Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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Cinema
Dize-me com quem andas...

...e nem assim conseguirei dizer quem és,
pontifica Werner Herzog em O Homem Urso


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer do filme

O americano Timothy Treadwell, que não era biólogo nem tinha profissão definida, experimentou certo dia uma iluminação: estudar e proteger os ursos-pardos do Alasca era sua missão na vida. Treadwell não tinha o preparo necessário para nenhuma dessas duas tarefas. Em vez disso, durante os treze verões que passou próximo ao Ártico, quase sempre sem nenhum contato humano, ele progressivamente se enamorou e se identificou com os ursos, até acreditar que havia, de alguma forma, se metamorfoseado num deles. A trajetória de Treadwell terminou com a negação peremptória de sua crença: em 2003, ele e sua namorada foram devorados por um dos animais. Essa aventura trágica é o que o alemão Werner Herzog recupera no documentário O Homem Urso (Grizzly Man, Estados Unidos, 2005), em que soma ao material rodado em vídeo por Treadwell suas próprias intervenções – como visitas ao local dos acontecimentos e entrevistas com amigos e colaboradores do personagem. O mais notável no filme que estréia nesta sexta-feira no país, porém, é o seu descarte deliberado de uma característica que se costuma associar aos documentários: a objetividade. Desde o início de sua carreira singular, Herzog vem se dedicando a demonstrar que não existe fronteira clara entre o real e o imaginário e, por extensão, entre o cinema documental e o de ficção.

Em experimentos como a hipnose do elenco (em Coração de Cristal) e a utilização do ator Bruno S., que fora criado num manicômio (em Stroszek e O Enigma de Kaspar Hauser), o cineasta já acenava com a vontade de borrar essa distinção. Mas, desde que passou a se dedicar mais aos documentários – não há como fugir da palavra –, seus esforços se tornaram concentrados. Em Meu Melhor Inimigo, de 1999, a intenção anunciada era destilar seu relacionamento explosivo com seu ator-emblema, o também alemão Klaus Kinski. Em vez disso, Herzog habilmente construiu duas figuras em que verdade e mito são indivisíveis e indiscerníveis – a de Kinski e a sua própria. Em Incident at Loch Ness, feito cinco anos depois, ele foi ainda mais longe: no decorrer da trama, passava pouco a pouco de diretor de um filme a personagem dele. O Homem Urso é a culminação dessa filosofia. Ao escolher um personagem que perdeu completamente a capacidade de distinguir entre o que era e o que imaginava ser, Herzog se irmana com ele como membro de uma espécie que se define menos como humana e mais como fadada por seus próprios genes a narrar e, portanto, a fantasiar.

 
 
 
 
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