|
|
Música Atenção:
eles podem causar mal à saúde Proliferam
os artistas que defendem o racismo, o assassinato de gays e o satanismo.
E essa turma faz sucesso  Sérgio
Martins O cantor Johnny Rebel é uma
lenda da música americana status que se deve mais ao teor ofensivo
de suas letras do que a seus dotes para o gênero country rock. Rebel surgiu
nos anos 60, quando tomava corpo a luta dos negros americanos pelos direitos civis.
Um de seus hits (pelo menos na parada da organização racista Ku
Klux Klan) comparava o líder negro Martin Luther King a um babuíno.
Rebel lançou doze canções, mas sumiu do mapa sem nunca ter
feito apresentações ao vivo ou revelado sua identidade. Recentemente,
ele saiu da toca. Anunciou que seu nome verdadeiro é Clifford Joseph "Pee
Wee" Trahan e que por muito tempo trabalhou como músico nos mesmos estúdios
utilizados por artistas de jazz e blues. Rebel foi até às emissoras
de rádio a fim de divulgar o disco It's the Attitude, Stupid. O
CD contém suas infâmias racistas de praxe e também "atualizações",
como a faixa na qual sugere que Osama bin Laden seja pendurado por uma parte sensível
de sua anatomia. Em defesa de seu estilo, Rebel usa a velha tática de somar
erros e dizer que eles resultam em acerto: argumenta que, se os rappers podem
insultar mulheres e brancos, não há nada de errado em falar mal
dos negros. Johnny Rebel está
longe de ser um problema isolado. Cada vez mais, prolifera o número de
artistas que usam a música para disseminar ódio e violência.
O caso mais chamativo é o das irmãs Lynx e Lamb Gaede, duas garotas
loirinhas, fofésimas e de aparelhos nos dentes que fazem um pop ao estilo
de Hilary Duff ou da brasileira Sandy. A diferença é que as letras
da dupla, intitulada Prussian Blue, não falam de meninos e meninas. Elas
exaltam a supremacia branca, lembram com carinho o nazista Rudolf Hess e homenageiam
velhas canções do Exército alemão. Teleguiadas por
sua mãe, Lynx e Lamb (ou "lince" e "cordeiro") podem propagar essas mensagens
e vestir camisetas que mostram um Adolf Hitler sorridente por causa de um dos
mais avançados dispositivos da Constituição americana: a
Primeira Emenda, que garante total liberdade de expressão a quem quer que
seja ainda que sob vigilância. Artistas como Johnny Rebel e Prussian
Blue têm seus websites controlados pelas autoridades americanas, para que
não hospedem chamados às armas, e seus CDs dificilmente são
encontrados em lojas normais. A venda se dá pela internet ou em estabelecimentos
de beira de estrada. Para chegar até esses menestréis do ódio,
portanto, é preciso procurá-los voluntariamente.
A questão se torna bem mais espinhosa em outra frente dessa guerra: as
vertentes do rap que defendem a misoginia, a violência e o crime. Os artistas
de rap não são obscuros. São superastros como 50 Cent, que
tocam em todo tipo de rádio, fazem filmes e, assim como no caso do funk
carioca, são ouvidos e cultuados por jovens de todas as origens e estratos
sociais. A popularidade de 50 Cent, Eminem e Snoop Dogg, para ficar nos exemplos
mais conhecidos, está no centro de um debate antigo e insolúvel:
se um jovem imita os trejeitos de um artista, ele fica mais suscetível
a seguir também seu pensamento? Já houve até ações
judiciais baseadas nessa tese, contra roqueiros como Marilyn Manson ou cineastas
como Oliver Stone. Até hoje, porém, todos os réus foram inocentados.
"O que se percebe é que a adoção de um comportamento anti-social
ou racista depende muito mais dos valores incutidos nos jovens por seus pais do
que das crenças propagadas por um artista", diz Lidia Weber, psicóloga
da Universidade Federal do Paraná.
Se há uma corrente musical que corrobora essa visão, trata-se do
reggae jamaicano e seus "filhotes". O maior astro que a Jamaica já produziu,
Bob Marley (1945-1981), tão cultuado por suas atitudes liberais, nunca
escondeu o desconforto perante os gays ou "sodomitas", como costumava dizer,
de forma indisfarçavelmente deletéria. É quase uma tradição
cultural da ilha rejeitar a homossexualidade. Num artigo para o jornal americano
Village Voice, a jornalista Elena Oumano narra a história de um
pai que entregou o filho gay para que um bando de meliantes o apedrejasse, e os
rappers jamaicanos cantam livremente letras em que defendem o assassinato de homossexuais.
O problema só foi detectado com a exportação desses artistas.
Em 1992, alguém decifrou a gíria jamaicana da canção
Boom Bye Bye, do rapper Buju Banton, um sucesso nas boates gays de Nova
York, e descobriu que ela pregava justamente o fuzilamento de seus admiradores.
Por essas e outras, astros do reggae como Elephant Man e Beenie Man são
proibidos de se apresentar na Inglaterra. Outros artistas são ainda mais
radicais ao pôr em prática aquilo que apregoam. O grupo de heavy
metal norueguês Burzum se declara orgulhosamente racista, nacionalista e
anticristão no que não difere de tantos outros do gênero.
Mas seu vocalista, Varg Vikernes, é suspeito de ter incendiado igrejas
e, em 1993, foi preso pelo assassinato de um companheiro de banda. Ainda assim,
não desistiu: montou um miniestúdio na cadeia, de onde continua
a gravar e distribuir suas diatribes. Como se costuma dizer, o ódio é
de fato parente próximo do amor: como ele, não conhece barreiras.
Música para ouvir e piorar Quem
são e o que pregam os artistas mais condenáveis do showbiz internacional
Divulgação
 |
SATANISMO
Artista: Burzum Nacionalidade: norueguesa O
que faz: não apenas exalta o poder do demônio ao som de rock
pesado como parte para a ação: o cantor do Burzum já foi
preso sob acusação de incendiar igrejas e assassinar um companheiro
de banda
Chris
Whittle/Spash News
 |
RACISMO
Artistas: Prussian Blue Nacionalidade: americana
O que fazem: as irmãs Lamb e Lynx Gaede fazem um pop simpático,
ao estilo de Hilary Duff. A diferença é que suas letras defendem
a supremacia ariana
Leon
Schadeberg/Rex Feature
 |
MISOGINIA
Artista: 50 Cent Nacionalidade: americana
O que faz: o rapper é o mais ilustre representante de uma corrente
que trata as mulheres como interesseiras ou apetrechos sexuais (ou ambas as coisas
ao mesmo tempo)
Frederick
M. Brown/Getty Images
 |
HOMOFOBIA
Artistas: Buju Banton, Beenie Man, Sizzla, Elephant
Man Nacionalidade: jamaicana O que fazem: em letras embaladas
pela batida do raggamuffin, uma mistura de reggae com rap, pregam o fuzilamento
e apedrejamento de homossexuais
| |
"Mande-os de Volta para a África"
"Deveríamos mandá-los todos de volta
para a África Que é o lugar deles Eles deveriam
ir embora logo da América E deixar o homem branco em paz
Eles não gostam disso, eles não gostam daquilo Eles
nunca estão satisfeitos, e isso é um fato Quanto mais
damos, mais eles querem Quanto mais consertamos, mais eles quebram
(...) Vamos comprar um ou dois barcos E eis o que
precisamos fazer: Ajudá-los a fazer as malas E garantir
que nenhum crioulo fique para trás"
Trecho
da canção Send'Em All Back to Africa, de Johnny Rebel
| | |