Direto ao ponto

O embaixador dos EUA diz que é apenas franco, explica
as suas polêmicas e chama seus críticos de "dinossauros"

Vladimir Netto

"O papel do embaixador
não é criar boas relações
com o país onde está. É
defender os interesses
do país que representa"
Foto: Ana Araujo  

O embaixador dos Estados Unidos, Melvyn Levitsky, 60 anos, está fazendo as malas para deixar o Brasil no mês que vem. Com seu jeitão direto, em nada parecido à imagem que as pessoas costumam fazer dos diplomatas, Levitsky foi protagonista de várias polêmicas em seus quatro anos à frente da embaixada. Iniciou uma delas declarando que as relações entre Brasil e Estados Unidos ficariam abaladas caso o governo brasileiro não mantivesse o contrato bilionário para montar o sistema de vigilância da Amazônia nas mãos de uma empresa americana, a Raytheon. O presidente Fernando Henrique Cardoso chegou a vir a público para criticar a declaração do embaixador nesse episódio. No Itamaraty, Levitsky deixou a impressão de ser excessivamente preocupado com questões policiais, em prejuízo de outros assuntos. "Quem diz isso são pessoas retrógradas, são dinossauros", rebate. De volta aos EUA, irá aposentar-se, depois de 35 anos de vida diplomática, e virar professor universitário. É formado em ciências políticas. Acha que fez um bom trabalho no Brasil e não se arrepende de ser ter sido um dos embaixadores americanos mais falantes que o Brasil já recebeu.

Veja Depois de passar quatro anos à frente da embaixada americana no Brasil, o senhor diria que é fácil ou difícil ser embaixador dos Estados Unidos aqui?

Levitsky — Posso dizer que é uma coisa única. Se o embaixador fizer pressão sobre determinado assunto, isso pode ter o efeito totalmente contrário. Eu costumo falar honestamente sobre a posição do meu país porque acho importante que o Congresso e o povo brasileiro conheçam as nossas posições.

Veja Por que as pressões podem resultar no efeito contrário? O senhor acha que o Brasil é excessivamente sensível às pressões do embaixador americano?

Levitsky — Francamente, a imprensa brasileira sempre quer criar esse monstro, ou anjo, do embaixador americano. Dão muito crédito às palavras do embaixador americano. Por isso, alguns embaixadores dos Estados Unidos não atendiam à imprensa. Eu acho importante falar, expressar nossa opinião. O governo brasileiro precisa ouvir. Se não expresso nossas posições, ninguém as conhecerá. É importante distinguir entre boas relações e interesses dos países. É bom quando dois países têm boas relações, como é o caso do Brasil e dos Estados Unidos. É bom para o embaixador, muito agradável, ele tem amigos, mas o papel do embaixador não é criar boas relações com o país onde ele está. É avançar, melhorar as condições para os interesses do país que ele representa.

Veja Qual o balanço que o senhor faz de sua missão no Brasil?

Levitsky — Quando fui nomeado pelo presidente Clinton, fiz uma pesquisa sobre as áreas de interesse dos dois países. Descobri que havia muitas áreas de interesse comum que não eram aproveitadas. Tentei melhorar o relacionamento para montar uma parceria de iguais, em que ambos os países fossem beneficiados. Não foi sempre fácil, mas para mim, que estou deixando o Brasil agora, saio com um sentimento de satisfação.

Veja Na sua permanência à frente da embaixada, surgiram alguns atritos, com suas críticas ao desrespeito aos direitos humanos, a questão ambiental...

Levitsky — Na questão do meio ambiente, transformamos uma situação quase de confronto em uma situação de cooperação. Nas organizações internacionais sempre fomos agressivos enquanto o Brasil adotava uma atitude defensiva. Agora não. Adotamos uma postura de ajuda mútua. Vamos ajudar, com informações de satélite sobre a Amazônia, por exemplo. Há uma posição muito clara por parte do governo atual, franca, aberta, em que podemos cooperar. Sabemos que a Amazônia é território brasileiro. As ameaças hoje são garimpeiros, traficantes. Eles é que não respeitam a soberania da Amazônia. Não são os Estados Unidos que representam ameaça.

Veja E sobre os direitos humanos?

Levitsky — Nosso Congresso aprovou uma lei segundo a qual temos de escrever, todo ano, um relatório sobre direitos humanos, drogas e terrorismo em todos os países. É nossa obrigação e temos de escrever um relatório honesto. Entendo que algumas pessoas sintam raiva dos Estados Unidos por estarmos julgando outro país, mas não posso fazer nada. Quando fiz o relatório sobre o Brasil, fui honesto. Quando estou no Rio de Janeiro ou em São Paulo, não tenho medo de violações de direitos humanos, mas existem problemas, sem dúvida. Também há casos horríveis nos Estados Unidos. Drogas, meio ambiente e crime são lutas contínuas.

