Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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Especial
As idades do corpo

Para se manter jovem por mais tempo,
é preciso levar em conta uma característica
do relógio biológico: os órgãos do corpo
não envelhecem todos no mesmo ritmo


Paula Neiva

NESTA REPORTAGEM
Quadro: O tempo real

NESTA EDIÇÃO
Pele
Sangue
Sistema imunológico
Olhos
Músculos
Colesterol
Reprodução
Coração
Cérebro
Ossos
Câncer
Juventude não é só para jovens

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Lista com os 57 especialistas entrevistados para esta reportaqem
Teste: Descubra sua idade real

A expectativa de vida do ser humano cresce em quase todo o planeta. Um século atrás, a média mundial era de 40 anos. Hoje no Brasil está em torno de 70 anos. A vida mais longa e saudável é uma das mais impactantes conquistas da civilização. Ela decorre da alimentação adequada, das melhorias sanitárias nas cidades, dos avanços da medicina de diagnóstico e da farmacologia. Mais significativo do que aumentar o ciclo vital é o fato de que o bem-estar e a própria aparência da juventude podem ser prolongados por muito mais tempo. A medicina, os estudiosos do metabolismo e os pesquisadores da nutrição e da fisiologia têm atualmente recursos para atrasar o relógio biológico humano. Um homem de 70 anos pode ter hoje desempenho intelectual, físico e sexual semelhante ao que teve aos 40 anos. Uma mulher de 50 pode ter a pele lisa e suave que desfrutava aos 30 anos. Está em curso uma revolução no conhecimento dos processos bioquímicos relativos ao envelhecimento e de como eles atuam em cada órgão humano, dos ossos aos olhos, dos músculos ao cérebro, do fígado à pele.

O envelhecimento é determinado por uma intrincada cascata de acontecimentos que afeta as diferentes estruturas do corpo. Em linhas gerais, o que se tem é que certos marcadores biológicos estabelecem que numa altura da vida comece a cessar a produção de alguns hormônios. Com isso, o metabolismo se desacelera, o apetite sexual diminui, músculos perdem o tônus, ossos se desmineralizam. Grosso modo, o processo pode ser descrito como uma ordem superior que manda desligar pouco a pouco o corpo de modo a prepará-lo para a morte. As ordens químicas são dadas ao sistema imunológico, que perde eficácia, aumentando o risco de doenças. As células ficam mais suscetíveis aos efeitos dos radicais livres – moléculas instáveis que agridem o DNA das células e podem levá-las à morte. Nem tudo isso ocorre ao mesmo tempo ou com a mesma intensidade em todas as pessoas. Como observou o médico francês Henry Cazalis no século XIX, "um homem é tão velho quanto suas artérias".

A boa notícia é que a cada dia a ciência descobre como interceptar as ordens para desligar o organismo e mantê-lo alerta com o corpo de um jovem. Esse conhecimento espalha-se rapidamente e a maioria dos médicos está de posse de recursos para atrasar o processo de desmantelamento corporal. Sabe-se, por exemplo, que, como as artérias, as diferentes estruturas do corpo passam por processos mais ou menos rápidos de envelhecimento – é o que mostra a reportagem que se vai ler aqui. "Os rins de uma pessoa podem envelhecer antes dos ossos. O contrário também ocorre", diz Luigi Ferrucci, epidemiologista e geriatra italiano. Ferrucci coordena um estudo que acompanha um grupo de 1.000 pessoas desde 1958. Para produzir a reportagem que se segue, VEJA contou com a colaboração e consultoria do médico americano Michael Roizen, da Cleveland Clinic. Roizen é uma referência do estudo da longevidade humana. Seu livro mais popular sobre o assunto já vendeu 3,6 milhões de exemplares só nos Estados Unidos. Ele é fundador do RealAge Institute, dedicado a pesquisas sobre a idade real das pessoas e de seus órgãos internos – e da pele. Sua contribuição especial foi a criação de um método que permite às pessoas saberem se estão tão jovens biologicamente quanto poderiam ser. A pedido de VEJA, Roizen fez o teste sobre a idade real da pele (veja na pág. 96) e estimou, em número de anos, o impacto dos hábitos de vida em órgãos vitais no processo de envelhecimento. De acordo com suas pesquisas, chegar aos 70 anos mantendo a mesma potência orgânica dos 50 exige pouco mais do que a adoção combinada de exercícios físicos regulares e de alimentação adequada, pobre em calorias animais e rica em vegetais e frutas. Um ataque mais agressivo ao processo de envelhecimento, segundo Roizen, exigirá exames médicos mais freqüentes, a investigação precoce de predisposição hereditária para determinadas doenças da maturidade, a reposição adicional de minerais e vitaminas e o uso de doses diárias de aspirina.

As fotos que ilustram esta reportagem fazem parte do livro Life (ainda sem data para publicação no Brasil), que reúne o melhor das seis décadas do trabalho do célebre fotógrafo sueco Lennart Nilsson, um dos pioneiros das imagens internas do corpo humano. Ele foi um dos primeiros a, no fim dos anos 50, fotografar um bebê ainda no útero. Para produzir as imagens mostradas nesta reportagem, Nilsson se valeu de diversas técnicas. As fotografias feitas dentro do útero foram conseguidas com a ajuda de endoscópios flexíveis com lentes especiais de ângulo muito aberto, introduzidos no corpo através da barriga. Algumas imagens foram captadas com o auxílio de microscópios ópticos. Em outras, foram usados microscópios eletrônicos conhecidos como SEM, sigla de scanning electron microscope, ou microscópico eletrônico de varredura. Esses equipamentos mostram detalhes espantosos da superfície dos órgãos. Nilsson usou como matéria-prima em seus ensaios partes de cadáveres humanos, amostras de microrganismos cultivadas em laboratório. Mas sua grande contribuição à ciência é fotografar o interior do corpo humano de pessoas vivas sem afetar sua saúde e a dos bebês. Muitas fotografias foram originalmente produzidas em preto-e-branco e depois colorizadas por computador. Disse Nilsson, de 83 anos, a VEJA, de seu laboratório, no Departamento de Microbiologia e Biologia Tumoral e Celular do Instituto Karolinska, em Estocolmo, na Suécia: "Já desvendamos muitos segredos, mas ainda há muito a ser fotografado, principalmente os processos de comunicação entre as células".

Com reportagem de Giuliana Bergamo, Leoleli Camargo,
Rafael Corrêa, Rosana Zakabi e Ruth Costas

 
 
 
 
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