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Copa É
com esses que o Parreira vai
E há
razões de sobra para explicar as exclusões: de atletas às
voltas com questões médicas à ausência nos jogos
exibidos pela TV  André
Fontenelle Montagem
sobre fotos Carlo Fumagalli-AP/Alexandre Battibugli/Reuters/AP E AFP
 | A
bola está com eles: no alto, Lúcio, Juan, Zé Roberto, Luisão,
Júlio César, Kaká, Emerson, Cicinho, Dida, Rogério
e Cris; embaixo, Ronaldinho, Ronaldo, Roberto Carlos, Robinho, Juninho, Cafu,
Gilberto Silva, Ricardinho, Fred, Adriano, Gilberto e Edmílson |
Desde que assumiu o comando da seleção
brasileira, em 2003, Carlos Alberto Parreira convocou 86 jogadores. Destes, apenas
um não tinha esperança de jogar a Copa do Mundo deste ano
Romário, hoje um encanecido quarentão, chamado apenas para um amistoso-homenagem
no ano passado. Todos os outros tentaram ao máximo aproveitar suas chances
para agradar ao treinador e entrar na lista final de 23 homens, divulgada na segunda-feira
passada. Pode parecer paradoxal, mas o próprio técnico reconheceu,
no dia do anúncio, que "esta não é a melhor seleção".
Parreira tem razão os 23 que vão à Copa não
são necessariamente os 23 melhores jogadores do país, embora haja
nomes indiscutíveis, como Ronaldinho Gaúcho. É que, além
do talento futebolístico, pesam outros critérios alguns objetivos,
como a forma física atual e a capacidade de atuar em várias posições;
e outros subjetivos, como o chamado "espírito de equipe" e até a
sorte de jogar em um time que aparece muito na televisão.
Os problemas físicos justificaram a ausência de três nomes
que normalmente estariam garantidos na seleção: o goleiro Marcos,
do Palmeiras, o zagueiro Roque Júnior, do Bayer Leverkusen, da Alemanha,
e o atacante Ricardo Oliveira, do São Paulo. Os três correram contra
o relógio para se recuperar de lesões e voltar a jogar antes da
convocação. Marcos não conseguiu. Os outros dois retornaram
a tempo de ser vistos pelo técnico, mas era tarde demais. Espalhou-se que
Roque Júnior foi excluído por influência do locutor Galvão
Bueno, da Rede Globo, com quem o zagueiro teve uma discussão pública
no ano passado, mas se trata de uma bobagem segundo um integrante da cúpula
da comissão técnica, as críticas de Galvão pesariam
a favor, e não contra Roque Júnior. O motivo de sua exclusão
é haver outro zagueiro no mesmo nível Cris, do Lyon, da França
e sem problemas recentes de contusão.
Excluir jogadores mal saídos do estaleiro é uma decisão justificada.
Durante a Copa os 23 atletas estão sujeitos a novas lesões, e depois
do primeiro jogo não é mais possível substituí-los.
Incluir no grupo alguém machucado é uma aposta que às vezes
dá certo e às vezes não. Em 1986, Telê Santana levou
Zico, mesmo com problemas no joelho esquerdo. O jogador não participou
dos dois primeiros jogos e a partir do terceiro começou a entrar por alguns
minutos, no segundo tempo. Acabou perdendo um pênalti crucial nas quartas-de-final,
contra a França, e o Brasil foi eliminado. Se isso pode ou não ser
atribuído a um joelho lesionado, é conversa para muitas Copas. Em
1994, foi Parreira quem bancou a decisão de convocar Branco, apesar de
um persistente problema nas costas. O jogador substituiu o titular Leonardo nas
três últimas partidas e teve um papel decisivo na conquista do tetracampeonato.
O caso de Branco mostra que estar
100% não é uma condição indispensável para
figurar na lista de Parreira. Do contrário, neste ano Ronaldo teria sua
convocação ameaçada está há um mês
sem jogar por causa de dores na coxa direita. No entanto, em nenhum momento se
cogitou excluí-lo. A razão é simples. "Fenômenos e
gênios têm de ter tratamento diferente", diz o treinador. "O critério
é não ter critério." Foi o mesmo tipo de motivo que levou
Luiz Felipe Scolari a apostar em Ronaldo em 2002, embora o atacante só
tivesse jogado os noventa minutos de uma partida duas vezes em dois anos, devido
a uma grave lesão no joelho direito. Ronaldo acabou artilheiro da Copa.
