Edição 1957 . 24 de maio de 2006

Índice
Millôr
Claudio de Moura Castro
Diogo Mainardi
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Datas
Veja essa
Gente
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Copa
É com esses que
o Parreira vai

E há razões de sobra para
explicar as exclusões: de
atletas às voltas com questões
médicas à ausência nos jogos
exibidos pela TV


André Fontenelle

 
Montagem sobre fotos Carlo Fumagalli-AP/Alexandre Battibugli/Reuters/AP E AFP

A bola está com eles: no alto, Lúcio, Juan, Zé Roberto, Luisão, Júlio César, Kaká, Emerson, Cicinho, Dida, Rogério e Cris; embaixo, Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos, Robinho, Juninho, Cafu, Gilberto Silva, Ricardinho, Fred, Adriano, Gilberto e Edmílson


EXCLUSIVO ON-LINE
Especial: Copa 2006

Desde que assumiu o comando da seleção brasileira, em 2003, Carlos Alberto Parreira convocou 86 jogadores. Destes, apenas um não tinha esperança de jogar a Copa do Mundo deste ano – Romário, hoje um encanecido quarentão, chamado apenas para um amistoso-homenagem no ano passado. Todos os outros tentaram ao máximo aproveitar suas chances para agradar ao treinador e entrar na lista final de 23 homens, divulgada na segunda-feira passada. Pode parecer paradoxal, mas o próprio técnico reconheceu, no dia do anúncio, que "esta não é a melhor seleção". Parreira tem razão – os 23 que vão à Copa não são necessariamente os 23 melhores jogadores do país, embora haja nomes indiscutíveis, como Ronaldinho Gaúcho. É que, além do talento futebolístico, pesam outros critérios – alguns objetivos, como a forma física atual e a capacidade de atuar em várias posições; e outros subjetivos, como o chamado "espírito de equipe" e até a sorte de jogar em um time que aparece muito na televisão.

Os problemas físicos justificaram a ausência de três nomes que normalmente estariam garantidos na seleção: o goleiro Marcos, do Palmeiras, o zagueiro Roque Júnior, do Bayer Leverkusen, da Alemanha, e o atacante Ricardo Oliveira, do São Paulo. Os três correram contra o relógio para se recuperar de lesões e voltar a jogar antes da convocação. Marcos não conseguiu. Os outros dois retornaram a tempo de ser vistos pelo técnico, mas era tarde demais. Espalhou-se que Roque Júnior foi excluído por influência do locutor Galvão Bueno, da Rede Globo, com quem o zagueiro teve uma discussão pública no ano passado, mas se trata de uma bobagem – segundo um integrante da cúpula da comissão técnica, as críticas de Galvão pesariam a favor, e não contra Roque Júnior. O motivo de sua exclusão é haver outro zagueiro no mesmo nível – Cris, do Lyon, da França – e sem problemas recentes de contusão.

Excluir jogadores mal saídos do estaleiro é uma decisão justificada. Durante a Copa os 23 atletas estão sujeitos a novas lesões, e depois do primeiro jogo não é mais possível substituí-los. Incluir no grupo alguém machucado é uma aposta que às vezes dá certo e às vezes não. Em 1986, Telê Santana levou Zico, mesmo com problemas no joelho esquerdo. O jogador não participou dos dois primeiros jogos e a partir do terceiro começou a entrar por alguns minutos, no segundo tempo. Acabou perdendo um pênalti crucial nas quartas-de-final, contra a França, e o Brasil foi eliminado. Se isso pode ou não ser atribuído a um joelho lesionado, é conversa para muitas Copas. Em 1994, foi Parreira quem bancou a decisão de convocar Branco, apesar de um persistente problema nas costas. O jogador substituiu o titular Leonardo nas três últimas partidas e teve um papel decisivo na conquista do tetracampeonato.

O caso de Branco mostra que estar 100% não é uma condição indispensável para figurar na lista de Parreira. Do contrário, neste ano Ronaldo teria sua convocação ameaçada – está há um mês sem jogar por causa de dores na coxa direita. No entanto, em nenhum momento se cogitou excluí-lo. A razão é simples. "Fenômenos e gênios têm de ter tratamento diferente", diz o treinador. "O critério é não ter critério." Foi o mesmo tipo de motivo que levou Luiz Felipe Scolari a apostar em Ronaldo em 2002, embora o atacante só tivesse jogado os noventa minutos de uma partida duas vezes em dois anos, devido a uma grave lesão no joelho direito. Ronaldo acabou artilheiro da Copa. Ou seja, vale a pena esperar por um Ronaldo, mas não necessariamente por um Ricardo Oliveira.

