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Missão
civilizadora
Com sua experiência acadêmica,
alma de negociador e vocação de
servidor público, Armínio Fraga
dialoga com os candidatos
para
amenizar a turbulência
pré-eleitoral dos mercados
Malu
Gaspar e Ronaldo França

Veja também |
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Nos
últimos dias, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga,
fez o que nenhum tucano da cúpula do governo sonhou realizar. Recebeu
o petista Aloizio Mercadante e o tucano José Aníbal para
discutir com eles posições comuns em relação
à economia brasileira nesta fase de transição de
presidente. Armínio vai conversar também com o candidato
Ciro Gomes. O assunto central das conversas são os "pontos fundamentais"
da política econômica que deveriam ser preservados por qualquer
governante que venha a ser eleito. Num momento em que os candidatos a
presidente se tratam com insultos pessoais e seus assessores mais próximos
participam alegremente do triste carnaval de ofensas, a iniciativa de
Armínio é um sopro de brisa civilizatória.
Patricia Santos/Folha Imagem
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| Armínio
joga golfe no Rio: gosto e talento herdados do pai e passados ao filho,
Sylvio |
A ação de Fraga, num período turbulento, tem pelo
menos um outro precedente bem-sucedido. Deu certo na Coréia do
Sul, em 1997, como lembrou a revista The Economist na edição
da semana passada, em matéria sobre o Brasil. O candidato da oposição
sul-coreana, Kim Dae Jung, liderava as pesquisas, deixando o mercado apreensivo
com os rumos da economia do país. Um pacto entre situação
e oposição acalmou os ânimos e possibilitou a assinatura
de um acordo com o FMI para um empréstimo de 57 bilhões
de dólares. No México, um acordo semelhante garantiu uma
transição sem grandes problemas. O atual presidente, Vicente
Fox, foi o primeiro oposicionista a vencer as eleições,
e a mudança se deu sem maiores traumas porque todos os partidos
concordavam em pontos fundamentais da economia. Tentar a mesma coisa no
Brasil é uma atitude civilizatória, um passo enorme das
elites políticas rumo a práticas guiadas pelo interesse
público, e não pelas necessidades momentâneas dos
palanques. Para o governo, é também uma maneira de se redimir
da tática suicida tentada há algumas semanas, quando se
dizia que, se o povo elegesse um não-tucano, o Brasil poderia virar
a Argentina. Tanto o presidente Fernando Henrique quanto o candidato José
Serra repetiram essa profecia eleitoreira e perigosa para a estabilidade
financeira do Brasil. Armínio Fraga fez diferente. Preferiu trabalhar
pelo país, e não por um dos candidatos.
O presidente do BC conta que estava em Washington quando recebeu o telefonema
de um amigo em comum dizendo que Mercadante gostaria de conversar com
ele. Imediatamente, ligou para o deputado. Na segunda-feira 15, foi marcado
o almoço que os dois tiveram na última quinta-feira, na
sede do BC, em Brasília. O anúncio do encontro, feito pelo
petista, provocou ciumeira entre os tucanos, a quem pareceu que Fraga
estava admitindo a possibilidade de Lula ganhar a eleição.
Para desfazer essa impressão, Fraga reuniu-se também com
o presidente do PSDB, José Aníbal. O tucano foi ao BC um
dia antes de Mercadante e saiu falando de "governabilidade". Ciro Gomes
será o próximo a conversar com Fraga. Já se falaram
ao telefone.
O presidente do BC descarta a suspeita de que sua iniciativa tenha relação
com exigências do Fundo Monetário Internacional para fechar
um possível "acordo de transição" com o Brasil. "Todas
as conversas, dentro e fora do país, tiveram o objetivo de tranqüilizar
a economia neste momento conturbado", diz Fraga. Nesta semana, os diálogos
continuam. Na terça-feira, ele e o ministro da Fazenda, Pedro Malan,
têm um almoço com a vice-diretora-gerente do FMI, Anne Krueger.
No encontro da semana passada, o presidente do BC garantiu a Mercadante
que não há nada em discussão com o Fundo. Mas não
descartou um acordo até o final do governo perspectiva que,
aliás, contribuiu para amainar um pouco a turbulência do
mercado, junto com o anúncio da primeira queda na taxa de juros
desde março. O economista João Paulo dos Reis Velloso, ex-ministro
do Planejamento, diz que o Banco Central tem papel fundamental na estratégia
do governo Fernando Henrique de facilitar a transição. Principalmente
porque, sob o comando de Armínio, o BC aproximou-se muito do modelo
de instituição independente. "Não o é legalmente,
mas está assim na prática", afirma. "E isso é importante
para sinalizar tranqüilidade ao mercado."
Tasso Marcelo/AE
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Ciro (foto) e Mercadante: conversa sobre pontos fundamentais
da política econômica |
A formação familiar e intelectual de Armínio Fraga,
45 anos, produziu o caso raro de um profissional que combina pendor acadêmico,
esperteza de mercador e vocação de servidor público.
"Temos tido momentos de stress, mas tento não passar isso para
a minha equipe", conta Fraga. Ele assumiu o BC no começo de 1999,
numa situação turbulenta, logo depois da guinada cambial.
Nem bem assumiu e teve sua idoneidade questionada pelo fato de ter trabalhado
com o megainvestidor George Soros, em sua firma de investimentos em Nova
York. Em pouco tempo desmontou com resultados a má vontade dirigida
a ele. Armínio Fraga conseguiu um feito extraordinário de
política econômica que foi impedir a volta da inflação
depois da desvalorização cambial. Essa conquista brasileira,
inédita nas economias modernas, tornou-se objeto de estudo em diversas
escolas de negócios fora do Brasil.
