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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Os
últimos acontecimentos revistos e explicados A
polícia foi tomada de surpresa?
Houve acordo com os bandidos? Um
roteiro para tirar as dúvidas
Vamos recapitular, para ver se de uma vez por todas a coisa vos entra na cabeça.
A polícia paulista soube, com a devida antecedência, graças
a seus bem azeitados serviços de inteligência, que o famigerado PCC
preparava um levante de grandes proporções no estado. Se alguém
pensou que era mais esperto, e que iria surpreender as autoridades ao orquestrar
a rebelião nos presídios, ao mesmo tempo em que comandos saíam
às ruas atirando contra policiais e unidades da polícia doce
ingenuidade! , enganou-se redondamente. Não houve surpresa alguma.
Se a informação não foi passada às bases, isso se
deve a razões que só não compreende quem não quer.
A informação era tão preciosa que seria uma leviandade passá-la
adiante. E se caísse em ouvidos indevidos? Hein, hein?!?! Das autoridades
se espera que ajam com um mínimo de responsabilidade. Ademais, mesmo se
não houvesse esse perigo, que se poderia fazer? Reforçar a segurança
nos prédios públicos? Pôr mais polícia nas ruas? Ordenar
revistas e bloqueios de trânsito? Ora, isso poderia causar nervosismo entre
os profissionais de segurança e pânico na população.
Dois delegados da alta cúpula da polícia
de São Paulo foram a Brasília para depor na CPI do Tráfico
de Armas. Explicaram como os criminosos se articulam dentro dos presídios
e o papel que nisso desempenha o telefone celular. Contaram que tinham informações
de que os presos planejavam um levante e avisaram que no dia seguinte haveria
transferência maciça dos mais perigosos para presídios de
segurança máxima. A sessão era secreta, mas infelizmente
o encarregado de fazer a obrigatória gravação dos trabalhos
era um técnico de som que ganha mal. Assim que terminou, ele foi abordado
por dois advogados, que lhe ofereceram 200 reais por uma cópia. Negócio
fechado, a gravação chegou naquele dia mesmo aos chefes do PCC,
em primeiro lugar ao chefão que atende pelo nome de Marcola, e de lá,
pela vibrante rede dos celulares, a quem mais pudesse interessar. Os bandidos,
ao contrário das autoridades, têm o mau hábito de levar adiante
as informações que recebem. A polícia, enquanto isso, continuava
em sua estratégia de fingir que nada fugia da normalidade tanto
que nem se cancelou a permissão para que milhares de presos passassem em
casa o Dia das Mães. Os presídios
rebelam-se. Pipocam ataques a unidades e viaturas policiais, bem como a agências
bancárias. Sucedem-se os assassinatos de policiais. Ônibus são
queimados. Estima-se que nesses ataques tenha atuado, por ordem dos chefes presos,
uma parte dos beneficiados pela folga do Dia das Mães. Nenhuma surpresa
para a polícia, como já sabemos. "Nada deu errado", garantiu o governador
ao Jornal Nacional. Dando seqüência a seu minucioso plano de
ação, o governo envia uma advogada de presos para conversar com
Marcola, a essa altura recolhido à solidão desolada da prisão
de Presidente Bernardes, a mais de 500 quilômetros da capital. A advogada
não vai sozinha: acompanham-na graduados representantes da Polícia
Militar, da Polícia Civil e da Administração Penitenciária.
Armou-se uma comissão de alto nível, e poderia ser diferente? Tinha
de ser digna da personalidade a ser visitada. Nem se economizaram os meios: um
avião da PM foi destacado para o transporte da comitiva. Em seguida à
cúpula de Presidente Bernardes, cessaram as rebeliões nas prisões
e os ataques nas ruas passaram a ser apenas esporádicos.
Houve acordo, puseram-se a denunciar os especuladores. O governador apressou-se
em qualificar tal suposição de "ofensiva". Mesmo assim, insistiram:
se não foi para negociar um acordo, para que então a embaixada junto
ao Primeiro Mandatário do PCC? Essa questão não foi bem explicada,
mas... precisava? Que custava, àquela altura, exibir bons modos e boa vontade?
Só se espanta quem não reconhece o valor da cortesia entre os indivíduos
e das boas relações diplomáticas entre as potências.
A má vontade foi a ponto de apontarem uma suposta violação
do regime carcerário pelas próprias autoridades, uma vez que o regime
a que se condenou o preso o impedia de receber visitas. Ora, prender-se a questiúnculas
formais numa altura dessas? Deixar-se paralisar por filigranas? Enxergar indício
seguro de acordo no fato de as rebeliões terem cessado e os assaltos terem
diminuído em seguida à reunião de Presidente Bernardes é,
por outro lado, desprezar o valor das coincidências na vida, os felizes
acasos para os quais a língua inglesa até inventou uma palavra,
serendipity bonito substantivo que nomeia o que acontece por mera
sorte. O mais é vida que segue, e aí
se inclui o recuo do que resta de batalha a seu campo habitual, que são
as periferias e as favelas. Tudo claro agora? Tudo compreendido em suas exatas
dimensões e perfeita lógica? Se alguém insiste em não
entender, é porque não entende o Brasil. Alguém não
entende o Brasil? Por favor, alguém aí entende o Brasil? Pelo amor
de Deus: alguém aí pode explicar o Brasil? |