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Os ajustes para
enfrentar Ciro
O que
a campanha de José Serra e a
de Lula planejam para evitar o avanço
do candidato da Frente Trabalhista
Tasso Marcelo/AE
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Ana Araújo
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| Ciro:
comentários sobre o assessor que fala português com sotaque americano
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O
candidato tucano José Serra e a vice Rita Camata, do PMDB: reuniões
para rever a estratégia política e reforçar os pontos fracos do marketing
da campanha |

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Quando duas
celebridades do show biz são flagradas aos beijinhos pelas lentes
dos fotógrafos, elas dizem quase sempre a famosa frase "Somos apenas
bons amigos" que funciona como uma espécie de confirmação
do namoro. O mundo das eleições também tem sua frase-símbolo.
É a seguinte: "A pesquisa que interessa é a das urnas".
Proferida pelos candidatos e seus assessores a cada vez que um instituto
de pesquisas lança uma rodada de números desagradáveis
para o comitê, a frase quer dizer exatamente o contrário.
Quer dizer que a pesquisa acendeu um sinal amarelo de alerta e a campanha
precisa ser ajustada. Na semana passada, a frase-símbolo era proferida
sobretudo na campanha tucana de José Serra.
De acordo
com as últimas pesquisas eleitorais, o candidato Ciro Gomes, que
havia colado em Serra no segundo lugar, continuou subindo na preferência
do eleitor. Agora, abriu 8 pontos de vantagem, de acordo com os dados
do Instituto Vox Populi. Lula permanecia em primeiro lugar, com 34% das
intenções, Ciro tinha 24%, Serra, 16% e Garotinho, 11%.
Mais: nas simulações de segundo turno, Garotinho e Serra
perdem de longe para Lula. Ciro é o único que empata com
o petista.
Os tucanos
já contavam com um crescimento de Ciro nesta fase da campanha,
mas as intenções de voto ficaram acima do esperado. Desde
que começou sua arrancada, no início de junho, Ciro vem
crescendo ao ritmo de 0,5 ponto por dia, o que significa 600.000
votos a cada 24 horas. Equivale a conquistar todos os dias os eleitores
de uma cidade de grande porte, como Campinas ou Goiânia. Um detalhe
animador para Ciro: nas pesquisas de intenção de voto, ele
apresentou bom crescimento entre os formadores de opinião, como
os que possuem curso superior e os que ganham acima de dez salários
mínimos, e ainda tem potencial para crescer nos próximos
levantamentos. Isso porque 44% do eleitorado, que não vota em Ciro,
informa que, na falta do seu candidato predileto, optaria pelo ex-governador
do Ceará.
Como resultado
dessa subida, a cúpula da campanha tucana passou a semana em reuniões.
Numa delas, com mais de quarenta representantes do PSDB, PMDB, PFL e PPB,
ficou decidido que Serra deve reforçar sua presença nas
regiões Sul e Sudeste. Por causa disso, o candidato cancelou uma
série de visitas à Região Norte. Outra decisão
tomada foi reforçar a coordenação-geral da campanha
trazendo para o comitê o homem forte do governo na área da
propaganda. Como sempre acontece quando o momento não é
favorável, os políticos procuram um responsável pelo
insucesso temporário. Uma terceira decisão, talvez a mais
importante, foi partir para o ataque. O plano é tentar reforçar
a idéia de que Ciro Gomes é mesmo o novo Collor. De acordo
com um dos principais assessores de Serra, nessa guerra vale tudo. Pode
ser travada através de uma simples referência jocosa, comentando
por exemplo que Collor tinha um assessor econômico chamado Ibrahim
Eris, que falava português com sotaque. Ciro também tem o
seu. É Mangabeira Unger, um brasileiro educado nos Estados Unidos
que exibe pesadíssimo sotaque americano. Pode ser a sugestão
de que o estilo pavio curto de Ciro Gomes é um defeito grave. O
mais importante, informa o colaborador de Serra, não é explicar
a relação entre os dois políticos, mas carimbá-lo.
