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Barulho
no vizinho
No Paraguai, protestos violentos
contra o governo deixam dois
mortos e cinqüenta feridos
Fotos AP
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Polícia
reprime manifestantes: estado
de exceção |
Oviedo:
advertido para ficar longe da política paraguaia |

Veja também |
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Manifestações
pedindo a renúncia do presidente Luis González Macchi sacudiram
o Paraguai na segunda-feira e deixaram um saldo de dois mortos e mais
de cinqüenta feridos. As pontes que ligam o país à
Argentina e ao Brasil foram bloqueadas, e Macchi se viu obrigado a pedir
o apoio das Forças Armadas para acalmar as ruas e a declarar estado
de exceção, que durou até quarta-feira. O governo
paraguaio tinha alguém para responsabilizar pelas manifestações:
Lino Oviedo, um general que é o político mais popular do
país, apesar de não morar lá. No Brasil desde 2000,
depois de ser condenado a dez anos de prisão por uma tentativa
de golpe de Estado, em 1996, Oviedo é também acusado de
ser o mandante do assassinato de um vice-presidente, três anos depois.
Em Brasília, a embaixada do Paraguai apresentou fitas de vídeo
em que o general aparece conclamando seus compatriotas a participar dos
protestos. Assunção pedia a expulsão de Oviedo do
Brasil.
Não é tão simples. No fim do ano passado, o Supremo
Tribunal Federal decidiu que Oviedo não pode ser deportado para
o Paraguai, como queria o governo de Macchi, nem para nenhum país
onde corra o risco de ser extraditado para Assunção. O general
foi convocado a comparecer à Polícia Federal e lembrado
de que, na condição de refugiado, não pode envolver-se
em política. Da mesma forma que os países do Mercosul não
aceitariam um golpe de Estado em um de seus membros, é preciso
cautela no que diz respeito a se envolver na política interna dos
outros. Se puder concorrer às eleições presidenciais
de abril do próximo ano, é possível que Oviedo seja
eleito. A preocupação do governo brasileiro com a situação
no Paraguai vai além das rivalidades políticas locais e
do minúsculo peso econômico do país vizinho. O PIB
paraguaio se resume a cerca de 5,7 bilhões de dólares, 1%
do brasileiro. O que não interessa é bagunça na vizinhança.
Depois do colapso da economia na Argentina e da recessão no Uruguai,
tudo o que falta para arruinar de vez a região é uma baderna
no Paraguai.
Os problemas do presidente Macchi não são apenas políticos.
A população teme o colapso do sistema bancário e
está insatisfeita com o pífio desempenho da economia. O
governo, que é o maior empregador do país, tem atrasado
sistematicamente o pagamento dos salários dos servidores. Um plano
de privatizar certas estatais, o que poderia pôr algum dinheiro
no caixa do governo, acabou arquivado diante da oposição
popular. Há 455.000 brasileiros vivendo do outro lado da fronteira,
os chamados brasiguaios. O Paraguai está entre os vinte principais
mercados para os produtos brasileiros no exterior. Compra mais do que
Canadá, Portugal e Irlanda. O Paraguai é ainda sócio
na hidrelétrica de Itaipu, que produz 25% da energia consumida
no Brasil. Como não gastam tudo a que têm direito, os paraguaios
cedem energia para o lado brasileiro. Esse excedente é suficiente
para abastecer os Estados do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do
Paraná. A crise paraguaia da semana passada é reflexo do
processo de fragmentação que aconteceu depois de 1989, ano
da queda do general Alfredo Stroessner, que comandou o país por
35 anos. O Partido Colorado, que tem por volta de 20% da população
como afiliada, foi dividido entre grupelhos rivais, que brigam pela hegemonia
política. Oviedo foi um dos caciques colorados. Bom comunicador,
carismático, fluente em guarani, o idioma falado pelos mais pobres,
e com imagem de destemido, ele promete milagres. Com o fracasso de Macchi,
Oviedo é o salvador à mão.
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