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Cinema Dize-me
com quem andas... ...e nem assim conseguirei
dizer quem és, pontifica Werner Herzog em O Homem Urso  Isabela
Boscov
O americano Timothy Treadwell, que
não era biólogo nem tinha profissão definida, experimentou
certo dia uma iluminação: estudar e proteger os ursos-pardos do
Alasca era sua missão na vida. Treadwell não tinha o preparo necessário
para nenhuma dessas duas tarefas. Em vez disso, durante os treze verões
que passou próximo ao Ártico, quase sempre sem nenhum contato humano,
ele progressivamente se enamorou e se identificou com os ursos, até acreditar
que havia, de alguma forma, se metamorfoseado num deles. A trajetória de
Treadwell terminou com a negação peremptória de sua crença:
em 2003, ele e sua namorada foram devorados por um dos animais. Essa aventura
trágica é o que o alemão Werner Herzog recupera no documentário
O Homem Urso (Grizzly Man, Estados Unidos, 2005), em que soma ao
material rodado em vídeo por Treadwell suas próprias intervenções
como visitas ao local dos acontecimentos e entrevistas com amigos e colaboradores
do personagem. O mais notável no filme que estréia nesta sexta-feira
no país, porém, é o seu descarte deliberado de uma característica
que se costuma associar aos documentários: a objetividade. Desde o início
de sua carreira singular, Herzog vem se dedicando a demonstrar que não
existe fronteira clara entre o real e o imaginário e, por extensão,
entre o cinema documental e o de ficção.
Em experimentos como a hipnose do elenco (em Coração de Cristal)
e a utilização do ator Bruno S., que fora criado num manicômio
(em Stroszek e O Enigma de Kaspar Hauser), o cineasta já
acenava com a vontade de borrar essa distinção. Mas, desde que passou
a se dedicar mais aos documentários não há como fugir
da palavra , seus esforços se tornaram concentrados. Em Meu Melhor
Inimigo, de 1999, a intenção anunciada era destilar seu relacionamento
explosivo com seu ator-emblema, o também alemão Klaus Kinski. Em
vez disso, Herzog habilmente construiu duas figuras em que verdade e mito são
indivisíveis e indiscerníveis a de Kinski e a sua própria.
Em Incident at Loch Ness, feito cinco anos depois, ele foi ainda mais longe:
no decorrer da trama, passava pouco a pouco de diretor de um filme a personagem
dele. O Homem Urso é a culminação dessa filosofia.
Ao escolher um personagem que perdeu completamente a capacidade de distinguir
entre o que era e o que imaginava ser, Herzog se irmana com ele como membro de
uma espécie que se define menos como humana e mais como fadada por seus
próprios genes a narrar e, portanto, a fantasiar. |