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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Barulho no vizinho

No Paraguai, protestos violentos
contra o governo deixam dois
mortos e cinqüenta feridos

 
Fotos AP
Polícia reprime manifestantes: estado
de exceção
Oviedo: advertido para ficar longe da política paraguaia


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Manifestações pedindo a renúncia do presidente Luis González Macchi sacudiram o Paraguai na segunda-feira e deixaram um saldo de dois mortos e mais de cinqüenta feridos. As pontes que ligam o país à Argentina e ao Brasil foram bloqueadas, e Macchi se viu obrigado a pedir o apoio das Forças Armadas para acalmar as ruas e a declarar estado de exceção, que durou até quarta-feira. O governo paraguaio tinha alguém para responsabilizar pelas manifestações: Lino Oviedo, um general que é o político mais popular do país, apesar de não morar lá. No Brasil desde 2000, depois de ser condenado a dez anos de prisão por uma tentativa de golpe de Estado, em 1996, Oviedo é também acusado de ser o mandante do assassinato de um vice-presidente, três anos depois. Em Brasília, a embaixada do Paraguai apresentou fitas de vídeo em que o general aparece conclamando seus compatriotas a participar dos protestos. Assunção pedia a expulsão de Oviedo do Brasil.

Não é tão simples. No fim do ano passado, o Supremo Tribunal Federal decidiu que Oviedo não pode ser deportado para o Paraguai, como queria o governo de Macchi, nem para nenhum país onde corra o risco de ser extraditado para Assunção. O general foi convocado a comparecer à Polícia Federal e lembrado de que, na condição de refugiado, não pode envolver-se em política. Da mesma forma que os países do Mercosul não aceitariam um golpe de Estado em um de seus membros, é preciso cautela no que diz respeito a se envolver na política interna dos outros. Se puder concorrer às eleições presidenciais de abril do próximo ano, é possível que Oviedo seja eleito. A preocupação do governo brasileiro com a situação no Paraguai vai além das rivalidades políticas locais e do minúsculo peso econômico do país vizinho. O PIB paraguaio se resume a cerca de 5,7 bilhões de dólares, 1% do brasileiro. O que não interessa é bagunça na vizinhança. Depois do colapso da economia na Argentina e da recessão no Uruguai, tudo o que falta para arruinar de vez a região é uma baderna no Paraguai.

Os problemas do presidente Macchi não são apenas políticos. A população teme o colapso do sistema bancário e está insatisfeita com o pífio desempenho da economia. O governo, que é o maior empregador do país, tem atrasado sistematicamente o pagamento dos salários dos servidores. Um plano de privatizar certas estatais, o que poderia pôr algum dinheiro no caixa do governo, acabou arquivado diante da oposição popular. Há 455.000 brasileiros vivendo do outro lado da fronteira, os chamados brasiguaios. O Paraguai está entre os vinte principais mercados para os produtos brasileiros no exterior. Compra mais do que Canadá, Portugal e Irlanda. O Paraguai é ainda sócio na hidrelétrica de Itaipu, que produz 25% da energia consumida no Brasil. Como não gastam tudo a que têm direito, os paraguaios cedem energia para o lado brasileiro. Esse excedente é suficiente para abastecer os Estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Paraná. A crise paraguaia da semana passada é reflexo do processo de fragmentação que aconteceu depois de 1989, ano da queda do general Alfredo Stroessner, que comandou o país por 35 anos. O Partido Colorado, que tem por volta de 20% da população como afiliada, foi dividido entre grupelhos rivais, que brigam pela hegemonia política. Oviedo foi um dos caciques colorados. Bom comunicador, carismático, fluente em guarani, o idioma falado pelos mais pobres, e com imagem de destemido, ele promete milagres. Com o fracasso de Macchi, Oviedo é o salvador à mão.

 
 
   
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