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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Mouros na costa

Espanha e Marrocos brigam por
uma ilhota
desabitada e menor
que um estádio de futebol

 
AP
Soldados espanhóis em Perejil: demonstração de força na costa
da África

Um dos mais bizarros conflitos da atualidade é a batalha entre dois países pela posse de uma ilha menor que um estádio de futebol, habitada apenas por lagartos e coberta de salsinha silvestre – sim, salsinha, que é o que significa seu nome em espanhol, Perejil. Há duas semanas, Espanha e Marrocos travam uma queda-de-braço pela ilhota que só era visitada, de vez em quando, por pastores que levavam suas cabras para desfrutar a salsinha em questão. No dia 11, seis soldados marroquinos desembarcaram na ilha, que fica a 200 metros do litoral do Marrocos, e hastearam a bandeira de seu país. Uma semana depois, numa operação militar digna de um pedaço de terra maior, tropas espanholas retomaram Perejil sem disparar um tiro. O que está em discussão não é tanto a ilha, mas o destino de meia dúzia de enclaves espanhóis na costa marroquina, como as cidades de Ceuta e Melilla. O Marrocos sempre reivindicou a posse desses lugares, mas nunca tinha demonstrado disposição para lutar por eles.

Estranhamente os marroquinos decidiram invadir a ilhota para homenagear o rei Mohammed VI, de 38 anos, que naquele dia festejava seu casamento com uma jovem moderninha, Lalla Salma, de 24. Até se pode justificar a reivindicação marroquina quando se lembra de que os espanhóis reclamam Gibraltar, enclave contíguo a seu território e ocupado pela Inglaterra desde o século XVIII. As disputas coloniais são o que menos importa nessa briga. A tensão entre os vizinhos separados por um estreito com apenas 15 quilômetros de largura decorre do uso do território espanhol como porta de entrada de imigrantes ilegais na Europa. Há 300.000 marroquinos na Espanha, em sua maioria clandestinos. O governo espanhol acusa a polícia marroquina de estar por trás de quadrilhas da imigração, do tráfico de drogas e do contrabando.

 
AFP
Casamento do rei: a noiva ficou coberta por um véu

O Marrocos, de modo bem diferente da visão romantizada vista na novela O Clone, é um país problemático. Existem 4 milhões de favelados em um total de 30 milhões de habitantes, e mais da metade da população é analfabeta. Para piorar, depois dos atentados de 11 de setembro, houve uma queda de 30% no turismo, a segunda maior fonte de divisas do país – só menor que as remessas feitas pelos imigrantes marroquinos. A perigosa travessia em balsa para praias espanholas ainda é considerada a única perspectiva de um futuro melhor para milhares de jovens do Marrocos. Quem teve a idéia de incluir uma guerra na festa de casamento do rei? A festança durou três dias, e só no último a princesa pôde posar para fotos sem estar coberta por um longo véu, que usou durante toda a cerimônia. O rei, coroado há três anos com promessas de modernização, perdeu uma boa oportunidade de reforçar os laços com seus vizinhos do Primeiro Mundo: nenhum dirigente europeu foi convidado para a festa, que, de notável, só teve a presença de Bill Clinton e sua filha, Chelsea, e o filho do ditador líbio, Muamar Khadafi.

 
 
   
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