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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Como Saddam
recompensa o terror

Em busca da simpatia do mundo
árabe, o ditador do Iraque paga
às famílias dos homens-bomba


Vítima do duplo atentado suicida em Tel-Aviv, na semana passada, e Saddam Hussein: 20 milhões de dólares enviados aos palestinos


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Depois que ficou claro que deve ser levada a sério a ameaça americana de usar a força para tirá-lo do poder, o ditador Saddam Hussein, do Iraque, lançou-se numa campanha de emergência para refazer amizades nos países vizinhos e aumentar seu prestígio com a população árabe. Desde março, diplomatas iraquianos já visitaram todos os países do Golfo Pérsico, que ainda não perdoaram Saddam pela invasão do Kuwait, há uma década, e até começaram a negociar uma troca de prisioneiros com o pior inimigo, o Irã. Para conquistar o coração dos árabes comuns, o ditador também aumentou o tom da retórica a favor dos palestinos. A decisão mais espantosa de Saddam, contudo, tem a ver com o patrocínio do terrorismo: ele subiu de 15.000 para 25.000 dólares a recompensa paga às famílias dos homens-bomba que cometem atentados suicidas em Israel. A entrega do dinheiro, que era feita discretamente por enviados de Bagdá, é agora efetuada com pompa e fanfarras em cerimônias públicas.

Na semana passada, viram-se pela primeira vez cenas filmadas de uma dessas cerimônias, realizada em Tulkarm, a 90 quilômetros de Jerusalém. O vídeo mostra representantes da Frente Árabe de Libertação, uma pequena facção palestina patrocinada pelo governo de Bagdá, entregando cheques às famílias de terroristas mortos num salão enfeitado com fotos de Saddam Hussein. Em discursos inflamados, os representantes de Saddam tentam convencer outras famílias a fazer de seus filhos novos "mártires". Nos últimos 22 meses, desde que começou a Intifada, a revolta palestina contra Israel, o Iraque já gastou 20 milhões de dólares em pagamentos aos mortos e feridos no conflito. A dinheirama faz uma diferença enorme nos paupérrimos territórios da Cisjordânia e da Faixa de Gaza, cuja renda per capita era de 1.600 dólares antes de a economia entrar em parafuso com a Intifada. Essa é uma das razões pelas quais a popularidade do ditador sobe como um foguete entre os palestinos.

Em cerimônia gravada em vídeo, familiares de um morto na intifada recebem cheque enviado de Bagdá

Para Saddam, as mortes merecem uma tabela de preços. O prêmio maior pago pelos atentados suicidas tem o objetivo de servir de incentivo para novas matanças. Outra recompensa que engordou foi o pagamento por morte em confronto com as tropas israelenses, que subiu de 1.000 para 10.000 dólares. Um palestino com ferimentos graves recebe 1.000 dólares e quem tem feridas leves, 500. Estima-se que 4.000 pessoas já receberam cheques. Para o presidente palestino Yasser Arafat, tudo isso é um enorme constrangimento. Ele está sob pressão dos Estados Unidos e de Israel para conter os atentados e não tem como argumentar que desconhece as ruidosas cerimônias públicas de promoção do terrorismo patrocinadas por Saddam. Raked Salem, secretário-geral da Frente Árabe de Libertação, diz que muitas famílias resistem a aceitar pagamento pela morte de um ente querido. "Nós então dizemos que não podemos mandar o dinheiro de volta para o presidente Saddam", contou Salem numa entrevista ao jornal americano The Washington Post. A Autoridade Palestina, de Yasser Arafat, costuma dar 2.000 dólares à família dos mortos, e outras organizações árabes também fazem donativos. Mas nenhuma delas quer vincular a ajuda aos terríveis atentados terroristas.

O dinheiro de Saddam serve para pôr lenha numa fogueira que palestinos e israelenses precisam desesperadamente arrefecer. Sem uma pausa na matança, fica impossível pensar em negociação de paz. Na semana passada, um ataque a um ônibus israelense na Cisjordânia (oito israelenses mortos, entre eles um bebê), seguido de um duplo atentado suicida em Tel-Aviv (três mortos), marcou o fim de quase um mês de relativa calmaria. Os atentados levaram Israel a rever a decisão de aliviar a pressão militar sobre as cidades palestinas, ocupadas por tanques e submetidas ao toque de recolher. O Estado judeu também cancelou negociações marcadas com os palestinos. A pior notícia para a população palestina foi a decisão israelense de demolir a casa dos envolvidos em atentados e de deportar seus familiares para a Faixa de Gaza. Uma das razões dessa medida cruel, que vai separar famílias e criar novos refugiados, é a de tornar ainda menos compensador o dinheiro enviado por Saddam.

 

A TABELA DO MARTÍRIO

Quanto o ditador de Bagdá envia à família de palestinos mortos ou
feridos em ataques contra Israel

25 000 dólares por terrorista suicida

10 000 dólares para cada morto em combate

1 000 dólares para o ferido com gravidade

500 dólares para o ferido sem gravidade



 
 
   
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