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O
senhor
subsídio
O diplomata francês
diz que a Europa
não vai eliminar a ajuda
financeira aos
agricultores mas aposta no crescimento
do livre-comércio
Adriana
Carvalho
Há três anos no cargo de comissário de comércio
da União Européia, o francês Pascal Lamy, 55 anos,
tornou-se uma das personalidades mais influentes da diplomacia mundial.
Porta-voz do bloco que reúne quinze países e se prepara
para receber em breve outros treze, Lamy vê seu poder de negociação
aumentar a cada nova reunião internacional. Nesta terça-feira,
ele participa, no Rio de Janeiro, de uma rodada de negociações
no lento processo de integração entre a União Européia
e o Mercosul. Não apenas pela autoridade do cargo, Lamy se faz
ouvir também pela clareza de suas posições. Ele diz
que o Mercosul só interessa como parceiro de negócios à
Europa na medida em que os países membros façam funcionar
efetivamente o bloco de livre-comércio. No que diz respeito ao
protecionismo agrícola, assunto que é praticamente um tabu
para os europeus, Lamy afirma sem rodeios que a eliminação
dos subsídios está fora de questão. Pascal Lamy falou
a VEJA, por telefone, de seu escritório em Bruxelas.
Veja Há um clamor mundial contra os subsídios
que os europeus dão a seus agricultores. Quando essas queixas serão
ouvidas?
Lamy
Não está em questão se nós, europeus, devemos
ou não ajudar financeiramente nossos agricultores. Há muito
tempo, tomamos a decisão de subsidiar os produtores. Se pararmos
totalmente com esse processo de uma hora para a outra, os resultados serão
desastrosos. A agricultura na Europa poderia simplesmente desaparecer.
Sem os subsídios, os agricultores europeus não têm
condições de sobreviver em um mercado global. A razão
é simples. A agricultura em outros continentes atingiu níveis
de competitividade muito superiores aos europeus. Como se sabe, a competitividade
é decisiva no mercado agrícola. Logo, a questão de
se devemos ou não ajudar nossos agricultores não está
em negociação. O que está em negociação
é como nós podemos tornar esse subsídio mais aceitável
comercialmente. Uma medida tomada pela União Européia há
duas semanas foi providencial nesse sentido. Ela desvincula os subsídios
do nível de produção dos agricultores. Com isso,
a produção local deve diminuir. Como resultado, a oportunidade
de acesso aos mercados europeus vai aumentar.
Veja O senhor está dizendo que os países que,
como o Brasil, investiram na modernização do campo e fizeram
enormes progressos de produtividade devem agora ser penalizados simplesmente
porque os agricultores europeus ficaram atrasados tecnologicamente?
Lamy
A questão é que os agricultores europeus têm limitações
geográficas que nunca lhes permitirão ser tão produtivos
quanto os de alguns outros países. Nós não estamos
na mesma latitude e na mesma longitude que o Brasil. O seu país
tem enormes vantagens naturais que nós não possuímos.
Nós temos uma geografia muito complexa, dispomos de condições
atmosféricas apenas moderadamente favoráveis para a agricultura
e nossas fazendas são, na média, muito pequenas. Eu sustento
que não interessa ao mundo o fim da agricultura européia.
Se os 5 milhões de fazendeiros da Europa desaparecerem da noite
para o dia, isso não vai tornar melhor a vida dos agricultores
no resto do mundo.
Veja A União Européia reúne atualmente
quinze países membros. Em breve outras treze nações
do Leste Europeu serão admitidas na comunidade. Qual será
o impacto comercial da ampliação do bloco?
Lamy
Já temos acordos de livre-comércio com os países
que são candidatos a se tornar membros da União Européia.
O que acontecerá quando se agregarem ao bloco é que eles
vão integrar a política comum de agricultura. O que nós
estamos discutindo com eles, por exemplo, é o planejamento gradual
dos níveis de subsídio que devem receber. A maioria desses
países tem uma agricultura no mesmo patamar de competitividade
das outras nações que já integram a União
Européia, porque neles há a mesma geografia, o mesmo clima.
As propriedades agrícolas têm também um tamanho muito
parecido. A Polônia talvez seja o único país com uma
realidade agrícola mais atrasada e deve passar por um processo
de modernização para se nivelar ao restante da Europa.
Veja Qual será o impacto econômico mais amplo
da adesão desses países no continente?