O Brasil não é a única seleção que se viu diante de decisões de caráter fisioterapêutico para esta Copa. O técnico da Inglaterra, Sven-Goran Eriksson, tomou a arriscada decisão de convocar o atacante Wayne Rooney dias depois de o jogador ter fraturado o pé direito. A esperança de Eriksson é que Rooney entre em campo a partir do quarto jogo de sua equipe. Outra estrela da Inglaterra, Michael Owen, deve jogar a Copa com um pino no pé direito, também por causa de uma fratura. Em todo caso, os ingleses têm a opção de cortá-los até a véspera da primeira partida, graças a uma regra da Fifa que autoriza substituições de última hora por motivo médico.

Pelo menos dois jogadores brasileiros – Edmílson, do Barcelona, da Espanha, e Gilberto, do Hertha Berlin, da Alemanha – devem sua convocação à capacidade de jogar em mais de uma posição no campo, virtude apreciada em situações de emergência. Também possuem aquela tal qualidade, "espírito de equipe", tema das palestras e de um livro que Parreira acaba de lançar (veja o quadro). Nesse ponto, o técnico mostrou que não é intransigente. Incluiu na seleção Rogério Ceni, embora não tenha ficado nem um pouco satisfeito quando, há três meses, o goleiro insinuou que preferia jogar pelo São Paulo a defender a seleção em um amistoso na Rússia.

 
Ian Hodgson/Reuters
O inglês Wayne Rooney: convocado mesmo com uma fratura no pé direito

Um aspecto mais difícil de medir é o peso da exposição televisiva na convocação de um jogador. Atuar em um time com pouco cartaz pode destruir a carreira de um atleta na seleção. O goleiro Júlio César, um dos 23 jogadores desta Copa, viveu essa experiência. Em 2005, transferiu-se do Flamengo para o Chievo Verona, um time pequeno da Itália. "Eu vinha sendo convocado, e ir para lá me afastou do time", lembra. Seis meses mais tarde, passou para o Internazionale, um dos maiores clubes italianos. Um mês depois, estava de volta à seleção. Outro goleiro selecionável, Gomes, não teve tanta sorte. Joga no PSV Eindhoven, da Holanda, menos badalado que os esquadrões da Itália ou da Espanha. "O Parreira pode até ver alguns vídeos, mas é diferente de acompanhar o campeonato inteiro", afirma o goleiro, que ficou fora da lista. Elano, jogador do Santos que vinha figurando nas convocações, transferiu-se para o Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, e simplesmente sumiu do radar de Parreira.

 

O CRAQUE DAS PALESTRAS

O êxito na seleção brasileira fez do técnico Carlos Alberto Parreira um requisitado palestrante. Nesses eventos, que duram cerca de uma hora e chegam a render-lhe, cada um, 20 000 reais (numa estimativa que ele se recusa a comentar), Parreira transmite suas experiências a públicos tão ecléticos quanto os executivos de uma multinacional farmacêutica ou os estudantes de psicologia aplicada ao esporte. Seja qual for o auditório, o técnico ministra basicamente a mesma palestra – um resumo da própria carreira, como exemplo de sucesso, e lições sobre como conduzir um grupo de pessoas à vitória profissional. É o conteúdo dessas conferências que compõe o livro Formando Equipes Vencedoras (BestSeller, 168 páginas, 19,90 reais), lançado às vésperas da Copa. A obra é útil para quem quer entender como Parreira pretende administrar as diferenças de personalidade de seus 23 jogadores durante os trinta dias de competição na Alemanha. Como auto-ajuda para quem está iniciando a carreira, em qualquer área, o livro contém alguns conselhos óbvios – ter disciplina, perseverança, espírito de equipe e ambição. Mas o técnico não esquece outras recomendações não tão evidentes – sobretudo para quem costuma ver futebol como uma combinação exclusiva de sorte e talento –, como aceitar sacrifícios e construir desde cedo uma boa rede de relacionamentos. Nesses dois aspectos, a biografia de Parreira é um bom exemplo. Em 1967, aos 24 anos, o recém-formado preparador físico aceitou morar em Gana para dirigir a seleção local durante dois anos, com um salário de 100 dólares por mês, a convite do Itamaraty. Enriqueceu, portanto, apenas o currículo e ganhou, no prontuário médico, uma internação por malária. Em seguida, foi um convite de um professor da faculdade, Admildo Chirol, que o alçou à comissão técnica da seleção que seria tricampeã do mundo.

Com reportagem de Letícia Sorg

 
 
 
 
topovoltar