados interessantes. O país vem crescendo em média 7% desde 1995, o patamar mais elevado entre as economias da América Latina. É claro que esses mercados não giram um grande volume de negócios, e quem entra neles corre o risco de não conseguir vender os títulos em velocidade suficiente para se safar de uma crise. Mas há investidores que estudam de forma detalhada a economia de países pequenos, sabem exatamente onde e quando correm risco e têm apetite pelos títulos de suas dívidas.

Mesmo a Argentina, que figura em primeiro lugar no ranking dos países com maior risco de crédito do mundo, não foi abandonada pelos aplicadores. Na semana passada, alguns dos títulos de sua dívida figuravam entre os cinco mais lucrativos do mercado dos chamados "junk bonds", ou papéis de risco elevado. Registraram ganhos de até 30% em um único dia. "Há poucos negócios com papéis argentinos neste momento, mas existem investidores que continuam no mercado, geralmente fazendo operações de curto prazo", explica Cláudio Prado, representante no Brasil da Financial Trading & Consultancy (FTC). A Rússia também experienciou há pouco tempo algo como o que a Argentina vive hoje. Em agosto de 1998 o país decretou moratória de sua dívida e gerou uma crise que teve efeitos desastrosos em todo o mundo. Apesar disso, deu a volta por cima e passa por um momento de reformas vigorosas, que estão criando potencial para melhorar suas contas e diminuir a vulnerabilidade externa. Seu produto interno bruto cresceu 5% no ano passado, contra uma média de 1% nos cinco anos anteriores.

O interesse em aplicações altamente perigosas ou esdrúxulas já levou agências de peso, como a Standard & Poor's, a desenvolver índices específicos para acompanhar esse tipo de mercado. Quem quer saber como anda a Bolsa de Nova York olha para o índice Dow Jones, quem quer ver o que está acontecendo nos menores e menos negociados mercados do mundo pode consultar o "S&P Frontier Index", ou Índice S&P Fronteiras. Ele reúne informações sobre quarenta empresas de países como Bangladesh, Costa do Marfim, Croácia, Equador, Estônia, Gana, Letônia, Lituânia, Ilhas Maurício, Namíbia, Romênia, Eslovênia e Ucrânia. O site BradyNet também desenvolveu um índice semelhante. Seu "Índice de Dívidas Exóticas" reúne informações sobre os papéis de países da África, América Latina, Caribe, Leste Europeu e Ásia.




 
 
   
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