Lamy
Não será muito forte. As grandes mudanças já
foram realizadas em toda parte na Europa. Nós já compartilhamos
com eles uma área de livre-comércio. Esses países
antes negociavam 60% de seu volume de produção dentro do
Leste Europeu e 40% com as nações do Ocidente. Agora comerciam
70% com o Ocidente e 30% com o Leste Europeu. Em termos de políticas
comerciais, eles vão integrar a União Européia sem
muita dificuldade. Com a ampliação do bloco, sua população
vai aumentar em um terço. O produto interno bruto da região
crescerá cerca de 10%. Essas serão mudanças notáveis.
Veja O comércio mundial virou uma briga de foice em
que todos se acusam mutuamente de protecionismo ao mesmo tempo que protegem
seus mercados. Isso vai melhorar?
Lamy
Bem, esse é um processo muito longo. Mas, na minha opinião,
precisamos de mais governança internacional. Ou seja, temos de
disciplinar os negócios de um modo mais eficiente do que faz hoje
a Organização Mundial do Comércio (OMC), que, embora
seja um modelo avançado de governança, precisa aprimorar
mais seus instrumentos. Também são bons modelos a Organização
Internacional do Trabalho e a Organização Mundial de Saúde.
Elas são genuinamente organizações multilaterais,
pois os países têm nelas poder semelhante. Representam um
modelo mais promissor que o Banco Mundial ou o Fundo Monetário
Internacional, ambos fortemente dominados pelos Estados Unidos.
Veja O crescente protecionismo americano preocupa?
Lamy
As políticas protecionistas americanas têm razões
domésticas. O caso do aço é típico. Isso mostra
que o presidente americano não tem autoridade sobre a política
comercial do país. O Congresso dos Estados Unidos está longe
de chegar a um consenso sobre a condução do comércio
exterior.
Veja Quais as conseqüências disso?
Lamy
Ora, um país não pode aderir ao livre-comércio quando
seu sistema de decisão é fortemente influenciado por interesses
regionais que atropelam as obrigações e os compromissos
internacionais assumidos pelo governo.
Veja O senhor acredita que algum dia o Congresso americano
dará ao presidente plenos poderes para negociar acordos comerciais,
a chamada "via rápida"?
Lamy
Aguardamos ansiosamente por isso e acreditamos que o governo americano
conseguirá a autoridade de negociar acordos em breve. Minha esperança
é que o governo obtenha essa vitória antes do recesso de
verão do Congresso. Todos nós precisamos que o presidente
americano arranque essa decisão dos parlamentares. Sem isso os
Estados Unidos serão menos ativos no cumprimento de seus compromissos
com a implantação do livre mercado no mundo.
Veja O senhor concorda com a tese de que protecionismo gera
pobreza?
Lamy
A relação entre pobreza e protecionismo é clara.
Há um entendimento muito amplo, seja na teoria econômica,
seja na política, de que reduzir o protecionismo é uma das
condições para promover o desenvolvimento. A abertura do
comércio permite aos países em desenvolvimento mostrar suas
vantagens comparativas comerciais de uma maneira mais efetiva. O livre-comércio
por si só não induz ao desenvolvimento, mas constitui um
dos elementos-chave do progresso. O livre-comércio é um
dos pilares do crescimento sustentável. O outro é a ajuda
internacional, que supre a escassez de investimentos externos diretos
nos países mais pobres.
Veja Que avaliação o senhor faz atualmente
da economia brasileira?
Lamy
Acompanho de perto o que ocorre no Brasil e na América Latina.
O que tenho a dizer é que confio muito na habilidade do Brasil
e dos demais países latino-americanos de contornar suas atuais
dificuldades. Acredito que a volatilidade existente hoje é de curto
prazo. Vejo grandes oportunidades para essas nações no futuro.
Estou bastante confiante. Muito mais do que os analistas de mercado, que
são bastante afetados por fatores de curto prazo. Não sou
o único na Europa a ter essa visão otimista sobre a América
Latina. A evolução que o Brasil apresentou nos últimos
dez anos não pode ser colocada em dúvida por uma volatilidade
de curto prazo no mercado financeiro.
Veja O senhor acha que o Mercosul, o mercado comum do Cone
Sul, tem futuro?
Lamy
Minha proposta é colocar energia nova nas negociações
entre o Mercosul e a União Européia. Nos últimos
dois anos, alcançamos progressos no que se refere a assuntos técnicos,
mas há muito trabalho a ser feito ainda. Esse processo é
complexo. Nosso grau de envolvimento com o Mercosul vai depender da união
do bloco. Se o Mercosul se integrar mais fortemente, a União Européia
terá um envolvimento maior. Se o Mercosul se integrar de modo tímido,
a União Européia claramente se interessará menos
pela região.
