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Edição 1 761 - 24 de julho de 2002
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Os ajustes para
enfrentar Ciro

O que a campanha de José Serra e a
de Lula planejam para evitar o avanço
do candidato da Frente Trabalhista


Tasso Marcelo/AE
Ana Araújo
Ciro: comentários sobre o assessor que fala português com sotaque americano O candidato tucano José Serra e a vice Rita Camata, do PMDB: reuniões para rever a estratégia política e reforçar os pontos fracos do marketing da campanha


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Quando duas celebridades do show biz são flagradas aos beijinhos pelas lentes dos fotógrafos, elas dizem quase sempre a famosa frase "Somos apenas bons amigos" – que funciona como uma espécie de confirmação do namoro. O mundo das eleições também tem sua frase-símbolo. É a seguinte: "A pesquisa que interessa é a das urnas". Proferida pelos candidatos e seus assessores a cada vez que um instituto de pesquisas lança uma rodada de números desagradáveis para o comitê, a frase quer dizer exatamente o contrário. Quer dizer que a pesquisa acendeu um sinal amarelo de alerta e a campanha precisa ser ajustada. Na semana passada, a frase-símbolo era proferida sobretudo na campanha tucana de José Serra.

De acordo com as últimas pesquisas eleitorais, o candidato Ciro Gomes, que havia colado em Serra no segundo lugar, continuou subindo na preferência do eleitor. Agora, abriu 8 pontos de vantagem, de acordo com os dados do Instituto Vox Populi. Lula permanecia em primeiro lugar, com 34% das intenções, Ciro tinha 24%, Serra, 16% e Garotinho, 11%. Mais: nas simulações de segundo turno, Garotinho e Serra perdem de longe para Lula. Ciro é o único que empata com o petista.

Os tucanos já contavam com um crescimento de Ciro nesta fase da campanha, mas as intenções de voto ficaram acima do esperado. Desde que começou sua arrancada, no início de junho, Ciro vem crescendo ao ritmo de 0,5 ponto por dia, o que significa 600.000 votos a cada 24 horas. Equivale a conquistar todos os dias os eleitores de uma cidade de grande porte, como Campinas ou Goiânia. Um detalhe animador para Ciro: nas pesquisas de intenção de voto, ele apresentou bom crescimento entre os formadores de opinião, como os que possuem curso superior e os que ganham acima de dez salários mínimos, e ainda tem potencial para crescer nos próximos levantamentos. Isso porque 44% do eleitorado, que não vota em Ciro, informa que, na falta do seu candidato predileto, optaria pelo ex-governador do Ceará.

Como resultado dessa subida, a cúpula da campanha tucana passou a semana em reuniões. Numa delas, com mais de quarenta representantes do PSDB, PMDB, PFL e PPB, ficou decidido que Serra deve reforçar sua presença nas regiões Sul e Sudeste. Por causa disso, o candidato cancelou uma série de visitas à Região Norte. Outra decisão tomada foi reforçar a coordenação-geral da campanha trazendo para o comitê o homem forte do governo na área da propaganda. Como sempre acontece quando o momento não é favorável, os políticos procuram um responsável pelo insucesso temporário. Uma terceira decisão, talvez a mais importante, foi partir para o ataque. O plano é tentar reforçar a idéia de que Ciro Gomes é mesmo o novo Collor. De acordo com um dos principais assessores de Serra, nessa guerra vale tudo. Pode ser travada através de uma simples referência jocosa, comentando por exemplo que Collor tinha um assessor econômico chamado Ibrahim Eris, que falava português com sotaque. Ciro também tem o seu. É Mangabeira Unger, um brasileiro educado nos Estados Unidos que exibe pesadíssimo sotaque americano. Pode ser a sugestão de que o estilo pavio curto de Ciro Gomes é um defeito grave. O mais importante, informa o colaborador de Serra, não é explicar a relação entre os dois políticos, mas carimbá-lo.

O marqueteiro Duda Mendonça, que coordenou mais de cinqüenta campanhas políticas, comentava na semana passada já ter tido a oportunidade de ganhar eleições graças a ajustes feitos na última hora, mas também perdeu algumas batalhas importantes, independentemente das mudanças operadas no comitê eleitoral. "O tempo me ensinou que a melhor forma de agir é definir uma estratégia coerente e entender que um momento ruim muitas vezes não é indicação de que ela esteja errada", analisa. Para evitar que apareçam mais desafios do que os previstos, as campanhas de Serra e Lula já começaram a reagir à ascensão de Ciro. O PT definiu três mudanças. A primeira será no discurso. A partir de agora, o partido vai trombetear que Ciro e Serra são frutos da mesma escola política e que o único dos candidatos que representa a mudança é Lula. A segunda é concentrar as próximas aparições do petista no Sul e no Sudeste, onde Ciro obteve crescimento significativo e o candidato do PT tem desempenho abaixo de sua média nacional. Nesta semana, Lula deve ir a Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. A terceira providência é estreitar as alianças com políticos de fora do PT. Há uma avaliação no partido de que Ciro está passando uma imagem positiva ao eleitorado por selar alianças com setores mais conservadores.

A ascensão de Ciro está escorada em dois pilares. O primeiro é a exposição do candidato na televisão. No último mês, Ciro apareceu nos programas dos partidos que o apóiam e teve 102 minutos de propaganda. Nos últimos quarenta dias, segundo levantamento produzido pela campanha tucana, Ciro teve mais que o dobro do tempo de exposição na mídia do que seus competidores diretos. "Nem os anunciantes da Copa do Mundo, reunidos, tiveram tanta exposição como ele", comenta Nelson Biondi, um dos marqueteiros da campanha de Serra. O candidato tucano não pôde fazer o mesmo, pois usou seu tempo na TV lá atrás, para alavancar a candidatura.

O segundo pilar da campanha de Ciro é a negociação política que vem alargando o núcleo original de sua candidatura. A Frente Trabalhista é uma esdrúxula mistura de três partidos com origens e trajetórias diferentes – o PPS, o PDT e o PTB. Mas, nos últimos dias, a tróica partidária vem enfileirando adesões no PFL, já tendo capturado o apoio de catorze diretórios regionais. Já fechou com o diretório do PPB de Minas Gerais e arrancou a promessa de neutralidade do governador de Santa Catarina, Esperidião Amin, também do PPB. Mesmo no PSDB de Serra, Ciro está abrindo veredas – particularmente em Goiás, Minas Gerais e, é claro, no Ceará do seu amigo Tasso Jereissati.

Até a eleição, os candidatos terão de transpor muitos obstáculos, alguns particularmente decisivos, como as entrevistas e debates nas emissoras de televisão. Neste momento, todos terão direito a uma superexposição. A partir de 20 de agosto, uma nova etapa importante será aberta – o horário eleitoral gratuito, que pode trazer surpresas e desequilibrar a disputa. Ciro janta com empresários, começa a receber mais contribuições financeiras, já tem jatinho particular à disposição e sua súbita ascensão nas pesquisas eleitorais não provocou reações de pânico no mercado financeiro, como vinha acontecendo quando os levantamentos dos institutos mostravam crescimento de Lula. Seus aliados do PTB já fazem acenos ao presidente Fernando Henrique Cardoso, com quem estiveram na semana passada. O encontro não foi destinado a conquistar o apoio do presidente, mas pelo menos sua neutralidade, num eventual segundo turno entre Ciro e Lula. Faz sentido. Nas simulações de segundo turno, Ciro aparece tecnicamente empatado com Lula, uma ameaça que nenhum outro presidenciável conseguiu oferecer ao petista até agora.

 
 

   
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