Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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Cinema
Ritual de passagem

Em A Criança, os irmãos Dardenne
defendem que crescer é duríssimo
– mas é também libertador


Isabela Boscov

DA INTERNET
Trailer do filme

Sonia (Déborah François) não aparenta ter mais do que 19 anos, mas durante todo o início de A Criança (L'Enfant, Bélgica/França, 2005), que estréia nesta sexta-feira em São Paulo e em breve no Rio de Janeiro, ela anda para lá e para cá com um bebê nos braços. Bate na porta de um apartamento e descobre que ele está ocupado por um estranho, toma ônibus, procura telefones públicos, caminha – sempre atrás de um certo Bruno (Jérémie Renier). Logo fica claro que Sonia acabou de sair da maternidade com o pequeno Jimmy, que Bruno é o pai dele, e que Bruno ama Sonia. E é igualmente óbvio que o rapaz nem registra a presença do bebê: este é só mais um elemento indistinto numa vida que já carece de contornos. Mais adiante, o filme dos irmãos Luc e Jean-Pierre Dardenne mostrará que essa indiferença de Bruno, que vive de pequenos truques e esmolas, não é necessariamente indício de brutalidade. Numa visita à casa da mãe, ele é tratado quase como um estranho e não pode passar da porta, porque o namorado dela está ali. Bruno é tão jovem quanto Sonia, e não tem nenhuma experiência no tipo de vínculo que deveria existir entre pais e filhos. Daí ele tomar a decisão de vender o bebê para a adoção ilegal. Retornando de mãos vazias, explica para Sonia que ganhou 5.000 euros e que eles podem ter outro filho – ao que ela perde os sentidos, num desmaio tão profundo que é uma espécie de preâmbulo da morte.

A Criança deu aos belgas Dardenne sua segunda e merecida vitória no Festival de Cannes. Com sua encenação espartana, sem música e sem enquadramentos estéticos, o filme é de uma voltagem dramática que nenhum desses recursos poderia acentuar. A seqüência em que Bruno vai entregar o bebê – e na qual, como uma criança, ele sabe que está fazendo algo errado e prossegue assim mesmo – comprime mais angústia e suspense que filmes inteiros feitos com esse propósito específico. Os irmãos Dardenne gostam de usar a câmera na mão e de seguir seus personagens como se estivessem descobrindo junto com eles qual será seu próximo gesto. Mas não existe nada de casual em seu cinema. Orientados por um primoroso senso de ritmo e propósito, eles rodam A Criança mais ou menos como Alfred Hitchcock talvez o fizesse se algum dia tivesse se interessado em filmar um roteiro desse teor – ou seja, anunciando uma tragédia iminente, alongando os tempos que conduzem até ela e dando mais peso ao que não está na cena do que ao que se vê nela. A Criança é um filme sobre ausências: a de Bruno, no início; a de Sonia, quando ela rompe com ele; e a da compreensão do significado de ser uma figura paterna.

Essa lição chegará para Bruno, e a duras penas: como no filme anterior dos Dardenne, O Filho, há algo de religioso na forma como eles retratam esse que é o mais primordial dos laços humanos. Não que a intenção dos diretores ao fazer Bruno pagar por seu erro seja de natureza moral. Ele aprende errando porque é assim que se aprende. Ou, mais precisamente, porque é assim que se cresce. Ao aventar uma possibilidade de redenção para o casal e seu filho, Luc e Jean-Pierre Dardenne atestam sua afiliação a um partido no qual o eleitorado da indústria cultural não costuma votar: aquele dos criadores que vêem na passagem da infância à idade adulta não uma perda e uma tragédia, mas um ganho e uma libertação.

 
 
 
 
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