O marqueteiro
Duda Mendonça, que coordenou mais de cinqüenta campanhas políticas,
comentava na semana passada já ter tido a oportunidade de ganhar
eleições graças a ajustes feitos na última
hora, mas também perdeu algumas batalhas importantes, independentemente
das mudanças operadas no comitê eleitoral. "O tempo me ensinou
que a melhor forma de agir é definir uma estratégia coerente
e entender que um momento ruim muitas vezes não é indicação
de que ela esteja errada", analisa. Para evitar que apareçam mais
desafios do que os previstos, as campanhas de Serra e Lula já começaram
a reagir à ascensão de Ciro. O PT definiu três mudanças.
A primeira será no discurso. A partir de agora, o partido vai trombetear
que Ciro e Serra são frutos da mesma escola política e que
o único dos candidatos que representa a mudança é
Lula. A segunda é concentrar as próximas aparições
do petista no Sul e no Sudeste, onde Ciro obteve crescimento significativo
e o candidato do PT tem desempenho abaixo de sua média nacional.
Nesta semana, Lula deve ir a Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas
Gerais. A terceira providência é estreitar as alianças
com políticos de fora do PT. Há uma avaliação
no partido de que Ciro está passando uma imagem positiva ao eleitorado
por selar alianças com setores mais conservadores.
A ascensão
de Ciro está escorada em dois pilares. O primeiro é a exposição
do candidato na televisão. No último mês, Ciro apareceu
nos programas dos partidos que o apóiam e teve 102 minutos de propaganda.
Nos últimos quarenta dias, segundo levantamento produzido pela
campanha tucana, Ciro teve mais que o dobro do tempo de exposição
na mídia do que seus competidores diretos. "Nem os anunciantes
da Copa do Mundo, reunidos, tiveram tanta exposição como
ele", comenta Nelson Biondi, um dos marqueteiros da campanha de Serra.
O candidato tucano não pôde fazer o mesmo, pois usou seu
tempo na TV lá atrás, para alavancar a candidatura.
O segundo
pilar da campanha de Ciro é a negociação política
que vem alargando o núcleo original de sua candidatura. A Frente
Trabalhista é uma esdrúxula mistura de três partidos
com origens e trajetórias diferentes o PPS, o PDT e o PTB.
Mas, nos últimos dias, a tróica partidária vem enfileirando
adesões no PFL, já tendo capturado o apoio de catorze diretórios
regionais. Já fechou com o diretório do PPB de Minas Gerais
e arrancou a promessa de neutralidade do governador de Santa Catarina,
Esperidião Amin, também do PPB. Mesmo no PSDB de Serra,
Ciro está abrindo veredas particularmente em Goiás,
Minas Gerais e, é claro, no Ceará do seu amigo Tasso Jereissati.
Até
a eleição, os candidatos terão de transpor muitos
obstáculos, alguns particularmente decisivos, como as entrevistas
e debates nas emissoras de televisão. Neste momento, todos terão
direito a uma superexposição. A partir de 20 de agosto,
uma nova etapa importante será aberta o horário eleitoral
gratuito, que pode trazer surpresas e desequilibrar a disputa. Ciro janta
com empresários, começa a receber mais contribuições
financeiras, já tem jatinho particular à disposição
e sua súbita ascensão nas pesquisas eleitorais não
provocou reações de pânico no mercado financeiro,
como vinha acontecendo quando os levantamentos dos institutos mostravam
crescimento de Lula. Seus aliados do PTB já fazem acenos ao presidente
Fernando Henrique Cardoso, com quem estiveram na semana passada. O encontro
não foi destinado a conquistar o apoio do presidente, mas pelo
menos sua neutralidade, num eventual segundo turno entre Ciro e Lula.
Faz sentido. Nas simulações de segundo turno, Ciro aparece
tecnicamente empatado com Lula, uma ameaça que nenhum outro presidenciável
conseguiu oferecer ao petista até agora.
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