Ou seja, vale a pena esperar por um Ronaldo, mas não necessariamente por
um Ricardo Oliveira. O Brasil não
é a única seleção que se viu diante de decisões
de caráter fisioterapêutico para esta Copa. O técnico da Inglaterra,
Sven-Goran Eriksson, tomou a arriscada decisão de convocar o atacante Wayne
Rooney dias depois de o jogador ter fraturado o pé direito. A esperança
de Eriksson é que Rooney entre em campo a partir do quarto jogo de sua
equipe. Outra estrela da Inglaterra, Michael Owen, deve jogar a Copa com um pino
no pé direito, também por causa de uma fratura. Em todo caso, os
ingleses têm a opção de cortá-los até a véspera
da primeira partida, graças a uma regra da Fifa que autoriza substituições
de última hora por motivo médico.
Pelo menos dois jogadores brasileiros Edmílson, do Barcelona, da
Espanha, e Gilberto, do Hertha Berlin, da Alemanha devem sua convocação
à capacidade de jogar em mais de uma posição no campo, virtude
apreciada em situações de emergência. Também possuem
aquela tal qualidade, "espírito de equipe", tema das palestras e de um
livro que Parreira acaba de lançar (veja
o quadro). Nesse ponto, o técnico mostrou que não
é intransigente. Incluiu na seleção Rogério Ceni,
embora não tenha ficado nem um pouco satisfeito quando, há três
meses, o goleiro insinuou que preferia jogar pelo São Paulo a defender
a seleção em um amistoso na Rússia. Ian
Hodgson/Reuters
 | | O
inglês Wayne Rooney: convocado mesmo com uma fratura no pé direito
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Um aspecto mais difícil
de medir é o peso da exposição televisiva na convocação
de um jogador. Atuar em um time com pouco cartaz pode destruir a carreira de um
atleta na seleção. O goleiro Júlio César, um dos 23
jogadores desta Copa, viveu essa experiência. Em 2005, transferiu-se do
Flamengo para o Chievo Verona, um time pequeno da Itália. "Eu vinha sendo
convocado, e ir para lá me afastou do time", lembra. Seis meses mais tarde,
passou para o Internazionale, um dos maiores clubes italianos. Um mês depois,
estava de volta à seleção. Outro goleiro selecionável,
Gomes, não teve tanta sorte. Joga no PSV Eindhoven, da Holanda, menos badalado
que os esquadrões da Itália ou da Espanha. "O Parreira pode até
ver alguns vídeos, mas é diferente de acompanhar o campeonato inteiro",
afirma o goleiro, que ficou fora da lista. Elano, jogador do Santos que vinha
figurando nas convocações, transferiu-se para o Shakhtar Donetsk,
da Ucrânia, e simplesmente sumiu do radar de Parreira.
O CRAQUE DAS PALESTRAS
O
êxito na seleção brasileira fez do técnico Carlos Alberto
Parreira um requisitado palestrante. Nesses eventos, que duram cerca de uma hora
e chegam a render-lhe, cada um, 20 000 reais (numa estimativa que ele se recusa
a comentar), Parreira transmite suas experiências a públicos tão
ecléticos quanto os executivos de uma multinacional farmacêutica
ou os estudantes de psicologia aplicada ao esporte. Seja qual for o auditório,
o técnico ministra basicamente a mesma palestra um resumo da própria
carreira, como exemplo de sucesso, e lições sobre como conduzir
um grupo de pessoas à vitória profissional. É o conteúdo
dessas conferências que compõe o livro Formando Equipes Vencedoras
(BestSeller, 168 páginas, 19,90 reais), lançado às vésperas
da Copa. A obra é útil para quem quer entender como Parreira pretende
administrar as diferenças de personalidade de seus 23 jogadores durante
os trinta dias de competição na Alemanha. Como auto-ajuda para quem
está iniciando a carreira, em qualquer área, o livro contém
alguns conselhos óbvios ter disciplina, perseverança, espírito
de equipe e ambição. Mas o técnico não esquece outras
recomendações não tão evidentes sobretudo para
quem costuma ver futebol como uma combinação exclusiva de sorte
e talento , como aceitar sacrifícios e construir desde cedo uma boa
rede de relacionamentos. Nesses dois aspectos, a biografia de Parreira é
um bom exemplo. Em 1967, aos 24 anos, o recém-formado preparador físico
aceitou morar em Gana para dirigir a seleção local durante dois
anos, com um salário de 100 dólares por mês, a convite do
Itamaraty. Enriqueceu, portanto, apenas o currículo e ganhou, no prontuário
médico, uma internação por malária. Em seguida, foi
um convite de um professor da faculdade, Admildo Chirol, que o alçou à
comissão técnica da seleção que seria tricampeã
do mundo. | | Com
reportagem de Letícia Sorg |