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Especial As
idades do corpo Para se manter jovem por
mais tempo, é preciso levar em conta uma característica
do relógio biológico: os órgãos do corpo não
envelhecem todos no mesmo ritmo  Paula
Neiva
A expectativa de vida do ser humano
cresce em quase todo o planeta. Um século atrás, a média
mundial era de 40 anos. Hoje no Brasil está em torno de 70 anos. A vida
mais longa e saudável é uma das mais impactantes conquistas da civilização.
Ela decorre da alimentação adequada, das melhorias sanitárias
nas cidades, dos avanços da medicina de diagnóstico e da farmacologia.
Mais significativo do que aumentar o ciclo vital é o fato de que o bem-estar
e a própria aparência da juventude podem ser prolongados por muito
mais tempo. A medicina, os estudiosos do metabolismo e os pesquisadores da nutrição
e da fisiologia têm atualmente recursos para atrasar o relógio biológico
humano. Um homem de 70 anos pode ter hoje desempenho intelectual, físico
e sexual semelhante ao que teve aos 40 anos. Uma mulher de 50 pode ter a pele
lisa e suave que desfrutava aos 30 anos. Está em curso uma revolução
no conhecimento dos processos bioquímicos relativos ao envelhecimento e
de como eles atuam em cada órgão humano, dos ossos aos olhos, dos
músculos ao cérebro, do fígado à pele.
O envelhecimento é determinado por uma intrincada cascata de acontecimentos
que afeta as diferentes estruturas do corpo. Em linhas gerais, o que se tem é
que certos marcadores biológicos estabelecem que numa altura da vida comece
a cessar a produção de alguns hormônios. Com isso, o metabolismo
se desacelera, o apetite sexual diminui, músculos perdem o tônus,
ossos se desmineralizam. Grosso modo, o processo pode ser descrito como uma ordem
superior que manda desligar pouco a pouco o corpo de modo a prepará-lo
para a morte. As ordens químicas são dadas ao sistema imunológico,
que perde eficácia, aumentando o risco de doenças. As células
ficam mais suscetíveis aos efeitos dos radicais livres moléculas
instáveis que agridem o DNA das células e podem levá-las
à morte. Nem tudo isso ocorre ao mesmo tempo ou com a mesma intensidade
em todas as pessoas. Como observou o médico francês Henry Cazalis
no século XIX, "um homem é tão velho quanto suas artérias".
A boa notícia é que
a cada dia a ciência descobre como interceptar as ordens para desligar o
organismo e mantê-lo alerta com o corpo de um jovem. Esse conhecimento espalha-se
rapidamente e a maioria dos médicos está de posse de recursos para
atrasar o processo de desmantelamento corporal. Sabe-se, por exemplo, que, como
as artérias, as diferentes estruturas do corpo passam por processos mais
ou menos rápidos de envelhecimento é o que mostra a reportagem
que se vai ler aqui. "Os rins de uma pessoa podem envelhecer antes dos ossos.
O contrário também ocorre", diz Luigi Ferrucci, epidemiologista
e geriatra italiano. Ferrucci coordena um estudo que acompanha um grupo de 1.000
pessoas desde 1958. Para produzir a reportagem que se segue, VEJA contou com a
colaboração e consultoria do médico americano Michael Roizen,
da Cleveland Clinic. Roizen é uma referência do estudo da longevidade
humana. Seu livro mais popular sobre o assunto já vendeu 3,6 milhões
de exemplares só nos Estados Unidos. Ele é fundador do RealAge Institute,
dedicado a pesquisas sobre a idade real das pessoas e de seus órgãos
internos e da pele. Sua contribuição especial foi a criação
de um método que permite às pessoas saberem se estão tão
jovens biologicamente quanto poderiam ser. A pedido de VEJA, Roizen fez o teste
sobre a idade real da pele (veja
na pág. 96) e estimou, em número de anos, o impacto
dos hábitos de vida em órgãos vitais no processo de envelhecimento.
De acordo com suas pesquisas, chegar aos 70 anos mantendo a mesma potência
orgânica dos 50 exige pouco mais do que a adoção combinada
de exercícios físicos regulares e de alimentação adequada,
pobre em calorias animais e rica em vegetais e frutas. Um ataque mais agressivo
ao processo de envelhecimento, segundo Roizen, exigirá exames médicos
mais freqüentes, a investigação precoce de predisposição
hereditária para determinadas doenças da maturidade, a reposição
adicional de minerais e vitaminas e o uso de doses diárias de aspirina.
As fotos que ilustram esta reportagem
fazem parte do livro Life (ainda sem data para publicação
no Brasil), que reúne o melhor das seis décadas do trabalho do célebre
fotógrafo sueco Lennart Nilsson, um dos pioneiros das imagens internas
do corpo humano. Ele foi um dos primeiros a, no fim dos anos 50, fotografar um
bebê ainda no útero. Para produzir as imagens mostradas nesta reportagem,
Nilsson se valeu de diversas técnicas. As fotografias feitas dentro do
útero foram conseguidas com a ajuda de endoscópios flexíveis
com lentes especiais de ângulo muito aberto, introduzidos no corpo através
da barriga. Algumas imagens foram captadas com o auxílio de microscópios
ópticos. Em outras, foram usados microscópios eletrônicos
conhecidos como SEM, sigla de scanning electron microscope, ou microscópico
eletrônico de varredura. Esses equipamentos mostram detalhes espantosos
da superfície dos órgãos. Nilsson usou como matéria-prima
em seus ensaios partes de cadáveres humanos, amostras de microrganismos
cultivadas em laboratório. Mas sua grande contribuição à
ciência é fotografar o interior do corpo humano de pessoas vivas
sem afetar sua saúde e a dos bebês. Muitas fotografias foram originalmente
produzidas em preto-e-branco e depois colorizadas por computador. Disse Nilsson,
de 83 anos, a VEJA, de seu laboratório, no Departamento de Microbiologia
e Biologia Tumoral e Celular do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia:
"Já desvendamos muitos segredos, mas ainda há muito a ser fotografado,
principalmente os processos de comunicação entre as células".
Com reportagem de
Giuliana Bergamo, Leoleli Camargo, Rafael Corrêa, Rosana Zakabi e
Ruth Costas |