Fraga
é filho de Sylvio Fraga, um dos mais renomados dermatologistas
do país, já falecido, e da americana Margaret Breslin. Nasceu
no Rio de Janeiro e estudou no colégio jesuíta Santo Inácio,
por onde passou boa parte da elite intelectual carioca. Ali estudaram
o ex-ministro da Fazenda Mario Henrique Simonsen, que morreu há
cinco anos, e o atual, Pedro Malan. A linhagem médica da família
inclui Clementino Fraga Filho, que dá nome a um dos principais
hospitais do Rio de Janeiro. Contra a vontade do pai, Armínio decidiu-se
pela economia. Já demonstrando o viés conciliador que o
caracteriza à frente do Banco Central, matriculou-se também
numa escola de medicina. Colega de Fraga no Santo Inácio, o médico
carioca Gustavo Meireles conta que, quando perguntavam por que cursar
duas faculdades, ele respondia: "É para o caso de eu mudar de idéia
até o terceiro ano".
Armínio Fraga foi o primeiro lugar no vestibular de economia da
PUC do Rio, onde também fez mestrado. "Ele nunca passou a impressão
de estudar demais. Ia às festas, saía com os amigos como
qualquer pessoa normal. Mas, nas provas, era absolutamente imbatível.
Coisa de gênio", diz o livreiro e colecionador Pedro Corrêa
do Lago, seu colega de turma no mestrado. Na PUC, Armínio não
usava barba, tinha cabelo e nenhuma militância política.
Mas não era alienado. Foi o orador da turma. O perfil do aluno
brilhante que não parece fazer muito esforço o acompanha
até hoje. No BC, Fraga nunca varou as madrugadas esperando o fechamento
das bolsas asiáticas nem se orgulha de ser um leitor voraz de teses
arcanas de economia. Em sua biblioteca, metade dos livros trata de questões
econômicas, mas 10% são obras sobre sua paixão esportiva,
o golfe, que joga desde os 12 anos e já transmitiu ao filho, Sylvio,
de 16. Na PUC conheceu Lucyna, com quem decidiu casar-se uma semana após
o início do namoro. O casal mudou-se em seguida para os Estados
Unidos, onde Fraga fez doutorado na Universidade Princeton. Foi contratado
em seguida como economista-chefe e gerente de operações
do banco Garantia e, depois, como vice-presidente da Salomon Brothers.
Em sua primeira passagem por Brasília, em 1991, trabalhou no governo
Collor, ao ser convidado pelo ministro da Fazenda, Marcílio Marques
Moreira, para assumir a diretoria de operações internacionais
do Banco Central. Ao sair do BC, Fraga voltou aos EUA para trabalhar com
os fundos de investimentos administrados por George Soros. Graças
a esse empregão, Fraga hoje não tem apertos financeiros.
Ele atuou durante anos num ramo em que os executivos bem-sucedidos, como
foi seu caso, ganham alguns milhões de dólares por ano.
No auge da fama, trabalhando com Soros, Armínio Fraga tinha uma
vida sem ostentação. Morava no confortável subúrbio
de Chatham, em Nova Jersey, e ia de carro para o trabalho, em Manhattan,
todos os dias. Saía de casa antes de o sol nascer para fugir dos
engarrafamentos. Chegava ao escritório e ia direto para a esteira
da academia. Às 8 estava a postos em sua sala no Soros Fund. Três
vezes por semana, fazia o que mais lhe dava prazer, lecionar no curso
de pós-graduação em economia da Universidade Colúmbia.
Às 10 da noite estava na cama. De volta ao Brasil, instalou-se
mais do que confortavelmente com a família. Um ano e meio atrás,
comprou uma casa no Jardim Pernambuco, um condomínio exclusivo
do Leblon, no Rio de Janeiro. O preço médio de uma casa
ali é 1,5 milhão de dólares.
Armando Favaro/AE
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| José
Aníbal: encontro pôs fim ao ciúme tucano |
É difícil encontrar em Armínio Fraga hábitos
extravagantes. Bebe Coca-Cola nos jantares. Eventualmente, pede uma taça
de vinho, mas parece não se interessar pela safra nem pelo tipo
da uva. Armínio ainda acorda cedo, por volta de 6 da manhã,
e prepara o próprio café. Mas recusa qualquer outra tarefa
doméstica. Em casa, não troca uma lâmpada. A administração
fica a cargo de Lucyna, que também escolhe seus ternos, gravatas
e camisas. Sua bermuda predileta para jogar golfe está furada há
algum tempo, e ninguém o convence a aposentá-la.
A semana de trabalho de Fraga é dividida entre Rio de Janeiro,
Brasília e São Paulo. Fica na capital federal de terça
a quinta-feira. Às sextas, despacha no Rio. Às segundas,
geralmente voa para São Paulo. Lucyna, com quem tem dois filhos,
também é economista, mas não exerce a profissão.
Ela dirige a ONG Associação Saúde Criança
Renascer, que cuida de dar acesso a recursos médicos a meninos
e meninas carentes. As festas promovidas por Lucyna em benefício
da ONG costumam reunir centenas de convidados da sociedade carioca. Essas
são algumas das poucas ocasiões em que o casal Fraga freqüenta
as colunas sociais.
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Retratos
da vida
Armínio Fraga, filho de classe média carioca, tem
hábitos simples
e é muito ligado à família. Abaixo, três
personagens
importantes de seu álbum pessoal
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Álbum de família

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INFÂNCIA
Armínio
com Cice, uma de suas três irmãs: único
filho homem
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André Nazareth/Strana
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Ricardo Fasanello/Strana
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PRESENTE
ucyna, sua mulher há vinte anos: trabalho social com crianças
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RAÍZES
Margaret, a mãe
americana: preocupação
com
o português
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