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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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BC apura fraude da Bombril

Fiscais têm indícios de que a empresa
mandou 1,3 bilhão
de dólares ao
exterior de forma irregular

Alexandre Oltramari

 
Rogerio Montenegro
Thiago Talarico
Linha de montagem da Bombril e um trecho do documento do BC: a empresa vinha prestando "informações falsas" para ocultar a real finalidade das remessas bilionárias para os Estados Unidos

O bilionário italiano Sergio Cragnotti costuma aparecer sempre associado a grandes empreitadas. Na Itália, Cragnotti é dono do Lazio, tradicional time de futebol de Roma. Também controla a Cirio, um dos maiores fabricantes de produtos alimentícios na Europa. No Brasil, poucas pessoas já ouviram falar do empresário italiano, mas quase todos conhecem sua empresa – a Bombril –, que fabrica produtos de limpeza usados há décadas por milhões de donas-de-casa. Entre eles, figura um ícone do setor, a tradicional palha de aço batizada com o nome da companhia. Atualmente, a Bombril, associada a uma história de sucesso no Brasil, fatura 500 milhões de reais por ano, seu lucro chega a 150 milhões de reais, tem 1.800 empregados e suas ações estão nas mãos de 5.800 investidores brasileiros. Na semana passada, a história da Bombril ganhou um capítulo inesperado. Na sexta-feira, o Banco Central enviou ao Ministério Público o resultado de uma investigação sigilosa, aberta há dois anos. Em mais de 12 000 páginas, distribuídas em 84 volumes, o BC informa que, entre abril de 1996 e fevereiro de 2001, a Bombril enviou 1,3 bilhão de dólares ao exterior em operações irregulares e pedirá que a empresa seja investigada por fraude cambial, evasão de divisas e lavagem de dinheiro.

"É o maior caso de lavagem de dinheiro realizado por uma única empresa no país", disse a VEJA um funcionário do Banco Central envolvido nas investigações. O caso concentra remessas irregulares equivalentes hoje a mais de 3,5 bilhões de reais, feitas a partir de uma única empresa e uma única conta bancária – a conta da Bombril S.A., de número 181601-2, aberta no Bradesco, em São Paulo. A empresa começou a ser investigada há dois anos por causa da disparidade dos números. Os fiscais do Banco Central queriam saber como a Bombril conseguia despachar em torno de 300 milhões de dólares por ano para o exterior, uma vez que seu lucro anual é muito inferior a isso, cerca de 150 milhões de reais. A curiosidade nasceu do fato de que, ao remeter o dinheiro para fora, a Bombril sempre informava que estava lidando com recursos próprios e enviando-os para a Bombril nos Estados Unidos – e que o dinheiro no exterior serviria, em alguns casos, para fazer empréstimos e, em outros, para se proteger de oscilações cambiais bruscas. Questionado sobre as operações, o diretor superintendente da Bombril, Joamir Alves, que deixou o cargo no mês passado, explicou que a empresa, na verdade, remetia dinheiro aos EUA com o propósito de comprar títulos do Tesouro americano, os chamados treasury bills, além de euronotes e eurobonds. Uma vez adquiridos lá fora, os títulos eram remetidos à Bombril no Brasil, que se encarregava de revendê-los a empresas brasileiras.

Ismês passado, explicou que a empresa, na verdade, remetia dinheiro aos EUA com o propósito de comprar títulos do Tesouro americano, os chamados treasury bills, além de euronotes e eurobonds. Uma vez adquiridos lá fora, os títulos eram remetidos à Bombril no Brasil, que se encarregava de revendê-los a empresas brasileiras.

Isso indica que a Bombril estava prestando informação falsa aos bancos que despachavam o dinheiro para os EUA, pois as remessas tinham propósito diferente do declarado às instituições bancárias. Além disso, uma empresa não pode atuar como corretora de títulos, comprando e revendendo, sem autorização do Banco Central, coisa que a Bombril jamais obteve. O fundamental, no entanto, é que a Bombril não conseguiu convencer os técnicos do BC de que as operações com títulos realmente existiram. Solicitada a entregar cópias dos contratos de venda dos títulos, a Bombril providenciou documentos insuficientes. Os contratos não informavam a quantidade de títulos, nem sua numeração, nem os bancos nos quais estariam custodiados – dados que aparecem em qualquer contrato normal. Na semana passada, VEJA teve acesso ao resumo feito pelo BC sobre o caso. Ali, está escrito que "os contratos de compra e venda desses títulos apresentam condições que indicam tratar-se de simulação". Em outro trecho, diz-se que as operações de compra e venda de títulos "possivelmente não existam de fato".

A investigação estendeu-se a outra ponta: identificar quem seriam os supostos compradores dos títulos revendidos pela Bombril. E, de novo, os fiscais do BC descobriram uma conexão esquisita. O dinheiro depositado na conta da Bombril no Bradesco, que mais tarde seria remetido ao exterior, na verdade não pertencia originalmente à Bombril – eram recursos sempre depositados por terceiros. Como a Bombril é uma grande fabricante de produtos de limpeza, os fiscais suspeitaram de que talvez tudo não passasse de sonegação fiscal. Ou seja: a Bombril poderia ter recebido grandes somas de redes de supermercado, por exemplo, e ter deixado de declará-las à Receita Federal. Movidos por essa suspeita, os fiscais conseguiram identificar quem eram os depositantes na conta da Bombril. E não encontraram nenhuma rede de supermercado, nenhum revendedor de produtos de limpeza. Os depositantes eram cinco empresas obscuras, mas o grosso do dinheiro vinha de apenas duas: Logística e Hard Sell, ambas controladas por companhia com sede no Uruguai.