Veja No Itamaraty, comenta-se que o senhor tem um comportamento truculento e só pensa em assuntos policiais, como droga e tráfico, em prejuízo de outros. O que o senhor acha dessa crítica?

Levitsky — Loucura, loucura. Você acha que eu sou truculento? Quem diz isso são pessoas retrógradas, são dinossauros, estão com a cabeça no passado. Dou 10% de minha atenção a temas policiais. Na embaixada temos um departamento policial que cuida de narcóticos. Cuidamos disso, sim. Mas, geralmente, estou mexendo com comércio, programas de cooperação. Isso é ridículo. Eu sempre exponho nosso ponto de vista com franqueza, sem linguagem diplomática. Acho melhor assim. Se os retrógrados não gostam disso, não posso fazer nada.

Veja O senhor acha o Itamaraty retrógrado?

Levitsky Não vou criticar o Itamaraty. Se aqueles que me fazem essa crítica são as mesmas pessoas com as quais eu converso, só posso dizer que há uma certa hipocrisia. Mas sempre tive, e tenho, acesso ao governo brasileiro para explicar nossos pontos de vista. Não tenho queixa nesse sentido. Sei que qualquer embaixador americano aqui vai estar sempre sob os holofotes.

Veja Às vésperas da visita de Bill Clinton ao Brasil, no ano passado, a embaixada divulgou um documento dizendo que a corrupção era endêmica no Brasil. Foi uma atitude correta?

Levitsky — Não, foi um erro. Poderíamos ter dito que a corrupção é um problema sem termos usado a palavra "endêmica". No Brasil, a corrupção não é endêmica. É um problema como em qualquer país. Foi um erro meu porque, confesso, não li o relatório inteiro antes de divulgá-lo. Só depois é que fui ler. Lido na íntegra, é um documento positivo sobre o Brasil, com muitos elogios sobre a situação econômica. A prova de que não causou prejuízo à imagem do Brasil nos Estados Unidos é que o investimento americano não diminuiu, cresceu bastante. Aquilo foi como um quebra-molas em uma estrada lisa.

Veja O senhor causou certo alvoroço em 1995 quando defendeu a contratação da empresa Raytheon para tocar o Sistema de Vigilância da Amazônia, o Sivam.

Levitsky Falei aquilo honestamente, em apoio a uma empresa grande e respeitada dos Estados Unidos.

Veja Na época, o senhor disse que, se o contrato com a Raytheon não fosse mantido, as relações entre Brasil e Estados Unidos ficariam estremecidas. Ficariam?

Levitsky — Na verdade, acho que não.

Veja Em 1996, o então ministro da Justiça, Nelson Jobim, devolveu ao governo americano a verba de 600.000 dólares recebidos para combater o narcotráfico. O que o senhor achou disso?

Levitsky Acho que foi um erro do Jobim. Ele é um amigo meu, mas foi um episódio desagradável. Meu governo ficou muito preocupado e indeciso quanto à intenção do governo brasileiro com esse gesto. Na época, o diretor da Polícia Federal falou que nós demos 20 milhões de dólares à Colômbia e só 600.000 ao Brasil. Mas ainda bem que a situação no Brasil não se aproxima à da Colômbia. O fato é que conseguimos construir uma parceria muito útil nessa área.

Veja Por que, às vezes, se tem a impressão de que os Estados Unidos se preocupam mais em controlar o tráfico e a produção de drogas em outros países do que em reprimir o consumo interno de drogas?

Levitsky Sei que os Estados Unidos têm grande responsabilidade, pois somos o maior mercado do mundo para drogas e, de certa maneira, somos um ímã. Mas nós gastamos 15 bilhões de dólares por ano nos Estados Unidos com repressão, educação e tratamento. Sei que é muito importante lidar com o problema interno, mas sem programas para reduzir a oferta esse trabalho torna-se inútil. Uma oferta grande de drogas a preço baixo prejudica nossa política interna. Por isso, temos de ter programas conjuntos.

Veja Atualmente, o grande assunto entre Brasil e Estados Unidos é sobre a formação da Alca, em 2005, a área de livre comércio das Américas. O Brasil quer retardar ao máximo e os Estados Unidos querem antecipar ao máximo...

Levitsky Esta é uma negociação muito complicada, até porque estamos lidando com 34 países diferentes e com etapas de desenvolvimento diferentes. Nos Estados Unidos, há resistências contra a Alca no Congresso. Há congressistas que defendem o protecionismo, pois alguns trabalhadores americanos vão sofrer. Mas acho que o livre comércio beneficia e, em geral, os trabalhadores também serão beneficiados. Agora, sempre foi um erro da imprensa dizer que somos inimigos do Mercosul. Nós sempre defendemos a ampliação do comércio. Acho que o Mercosul já criou condições para absorver mais exportações americanas.

