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Televisão Abaixo
o amor Em Belíssima, o
prazer casual vale mais do que o romance. E o espectador não reprova
a idéia  Marcelo
Marthe
Divulgação
 | | O
canalha Alberto, entre a mulher (à esq.) e a amante: libido com
humor |
Na semana passada,
uma das tramas mais divertidas da novela Belíssima atingiu seu clímax.
O cafajeste Alberto (Alexandre Borges) recebeu o cartão vermelho da mulher,
a certinha Mônica (Camila Pitanga), depois que esta assistiu a um vídeo
em que o marido realiza peripécias com sua amante, Rebeca (Carolina Ferraz).
Foi a própria Rebeca quem mandou o vídeo. A agente de modelos dedurou
Alberto porque acabou se apaixonando por ele e decidiu tê-lo só para
si. Mas, de acordo com o autor Silvio de Abreu, isso não vai durar muito.
Rebeca logo chegará à conclusão de que compromissos amorosos
são uma chatice. Em Belíssima, esse raciocínio está
longe de destoar: a moral do folhetim parece ser a de que mais vale o prazer casual
do que um romance nos moldes tradicionais dos melodramas. As enrascadas de Alberto
ajudaram a alavancar a audiência. Numa semana marcada também pela
volta à cena da vilã Bia Falcão (Fernanda Montenegro), quatro
meses após ser dada como morta num acidente, Belíssima atingiu
seu melhor desempenho. Na segunda-feira, quando o número de televisores
ligados na Grande São Paulo foi bem maior que o habitual em razão
dos ataques dos criminosos do PCC, ela chegou pela primeira vez à média
de 60 pontos no ibope patamar que as novelas das 8 da Rede Globo costumam
atingir apenas em seus capítulos finais.
Embora surja aqui e ali nas tramas periféricas, o amor romântico
tem sido um item menor na agenda dos protagonistas, e não é segredo
que a atração tépida entre a heroína Júlia
(Glória Pires) e o grego Nikos (Tony Ramos) não entusiasma ninguém
a começar por eles mesmos. O que move a novela é a libido.
Tome-se o exemplo do mecânico Pascoal (Reynaldo Gianecchini). Apesar de
curtir uma paixonite platônica pela personagem de Cláudia Abreu,
ele não resiste às curvas da dona-de-casa Safira (Cláudia
Raia), um vulcão sexual. Esta última, por sua vez, não assume
seu caso com ele em nome das aparências, mas arde de desejo. "Safira é
louca por Pascoal pelo mesmo motivo que o despreza: ele é pobre, sujo e
ignorante", diz Abreu. Nos melodramas,
sexualidade franca é coisa reservada aos vilões. O sucesso de um
casal como Alberto e Rebeca não deixa de ser uma subversão da regra.
A personagem de Carolina Ferraz se tornou tão popular que a atriz é
hoje a campeã de pedidos das espectadoras: elas escrevem à Globo
para saber tudo sobre suas roupas e acessórios. Isso se deve, em boa medida,
à habilidade de Abreu para lidar com o tema. Não só ele tempera
as cenas carnais com muito humor, como conduz o triângulo entre Alberto,
Rebeca e Mônica de forma que o público, em vez de reprovar a conduta
dos amantes, ache que eles se merecem mutuamente em sua malandragem. Abreu tem
uma tese, digamos, sociológica para explicar a aceitação
do sexo em Belíssima. A não ser nas tramas de época,
opina o noveleiro, as espectadoras rejeitam as personagens passivas. "As mocinhas
de hoje têm de mostrar que sabem o que querem, inclusive no sexo", diz.
O mesmo se aplica aos tipos masculinos. Abreu mudou a personalidade de Cemil (Leopoldo
Pacheco), o bom-moço apaixonado pela personagem de Camila Pitanga, quando
uma pesquisa constatou que ele aborrecia a audiência com sua atitude derrotista.
Desde que o chatonildo Cemil soltou a franga numa festa, sua moral com as espectadoras
finalmente disparou. Em Belíssima, enfim, o amor não é
eterno nem enquanto dura. |