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Ponto
de vista: Claudio de Moura Castro Terceira
tentativa "Graças ao crescimento vertiginoso
da pesquisa agrícola e ao dinamismo do setor privado, nós nos
armamos para uma terceira tentativa de não ser vencidos pela natureza.
Mas essa terceira tentativa traz uma vitória frágil, com
risco de gorar" O Brasil
foi construído por povos de fraca tradição agrária.
De fato, ao enxotar os mouros, Portugal perdeu as melhores técnicas de
cultivo da terra, trazendo ao Brasil uma agricultura rudimentar. Os africanos
vinham de regiões com agricultura atrasada e os índios eram nômades.
O gado era pé-duro. Quando acabou o ouro de aluvião, o barão
de Eschwege (o geólogo Guilherme von Eschwege, 1777-1855) descreveu a incompetência
tecnológica da nossa sociedade para minerar com maior complexidade. A borracha,
distante e em seringueiras dispersas, não resistiu à maior eficiência
das plantations da Malásia. O bicudo comeu o algodão do Nordeste.
Não vencemos o desafio dos trópicos.
Em meados do século XIX, pensava-se que trazendo imigrantes de regiões
mais avançadas resolveríamos a equação tecnológica
da agricultura. Era a segunda tentativa. Vieram os alemães, os italianos
e os japoneses. Mas não deu tão certo
assim. O café era medíocre e "cansava" a terra. O trigo e a soja
não gostaram do clima. Uma praga comeu a pimenta dos japoneses de Tomé-Açu.
Em 1920, Emílio Willems descreveu a saga dos alemães do Sul, de
pés descalços, com malária e perdendo a guerra contra as
formigas e a erosão. Nas colônias alemãs do Espírito
Santo foi ainda pior. Os italianos da Serra Gaúcha produziam um vinho medíocre.
Com toda a sua empáfia, os americanos fracassaram nos seringais da Amazônia.
Ilustração
Ale Setti
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É
que havia um erro na equação. Os europeus eram avançados
na Europa, porque começaram a experimentar, três ou quatro milênios
antes, a partir do êxito na domesticação do trigo selvagem.
Mas o que trouxeram de pouco servia nos trópicos. Os brasileiros viam como
perdida a luta contra a saúva e a natureza tropical inclemente. Os trópicos
eram invencíveis.
Durante todos esses séculos,
nossa capacidade científica estava próxima de zero. Mas, graças
ao crescimento vertiginoso da pesquisa, a partir da década de 1970, ao
dinamismo crescente do setor privado e à melhor educação
dos imigrantes italianos e alemães, o país se armou para uma terceira
tentativa de não ser vencido pela natureza. A ciência moderna permite
comprimir o período necessário para melhoramentos e adaptações
genéticas, bem como o ciclo de inovações no cultivo. Na esteira
da Revolução Verde, fizemos em três décadas o que a
Europa fez em três milênios. Depuramos tecnologias para operar nos
trópicos. Importamos o arado da Europa,
sem saber que é a técnica errada em países sem inverno rigoroso.
Custamos, mas inventamos o plantio direto, sem arado. Desenvolvemos um tipo de
soja para o Paraná e outro para o cerrado onde não se considerava
possível plantar essa leguminosa. Hoje, nem com subsídio a soja
americana consegue competir com a nossa. O trigo passou a ser viável e
somos imbatíveis nos eucaliptos. Em uma década, de importadores
viramos exportadores de maçã. Estamos aprendendo a plantar café
irrigado. Novas variedades de algodão invadem o cerrado. A qualidade do
rebanho deu um salto. Há vastos seringais em São Paulo. Aprendemos
a fazer o álcool mais barato do mundo. Está em curso a primeira
tentativa de produzir vinho de qualidade acima do paralelo 8º com
o estratagema de substituir o choque térmico do frio por um choque de desligamento
da irrigação. Temos sol, água
e terra abundantes. Mas, como nos disse Jacob Bronowski (1908-1974), o homem é
produto da tecnologia que criou para lidar com a natureza. Os colonizadores chegaram
aqui com tecnologias rudimentares. A imigração européia veio
com uma tecnologia inadaptada ao nosso meio. Só deu certo quando aprendemos
a desenvolver nossa própria tecnologia, tal como os europeus conseguiram
desenvolver a deles, após milênios de labuta.
Apenas engatinhamos, e há muito a ser feito por exemplo, é
ínfima a pesquisa florestal. Países concorrentes estão nos
nossos calcanhares. E, a todo momento, a Embrapa, outros centros de pesquisa e
as universidades agrárias passam sustos, com uma praga nova ou mesmo com
a saúva querendo voltar. Ou com a praga dos cortes de verbas, ideologias
obscurantistas e ameaças de politização. A terceira tentativa
traz uma vitória frágil, com risco de gorar.
Claudio de Moura Castro é economista (Claudio&Moura&Castro@attglobal.net)
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