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Cinema Ritual
de passagem Em A Criança,
os irmãos Dardenne defendem que crescer é duríssimo
mas é também libertador  Isabela
Boscov
Sonia (Déborah François)
não aparenta ter mais do que 19 anos, mas durante todo o início
de A Criança (L'Enfant, Bélgica/França,
2005), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e em breve no
Rio de Janeiro, ela anda para lá e para cá com um bebê nos
braços. Bate na porta de um apartamento e descobre que ele está
ocupado por um estranho, toma ônibus, procura telefones públicos,
caminha sempre atrás de um certo Bruno (Jérémie Renier).
Logo fica claro que Sonia acabou de sair da maternidade com o pequeno Jimmy, que
Bruno é o pai dele, e que Bruno ama Sonia. E é igualmente óbvio
que o rapaz nem registra a presença do bebê: este é só
mais um elemento indistinto numa vida que já carece de contornos. Mais
adiante, o filme dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne mostrará
que essa indiferença de Bruno, que vive de pequenos truques e esmolas,
não é necessariamente indício de brutalidade. Numa visita
à casa da mãe, ele é tratado quase como um estranho e não
pode passar da porta, porque o namorado dela está ali. Bruno é tão
jovem quanto Sonia, e não tem nenhuma experiência no tipo de vínculo
que deveria existir entre pais e filhos. Daí ele tomar a decisão
de vender o bebê para a adoção ilegal. Retornando de mãos
vazias, explica para Sonia que ganhou 5.000 euros e que eles podem ter outro filho
ao que ela perde os sentidos, num desmaio tão profundo que é
uma espécie de preâmbulo da morte. A
Criança deu aos belgas Dardenne sua segunda e merecida vitória
no Festival de Cannes. Com sua encenação espartana, sem música
e sem enquadramentos estéticos, o filme é de uma voltagem dramática
que nenhum desses recursos poderia acentuar. A seqüência em que Bruno
vai entregar o bebê e na qual, como uma criança, ele sabe
que está fazendo algo errado e prossegue assim mesmo comprime mais
angústia e suspense que filmes inteiros feitos com esse propósito
específico. Os irmãos Dardenne gostam de usar a câmera na
mão e de seguir seus personagens como se estivessem descobrindo junto com
eles qual será seu próximo gesto. Mas não existe nada de
casual em seu cinema. Orientados por um primoroso senso de ritmo e propósito,
eles rodam A Criança mais ou menos como Alfred Hitchcock talvez
o fizesse se algum dia tivesse se interessado em filmar um roteiro desse teor
ou seja, anunciando uma tragédia iminente, alongando os tempos que
conduzem até ela e dando mais peso ao que não está na cena
do que ao que se vê nela. A Criança é um filme sobre
ausências: a de Bruno, no início; a de Sonia, quando ela rompe com
ele; e a da compreensão do significado de ser uma figura paterna.
Essa lição chegará para Bruno, e a duras penas: como no filme
anterior dos Dardenne, O Filho, há algo de religioso na forma como
eles retratam esse que é o mais primordial dos laços humanos. Não
que a intenção dos diretores ao fazer Bruno pagar por seu erro seja
de natureza moral. Ele aprende errando porque é assim que se aprende. Ou,
mais precisamente, porque é assim que se cresce. Ao aventar uma possibilidade
de redenção para o casal e seu filho, Luc e Jean-Pierre Dardenne
atestam sua afiliação a um partido no qual o eleitorado da indústria
cultural não costuma votar: aquele dos criadores que vêem na passagem
da infância à idade adulta não uma perda e uma tragédia,
mas um ganho e uma libertação. |