Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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O mundo na estante

VEJA e Larousse do Brasil
lançam uma versão nacional
do mais reputado dicionário
enciclopédico francês


Fotos Pedro Rubens-Stock Photos-Hulton Archive/
Getty Images-Roger Viollet
A DIFUSÃO DO CONHECIMENTO
A célebre Enciclopédia dos franceses Diderot e D'Alembert foi um capítulo fundamental na propagação das informações. A primeira edição, publicada entre 1751 e 1772, era luxuosa e cara e só atendeu 4000 assinantes. Mas as edições seguintes, mais baratas, venderiam mais 20000 exemplares antes da Revolução Francesa, em 1789. Acima, uma ilustração da Enciclopédia mostra uma oficina de impressão


NESTA REPORTAGEM
Quadro: Uma história
das enciclopédias

Nesta semana, VEJA publica o primeiro dos 24 volumes do Dicionário Enciclopédico Ilustrado Veja Larousse. Resultado de uma parceria entre a revista e a editora Larousse do Brasil, a obra, com 80.000 verbetes, é uma versão do Petit Larousse, a mais popular e conceituada enciclopédia da França. Mas não se trata de uma simples tradução, e sim de um elaborado trabalho de adaptação, que custou três anos a uma equipe de mais de cinqüenta lexicógrafos e especialistas das mais variadas áreas. A editora Larousse do Brasil contou com a colaboração do Instituto Antônio Houaiss, o mesmo que elabora o mais completo dicionário em língua portuguesa do Brasil. O resultado equilibra uma visão do conhecimento universal e uma perspectiva cultural brasileira. "O Veja Larousse tem mais verbetes dedicados ao futebol e à música popular do que, por exemplo, o Petit Larousse polonês", diz Louis Lecomte, diretor editorial da Larousse internacional.

Estima-se que, nos últimos dois milênios, tenham sido editadas cerca de 2.000 enciclopédias em todo o mundo. Reunidas, elas se estenderiam por mais de 3 quilômetros. A ambição de concentrar todo o conhecimento de uma época em uma só obra já existia entre os romanos e gregos antigos. O mais notável exemplo é a História Natural, do erudito romano Plínio, o Velho (23-79 d.C.). Dividida em livros temáticos, a obra é uma fascinante mistura de ciência e crendice. Plínio afirma até que viu o cadáver de um centauro embalsamado em mel. Essa forma de apanhado do conhecimento universal organizada por um único e imodesto sábio preservou-se na Idade Média, com muitas enciclopédias compostas em latim por clérigos eruditos como Isidoro de Sevilha (560-636), autor de Etimologias.

Foi um erudito alemão, Paul Scalich, o primeiro a utilizar a palavra "enciclopédia" como título para uma obra de conhecimento geral, em 1559. Nos séculos seguintes, a enciclopédia se consolida como um empreendimento coletivo, congregando grandes equipes de especialistas. O grande marco é a Enciclopédia dos iluministas franceses Diderot e D'Alembert, publicada entre 1751 e 1772. Com mais de 72.000 verbetes, 2.800 pranchas de ilustrações e colaborações de Voltaire e Rousseau, entre outros grandes pensadores, ela moldou um novo modelo de conhecimento secular – e foi colocada no índex, a lista de livros proibidos pela Igreja. A Britannica, talvez a mais conhecida das grandes enciclopédias, surgiu na Escócia, em 1768, sob a influência da obra francesa.

Na trajetória das enciclopédias, nota-se a tendência de uma difusão crescente do conhecimento. A Enciclopédia iluminista é um divisor de águas nesse ponto: foi o maior sucesso editorial do século XVIII, vendendo 24.000 exemplares em sucessivas edições. Uma enciclopédia é um esforço não só de coletar, mas também de organizar o conhecimento – e a evolução do gênero conduziu a obras de consulta cada vez mais simples. Na Idade Média, as enciclopédias, em latim, organizavam-se por núcleos temáticos, de acordo com as disciplinas comuns das universidades de então (retórica, astronomia, geometria etc.) ou ao sabor das idiossincrasias do autor. Nos séculos XVI e XVII, os verbetes em ordem alfabética se impuseram como o meio mais prático de apresentar o texto – e, claro, em língua vernácula. É o modelo predominante ainda hoje.

Os princípios que regem o trabalho dos enciclopedistas contemporâneos são similares àqueles que orientaram o feito heróico de Diderot, embora as enciclopédias não tenham mais o mesmo caráter de manifesto político. Obras como o Petit Larousse, cuja primeira edição data de 1905, são resultado do trabalho de várias autoridades das mais diversas áreas, coordenadas por uma equipe editorial. Uma tentativa curiosa de "democratizar" esse processo especializado é a Wikipedia, uma enciclopédia gratuita da internet. Qualquer diletante pode escrever ou alterar os verbetes – que por isso são muitas vezes eivados de erros. A autoridade com que as enciclopédias tradicionais fundamentam sua informação ainda é imprescindível. Do físico Isaac Newton ao psicanalista Sigmund Freud, muitos expoentes da ciência, das letras e da política foram colaboradores de enciclopédias. A informática, claro, incorporou-se à elaboração das enciclopédias, agilizando a manutenção e a atualização dos bancos de dados. "Hoje, é só no último estágio que chegamos a uma enciclopédia em papel ou on-line. Até ali, não há diferença nenhuma no trabalho", diz Lecomte. O Dicionário Enciclopédico Veja Larousse, a propósito, também estará disponível on-line para os leitores que comprarem toda a coleção.

 

 

 
 
 
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