 
Em outros dois trechos do documento, o BC fala que contratos de títulos podem ter sido simulados e lança dúvida sobre a existência das operações

As duas firmas são representadas no Brasil por um mesmo procurador: Geraldo Rondon da Rocha Azevedo. Convocado a prestar explicações, ele apresentou a mesma versão da Bombril, segundo a qual a Logística e a Hard Sell compraram títulos americanos. Em apoio à sua versão, o procurador entregou cópia dos mesmos contratos que a Bombril já havia apresentado – e continham as mesmas lacunas: não informavam a quantidade de títulos, não traziam a numeração dos papéis, não diziam em que banco estariam custodiados. Procurado por VEJA para preencher essas lacunas, Rocha Azevedo só quis se manifestar por escrito. Num primeiro momento, disse que tais informações "constituem sigilo fiscal". Num segundo, limitou-se a afirmar que "houve, sim, operações com títulos do Tesouro americano", mas disse que os títulos "sempre estiveram custodiados no exterior". E não quis dar detalhes sobre a vida das empresas. Questionado, por exemplo, sobre o faturamento das companhias disse que "sempre foi informado à Receita, não me cabendo divulgá-lo".

No curso da investigação, o BC descobriu que as cinco empresas, Logística e Hard Sell entre elas, não tinham atividade que justificasse a movimentação financeira. Na semana passada, VEJA obteve também cópia das declarações de imposto de renda da Hard Sell, referentes aos anos de 1996 a 1999, período em que a empresa estava depositando dinheiro na conta da Bombril. As quatro declarações indicam que a firma nunca saiu do papel. Na coluna em que deve informar seu lucro, aparece sempre "zero reais" em todos os quatro anos. Na coluna do imposto a pagar à Receita Federal, também a empresa informa "zero reais" em todo o período. No relatório final, o BC, mesmo sem mencionar os dados das declarações de renda, chega à conclusão de que todas as cinco empresas "mantinham contas no Brasil com a única finalidade de receber depósitos de terceiros para, em seguida, transferir os recursos à Bombril". O relatório do BC garante que qualquer centavo que caía nas contas dessas firmas – que funcionavam no Banco Real – era imediatamente transferido à Bombril.

O Banco Central, no curso de sua investigação, não se aprofundou em saber de onde as cinco empresas tiravam o dinheiro que, em seguida, entregavam à Bombril. Casualmente, outra investigação, conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Federal, estava no mesmo rastro – e por outras razões. Os procuradores e policiais queriam conhecer o destino dos 44 milhões de reais desviados da Sudam pela Usimar, a megaindústria de autopeças que seria construída no Maranhão e ficou só no papel. A investigação descobriu que quase todo o dinheiro desviado, 43 milhões de reais, foi depositado numa empresa do Paraná, a Engeblon, de onde tomou rumos diversos. Uma parte, de 2,4 milhões de reais, foi depositada na conta 3964523-1, no Banco Real. A proprietária da conta é a Logística – a mesma que, segundo o BC, tinha "a única finalidade de receber depósitos de terceiros para, em seguida, transferir os recursos à Bombril".

Raul Junior
Cragnotti, o controlador da Bombril: alimentos e futebol


A prova de que os 2,4 milhões desviados da Usimar acabaram na conta da Logística foi encontrada na casa de câmbio de um doleiro de Belém do Pará, José Samuel Benzecry. Ali, os investigadores descobriram cópias dos cheques que foram depositados na Logística – mas descobriram também outras coisas. Interessada em saber detalhes sobre as atividades de José Samuel Benzecry, a polícia obteve autorização judicial para grampear seus telefones. Na escuta, os policiais descobriram que o doleiro funcionava como "operador cambial" de Marcos Marcelino, um empresário do Pará enrolado em investigações do Ministério Público por suspeita de "evasão de divisas, lavagem de dinheiro, sonegação fiscal e funcionamento irregular de instituição financeira". Examinando a vida financeira de Marcos Marcelino, a polícia descobriu que, entre maio e agosto de 2000, o empresário depositou 2,3 milhões de reais em contas bancárias. As contas pertenciam a duas empresas distintas. De novo, elas mesmas: Hard Sell e Logística, que abasteciam a Bombril.

Na semana passada, VEJA encontrou outra ligação. Analisando o extrato bancário de Marcos Marcelino, constata-se que, além de irrigar as contas da Hard Sell e da Logística, o empresário fez depósitos diretamente na conta da Bombril. Em maio de 2000, sua empresa fez três depósitos na conta da Bombril, num total de 624.000 reais. Depois de três dias de pedidos de esclarecimentos à direção da Bombril, VEJA recebeu a seguinte explicação de Mario de Fiori, assessor de comunicação escalado para falar em nome da companhia: "A Bombril, até por ser uma empresa de capital aberto, sujeita à fiscalização, não se furta a dar explicações sobre qualquer fato, em qualquer época e sobre qualquer ocorrência. Ocorre que, há cerca de um mês, o novo superintendente da Bombril chama-se Gianni Grisenti. Os fatos narrados ocorreram em época anterior à atual administração. Todas as operações da Bombril foram registradas e escrituradas. Se houve algum outro fato, será apurado". Novos estrondos podem aparecer: seis grandes empresas brasileiras estão sendo investigadas pelo BC sob a mesma suspeita que envolve a Bombril. Não são apenas grandes. São muito grandes.

 
 
   
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