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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Os obstáculos à frente dos candidatos
Armínio Fraga, presidente do BC, dialoga com a oposição

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Missão civilizadora

Com sua experiência acadêmica,
alma de negociador e vocação de
servidor público, Armínio Fraga
dialoga com os candidatos
para
amenizar a turbulência
pré-eleitoral dos mercados

Malu Gaspar e Ronaldo França


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Dos arquivos de VEJA
Entrevista de 14/3/2001: “Vamos sobreviver”
Reportagem de 6/12/2000: "Festas do bem"
Entrevista de 25/8/1999: “Não vamos ceder”
Reportagem de 10/2/1999: "Armínio e os palpiteiros"

Nos últimos dias, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, fez o que nenhum tucano da cúpula do governo sonhou realizar. Recebeu o petista Aloizio Mercadante e o tucano José Aníbal para discutir com eles posições comuns em relação à economia brasileira nesta fase de transição de presidente. Armínio vai conversar também com o candidato Ciro Gomes. O assunto central das conversas são os "pontos fundamentais" da política econômica que deveriam ser preservados por qualquer governante que venha a ser eleito. Num momento em que os candidatos a presidente se tratam com insultos pessoais e seus assessores mais próximos participam alegremente do triste carnaval de ofensas, a iniciativa de Armínio é um sopro de brisa civilizatória.


Patricia Santos/Folha Imagem
Armínio joga golfe no Rio: gosto e talento herdados do pai e passados ao filho, Sylvio


A ação de Fraga, num período turbulento, tem pelo menos um outro precedente bem-sucedido. Deu certo na Coréia do Sul, em 1997, como lembrou a revista The Economist na edição da semana passada, em matéria sobre o Brasil. O candidato da oposição sul-coreana, Kim Dae Jung, liderava as pesquisas, deixando o mercado apreensivo com os rumos da economia do país. Um pacto entre situação e oposição acalmou os ânimos e possibilitou a assinatura de um acordo com o FMI para um empréstimo de 57 bilhões de dólares. No México, um acordo semelhante garantiu uma transição sem grandes problemas. O atual presidente, Vicente Fox, foi o primeiro oposicionista a vencer as eleições, e a mudança se deu sem maiores traumas porque todos os partidos concordavam em pontos fundamentais da economia. Tentar a mesma coisa no Brasil é uma atitude civilizatória, um passo enorme das elites políticas rumo a práticas guiadas pelo interesse público, e não pelas necessidades momentâneas dos palanques. Para o governo, é também uma maneira de se redimir da tática suicida tentada há algumas semanas, quando se dizia que, se o povo elegesse um não-tucano, o Brasil poderia virar a Argentina. Tanto o presidente Fernando Henrique quanto o candidato José Serra repetiram essa profecia eleitoreira – e perigosa para a estabilidade financeira do Brasil. Armínio Fraga fez diferente. Preferiu trabalhar pelo país, e não por um dos candidatos.

O presidente do BC conta que estava em Washington quando recebeu o telefonema de um amigo em comum dizendo que Mercadante gostaria de conversar com ele. Imediatamente, ligou para o deputado. Na segunda-feira 15, foi marcado o almoço que os dois tiveram na última quinta-feira, na sede do BC, em Brasília. O anúncio do encontro, feito pelo petista, provocou ciumeira entre os tucanos, a quem pareceu que Fraga estava admitindo a possibilidade de Lula ganhar a eleição. Para desfazer essa impressão, Fraga reuniu-se também com o presidente do PSDB, José Aníbal. O tucano foi ao BC um dia antes de Mercadante e saiu falando de "governabilidade". Ciro Gomes será o próximo a conversar com Fraga. Já se falaram ao telefone.

O presidente do BC descarta a suspeita de que sua iniciativa tenha relação com exigências do Fundo Monetário Internacional para fechar um possível "acordo de transição" com o Brasil. "Todas as conversas, dentro e fora do país, tiveram o objetivo de tranqüilizar a economia neste momento conturbado", diz Fraga. Nesta semana, os diálogos continuam. Na terça-feira, ele e o ministro da Fazenda, Pedro Malan, têm um almoço com a vice-diretora-gerente do FMI, Anne Krueger. No encontro da semana passada, o presidente do BC garantiu a Mercadante que não há nada em discussão com o Fundo. Mas não descartou um acordo até o final do governo – perspectiva que, aliás, contribuiu para amainar um pouco a turbulência do mercado, junto com o anúncio da primeira queda na taxa de juros desde março. O economista João Paulo dos Reis Velloso, ex-ministro do Planejamento, diz que o Banco Central tem papel fundamental na estratégia do governo Fernando Henrique de facilitar a transição. Principalmente porque, sob o comando de Armínio, o BC aproximou-se muito do modelo de instituição independente. "Não o é legalmente, mas está assim na prática", afirma. "E isso é importante para sinalizar tranqüilidade ao mercado."

Tasso Marcelo/AE
Ciro (foto) e Mercadante: conversa sobre pontos fundamentais da política econômica


A formação familiar e intelectual de Armínio Fraga, 45 anos, produziu o caso raro de um profissional que combina pendor acadêmico, esperteza de mercador e vocação de servidor público. "Temos tido momentos de stress, mas tento não passar isso para a minha equipe", conta Fraga. Ele assumiu o BC no começo de 1999, numa situação turbulenta, logo depois da guinada cambial. Nem bem assumiu e teve sua idoneidade questionada pelo fato de ter trabalhado com o megainvestidor George Soros, em sua firma de investimentos em Nova York. Em pouco tempo desmontou com resultados a má vontade dirigida a ele. Armínio Fraga conseguiu um feito extraordinário de política econômica que foi impedir a volta da inflação depois da desvalorização cambial. Essa conquista brasileira, inédita nas economias modernas, tornou-se objeto de estudo em diversas escolas de negócios fora do Brasil.