Veja Há razões para otimismo no que diz respeito
ao incremento do livre-comércio no mundo?
Lamy
Alguns avanços significativos foram feitos recentemente. Todos
nós estamos nos tornando mais abertos para o comércio, e
não o contrário. As importações pela União
Européia estão aumentando, e não diminuindo. Os países
em desenvolvimento exportam mais para a Europa do que Estados Unidos,
Japão, Canadá, Austrália e Nova Zelândia juntos.
Ou seja, a direção que tomamos é correta. Daqui para
a frente vamos nos concentrar em outras questões.
Veja Quais são essas questões?
Lamy
Ainda existem muitas barreiras ao livre-comércio. São barreiras
sutis, que vão bem além das taxações altas.
Muitos países perdem enormes mercados potenciais por causa delas.
As exportações do Brasil, do Paraguai, do Uruguai, do Chile
e da Argentina sofrem maiores restrições das chamadas barreiras
não tarifárias que são imposições
técnicas colocadas pelos países ricos referentes à
qualidade dos produtos ou à maneira como são feitos. Um
melhor conhecimento mútuo de países exportadores e compradores
pode contribuir para diminuir esse tipo de obstáculo, que independe
das tarifas.
Veja Há um calendário já acertado, uma
previsão para a conclusão do acordo entre o bloco europeu
e o latino-americano?
Lamy
Não. Em negociações desse tipo, há momentos
em que determinar um prazo para encerrar as negociações
é proveitoso. Em outras ocasiões, isso é muito arriscado.
No momento atual, eu diria que os dois lados da negociação
ainda não conseguem ver claramente seus objetivos finais. Portanto,
é prematuro falar em uma data para concluir o acordo.
Veja Quais são os avanços significativos feitos
recentemente nas negociações globais sobre comércio?
Lamy
Vivemos um período de calmaria. Isso pode ser interpretado como
falta de progresso, mas também como o sinal de que estamos investindo
na preparação de futuras negociações. Na Europa,
estamos trabalhando nas questões que dizem respeito à agricultura.
Devotamos ainda grande atenção à questão da
dificuldade de acesso a medicamentos nos países em desenvolvimento.
Veja O senhor iniciou a carreira na agência de auditoria
do Ministério de Finanças da França. Como vê
a crise de credibilidade que as corporações americanas estão
enfrentando?
Lamy
Essa crise preocupa. Por outro lado, ela pode levar a desenvolvimentos
importantes de agora em diante nos Estados Unidos. Para nós, europeus,
o capitalismo é um mecanismo positivo desde que lhe sejam impostos
alguns limites. Os americanos tinham uma visão particular do capitalismo,
bem diferente da nossa. Existe atualmente uma discrepância entre
o conceito de ética e o caminho que o sistema americano de negócios
tomou. Acho que devemos refletir muito a respeito. Os escândalos
corporativos nos Estados Unidos mostraram que sem ética não
pode existir administração sadia.
Veja Em meados da década de 90, quando dirigia o banco
Crédit Lyonnais, o senhor também viveu a experiência
de passar por uma crise que envolvia a credibilidade do banco e de seus
executivos. O que essa experiência significou para o senhor?
Lamy
Esse foi o momento mais importante da minha carreira. Certamente não
foi o mais agradável. Hoje posso dizer que aquela experiência
se constituiu na mais estressante da minha vida. O banco tinha 15 000
empregados e marchava para a falência. Gerenciar a crise e livrar
o banco da quebra foi um trabalho quase sobre-humano. Tenho vivido melhores
momentos no serviço público. Na posição que
ocupo agora, as doses de stress são muito elevadas, mas não
me queixo, pois tenho obtido um retorno muito bom dos meus esforços.
Veja O que o senhor faz para combater o stress?
Lamy
Corro
todos os dias e ando de bicicleta nos fins de semana. Procuro passar todo
o tempo que posso com minha mulher e meus três filhos. Gosto também
de assistir a futebol.
Veja E o que o senhor achou da atuação de seu
país, a França, na Copa do Mundo do Japão e da Coréia?
Lamy
Na
Copa anterior, fui assistir à final no estádio. Foi uma
maravilha. Desta vez a França mostrou um futebol bastante pobre.
Já o Brasil não caiu na armadilha de idolatrar as estrelas
do time, justamente o processo que destruiu o espírito do time
francês.
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