Veja Na visita do presidente Fernando Henrique a Camp David, o presidente Clinton pediu ao Brasil que fosse menos tímido na cena mundial. O senhor sente esse problema também?

Levitsky O presidente Clinton não me disse qual foi o caráter da conversa exatamente. Mas acho que o Brasil já tem uma política externa ativa e a reputação de ter bons diplomatas. Segundo as projeções do Banco Mundial e do FMI, o Brasil vai ser uma das grandes economias, um dos países mais importantes nos próximos vinte anos. É de nosso interesse que o Brasil esteja mais ativo na cena internacional, porque vai nos beneficiar também. Que o Brasil seja mais ativo em benefício dos ideais de democracia, de economia aberta, contra os conflitos étnicos e pela manutenção da paz. Nisso, ele está muito ativo. Acho muito bom para o Brasil, para os Estados Unidos e também para o mundo.

Veja Aparentemente, o Brasil tem se tornado um país mais importante para os Estados Unidos. Essa impressão é verdadeira?

Levitsky No que diz respeito à nossa política externa, o Brasil é muito importante, pois não é um país regional e tem influência na África, na Ásia e na Europa. É um país globalizado. O Brasil já é líder. Tem uma economia de 800 bilhões de dólares. Só São Paulo tem uma economia do tamanho da economia argentina. Se o Brasil pega um resfriado, todos os outros países desta região sentem os efeitos. Por isso, os Estados Unidos querem uma relação útil com o Brasil. Temos diferenças, mas também temos interesses comuns e uma parceria. Não é preciso que dois países sempre tenham a mesma visão. Afinal, os países têm histórias e culturas diferentes. O importante é que estamos acertados a respeito da discussão das nossas diferenças.

Veja Os Estados Unidos são defensores do mercado aberto, mas, ao mesmo tempo, barram certos produtos brasileiros, como suco de laranja e aço. Qual é o problema?

Levitsky Os dois países têm queixas no que diz respeito a áreas específicas. Para o Brasil, suco de laranja e aço, por exemplo. Nós temos reclamações com relação a trigo e carros. Acho importante que cada país expresse sua opinião, diga que não está satisfeito, e tenho certeza de que, no futuro, a tendência é de que esses problemas sejam cada vez menores. Só não podemos esquecer que todos os países têm certas áreas com proteção para os produtos locais. Podemos aceitar isso como fato, mas não como um fato eterno. Por isso, a pressão é útil.

Veja A proteção americana aos produtores de laranja da Flórida será um fato eterno?

Levitsky Vou contar o que aconteceu na Flórida. A indústria brasileira de suco de laranja, com produção maciça, só começou nos anos 80. Nessa época, tivemos cinco geadas seguidas na Flórida e precisamos do suco de laranja do Brasil. Isso deu um impulso à indústria brasileira, que hoje é muito boa e organizada, talvez a melhor do mundo. Só que, nos anos 90, houve só uma geada na Flórida. Nós estamos protegendo a indústria da Flórida, sim. Mas não sei dizer o que vai acontecer no futuro. O interessante é que algumas empresas brasileiras já compraram fábricas nos Estados Unidos para produzir suco de laranja. É uma boa mostra de globalização. Estão fazendo uma parceria. Um dos sucos de laranja mais populares nos Estados Unidos é uma mistura de suco da Flórida com suco do Brasil. É uma parceria.

Veja Os Estados Unidos proibiram a entrada da gasolina brasileira sob alegação de que era poluidora. O Brasil reclamou na Organização Mundial do Comércio, a OMC, ganhou a parada e, mesmo assim, o governo americano disse que só abriria o mercado depois de um ano e meio. Isso é correto?

Levitsky — De fato, demoramos muito tempo, mas obedecemos à decisão da OMC. Fomos criticados por isso, mas é bastante complicado. Tivemos de mudar regras, leis e discutir com o Congresso. É preciso lembrar que a OMC é uma organização muito nova e acho que foi uma das primeiras vezes que um país perdeu e teve de mudar o seu sistema.

Veja O senhor mantém relações próximas com algum político brasileiro?

Levitsky Sou amigo do senador Antonio Carlos Magalhães. Era amigo de seu filho, vítima de uma tragédia. Sou amigo também do senador Hugo Napoleão, que nasceu nos Estados Unidos.

Veja O senhor gosta do Brasil?

Levitsky Servi aqui nos anos 60 e gosto muito do povo brasileiro. Tenho amizades que mantenho até hoje. O brasileiro é amigo e tem a idéia da amizade para sempre. Para nós, que somos um povo mais reservado, isso é uma coisa muito atraente. Também viajei bastante e finalmente visitei Fernando de Noronha, que sempre quis conhecer. É um lugar maravilhoso.




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