Fraga é filho de Sylvio Fraga, um dos mais renomados dermatologistas do país, já falecido, e da americana Margaret Breslin. Nasceu no Rio de Janeiro e estudou no colégio jesuíta Santo Inácio, por onde passou boa parte da elite intelectual carioca. Ali estudaram o ex-ministro da Fazenda Mario Henrique Simonsen, que morreu há cinco anos, e o atual, Pedro Malan. A linhagem médica da família inclui Clementino Fraga Filho, que dá nome a um dos principais hospitais do Rio de Janeiro. Contra a vontade do pai, Armínio decidiu-se pela economia. Já demonstrando o viés conciliador que o caracteriza à frente do Banco Central, matriculou-se também numa escola de medicina. Colega de Fraga no Santo Inácio, o médico carioca Gustavo Meireles conta que, quando perguntavam por que cursar duas faculdades, ele respondia: "É para o caso de eu mudar de idéia até o terceiro ano".

Armínio Fraga foi o primeiro lugar no vestibular de economia da PUC do Rio, onde também fez mestrado. "Ele nunca passou a impressão de estudar demais. Ia às festas, saía com os amigos como qualquer pessoa normal. Mas, nas provas, era absolutamente imbatível. Coisa de gênio", diz o livreiro e colecionador Pedro Corrêa do Lago, seu colega de turma no mestrado. Na PUC, Armínio não usava barba, tinha cabelo e nenhuma militância política. Mas não era alienado. Foi o orador da turma. O perfil do aluno brilhante que não parece fazer muito esforço o acompanha até hoje. No BC, Fraga nunca varou as madrugadas esperando o fechamento das bolsas asiáticas nem se orgulha de ser um leitor voraz de teses arcanas de economia. Em sua biblioteca, metade dos livros trata de questões econômicas, mas 10% são obras sobre sua paixão esportiva, o golfe, que joga desde os 12 anos e já transmitiu ao filho, Sylvio, de 16. Na PUC conheceu Lucyna, com quem decidiu casar-se uma semana após o início do namoro. O casal mudou-se em seguida para os Estados Unidos, onde Fraga fez doutorado na Universidade Princeton. Foi contratado em seguida como economista-chefe e gerente de operações do banco Garantia e, depois, como vice-presidente da Salomon Brothers.

Em sua primeira passagem por Brasília, em 1991, trabalhou no governo Collor, ao ser convidado pelo ministro da Fazenda, Marcílio Marques Moreira, para assumir a diretoria de operações internacionais do Banco Central. Ao sair do BC, Fraga voltou aos EUA para trabalhar com os fundos de investimentos administrados por George Soros. Graças a esse empregão, Fraga hoje não tem apertos financeiros. Ele atuou durante anos num ramo em que os executivos bem-sucedidos, como foi seu caso, ganham alguns milhões de dólares por ano. No auge da fama, trabalhando com Soros, Armínio Fraga tinha uma vida sem ostentação. Morava no confortável subúrbio de Chatham, em Nova Jersey, e ia de carro para o trabalho, em Manhattan, todos os dias. Saía de casa antes de o sol nascer para fugir dos engarrafamentos. Chegava ao escritório e ia direto para a esteira da academia. Às 8 estava a postos em sua sala no Soros Fund. Três vezes por semana, fazia o que mais lhe dava prazer, lecionar no curso de pós-graduação em economia da Universidade Colúmbia. Às 10 da noite estava na cama. De volta ao Brasil, instalou-se mais do que confortavelmente com a família. Um ano e meio atrás, comprou uma casa no Jardim Pernambuco, um condomínio exclusivo do Leblon, no Rio de Janeiro. O preço médio de uma casa ali é 1,5 milhão de dólares.

Armando Favaro/AE
José Aníbal: encontro pôs fim ao ciúme tucano


É difícil encontrar em Armínio Fraga hábitos extravagantes. Bebe Coca-Cola nos jantares. Eventualmente, pede uma taça de vinho, mas parece não se interessar pela safra nem pelo tipo da uva. Armínio ainda acorda cedo, por volta de 6 da manhã, e prepara o próprio café. Mas recusa qualquer outra tarefa doméstica. Em casa, não troca uma lâmpada. A administração fica a cargo de Lucyna, que também escolhe seus ternos, gravatas e camisas. Sua bermuda predileta para jogar golfe está furada há algum tempo, e ninguém o convence a aposentá-la.

A semana de trabalho de Fraga é dividida entre Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo. Fica na capital federal de terça a quinta-feira. Às sextas, despacha no Rio. Às segundas, geralmente voa para São Paulo. Lucyna, com quem tem dois filhos, também é economista, mas não exerce a profissão. Ela dirige a ONG Associação Saúde Criança Renascer, que cuida de dar acesso a recursos médicos a meninos e meninas carentes. As festas promovidas por Lucyna em benefício da ONG costumam reunir centenas de convidados da sociedade carioca. Essas são algumas das poucas ocasiões em que o casal Fraga freqüenta as colunas sociais.

 

Retratos da vida

Armínio Fraga, filho de classe média carioca, tem hábitos simples e é muito ligado à família. Abaixo, três personagens importantes de seu álbum pessoal

 

Álbum de família

INFÂNCIA
Armínio com Cice, uma de suas três irmãs: único filho homem

André Nazareth/Strana
Ricardo Fasanello/Strana
PRESENTE
ucyna, sua mulher há vinte anos: trabalho social com crianças

RAÍZES
Margaret, a mãe americana: preocupação com o português

 

 
 
   
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