Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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Comportamento
Acomodados no ninho

Eles são adultos, têm emprego
e ganham bem. Mas nem pensam
em sair da casa dos pais


Sandra Brasil


Fabiano Accorsi
Sérgio Freire, 31 anos, empresário de franquias
"Uma coisa é ter condições de sair da casa dos pais; outra é ter vontade, o que ainda não senti."

É fácil identificar o pai e a mãe formados a partir do turbilhão de contestações que, nas décadas de 60 e 70, mudou para sempre hábitos e costumes: preocupados em poupar os filhos de uma educação à antiga, eles tentam ser compreensivos e liberais, mimam sem pudor e fazem de tudo para proteger a prole do mundo lá fora. Pois bem, os filhos cresceram – a primeira leva tem hoje 30, 40 anos. E também eles desenvolveram uma atitude impensável na juventude de seus pais: a de adiar quanto podem a hora de deixar o ninho. O fenômeno já tem alguns anos, mas só faz crescer, inclusive (ou principalmente) nas famílias bem de vida, nas quais as oportunidades de o jovem sair e ir cuidar da própria vida são muito maiores. Segundo dados extraídos da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE, nas casas brasileiras em que a renda familiar é superior a vinte salários mínimos a porcentagem de filhos entre 25 e 29 anos ainda aboletados com os pais atingia 66% em 2004, um salto em relação aos 43% de 1993; na faixa dos 30 aos 34 anos, o avanço foi de 20% para 29% (veja quadro). Muitos, claro, são jovens que não conseguem emprego ou que o perderam, recém-separados, levados pelas circunstâncias a cuidar de pais doentes ou inválidos. Mas muitos outros ficam mesmo porque preferem assim, caso de Sérgio Freire, que tem 31 anos, é sócio em uma empresa de franquias em que ganha por volta de 10.000 reais por mês e permanece no mesmo endereço de sempre – o amplo apartamento dos pais no bairro do Morumbi, em São Paulo. "Uma coisa é ter condições de sair da casa dos pais; outra é ter vontade, e isso eu ainda não senti", explica.

Oscar Cabral
Ana Carolina Oliveira, 26 anos, advogada
"Eu e meu namorado temos pais liberais. Podemos decidir sem pressa quando sair da casa deles."


"Os números da pesquisa refletem uma tendência iniciada nos anos 90", diz Sérgio Amad Costa, 48 anos, especialista em recursos humanos e professor da Fundação Getulio Vargas de São Paulo. "O jovem precisou aumentar o tempo de estudo para competir no mercado de trabalho, passou a ter menos estabilidade no emprego e a demorar mais para conseguir boa remuneração." Aí foi ficando, ficando, e se acostumou, acrescenta. "Até no meio acadêmico a gente nota que muitos jovens adiam o casamento porque isso significa ter de sair da casa dos pais." Casamento, de fato, é o único motivo que Freire vê para, um dia, ir morar em outro lugar. A namorada, Carolina Geraissati, 27 anos, que está montando um negócio próprio, mora com os pais em São Paulo e não vê a hora de sair de casa ("Quero desesperadamente morar sozinha"), tem sentimentos conflitantes sobre a situação doméstica dele. "O lado bom é que ele é muito família. O problema é que não tem tanta liberdade. E quem mora só fica mais responsável", diz. Freire, por seu lado, ressalta apenas as vantagens: na conjuntura atual, poupa cerca de 30% do que ganha e gasta o restante com viagens ao exterior (quatro no ano passado, uma até agora neste ano), roupas, diversão, celular, cartão de crédito e manutenção do carro. Não contribui em casa, nem os pais querem que o faça. "Nunca precisamos. A gente fica feliz de ele gostar de estar na nossa companhia até essa idade", diz a mãe, Carmen.

Esse tipo de atitude é comum nos pais de filhos adultos e encaminhados na vida que continuam a morar com eles. Com o aumento da violência, eles se sentem aliviados de ter os filhotes sob as asas – e deles em geral exigem que avisem quando vão chegar mais tarde ou dormir fora. Nesse ponto, divergem dos pais de Tripp (Matthew McConaughey), o filho de 35 anos que mora com os pais no filme Armações do Amor, em cartaz nos cinemas. Isso mesmo, o assunto chegou ao cinema: os pais de Tripp contratam Paula (Sarah Jessica Parker), especialista em situações do gênero, para conquistar o filho e empurrá-lo na direção da casa própria. De um modo geral, porém, não é o casamento que motiva os filhos grandinhos a sair da casa dos pais. A maior parte deles coloca o sucesso profissional como propulsor da separação. A advogada carioca Ana Carolina Oliveira, 26 anos, já podia ter deixado a casa da mãe há mais de um ano; inclusive, ganhou um apartamento pequeno para começar a vida. "Mas prefiro alugar e, no futuro, vender para comprar um maior e melhor", diz Ana. Morando com a mãe – muito bem, aliás, numa casa com quatro suítes, spa e vista para a Pedra da Gávea –, ela economiza metade do que ganha. O namorado, Guilherme Gomes, engenheiro civil de 29 anos, também mora com os pais. "Eles são liberais, e dormimos juntos tanto na minha casa como na dele", conta Ana. "Assim, podemos decidir sem pressa quando sair."


Oscar Cabral
Alberto Osorio Neto, 28 anos, gerente financeiro
"Consigo economizar para fazer MBA na França, viajo para o exterior todo ano e ainda comprei uma moto."

Meta ainda mais específica tem Mauro Toshio Waki, 33 anos, executivo de uma multinacional alemã: vai começar a se mexer para deixar a ampla e confortável casa dos pais em 2007, quando, se tudo correr nos conformes, terá amealhado no banco a poupança que se propôs (e que prefere não revelar). Waki guarda boa parte do salário de 13.000 reais e começou em março um curso de pós-graduação. "Trabalho desde os 18 anos, não peço dinheiro a meus pais desde os 20 e poderia ter saído de casa para viver bem há três anos. Mas preferi ficar por duas razões: investir no meu pé-de-meia e desfrutar as mordomias", declara Waki, que faz em média quatro viagens por ano para o exterior e gasta 1.000 reais por mês com seu hobby, o golfe. Não ter de arcar com as despesas de sua própria casa também permite ao carioca Alberto Osorio Neto, 28 anos, gerente de uma multinacional francesa, viajar uma vez por ano para praticar nos Estados Unidos ou no Chile seu esporte favorito, snowboard. Com renda mensal superior a 5.000 reais, ele guarda dinheiro para fazer MBA na França em 2007 e possui carro e motocicleta. "Tive a experiência de morar sozinho um ano e meio, a trabalho, em São Paulo. Quando voltei ao Rio, pretendia ficar só um tempo na casa da minha mãe, mas resolvi me preparar para estudar fora e achei bobagem mudar", afirma.

Roberto Setton
Mauro Waki, 33 anos, gerente de vendas
"Não peço dinheiro a meus pais desde os 20 anos. Fico na casa deles por duas razões: investir no meu pé-de-meia e desfrutar as mordomias."


Como todo e qualquer fenômeno dos tempos modernos, o do filho adulto que não sai de casa foi parar no site de relacionamentos Orkut, em que três comunidades tratam do tema. A maior, "Eu moro com os meus pais", tem mais de 800 integrantes e foi criada pelo publicitário gaúcho Leonardo Sindermann, 27 anos. "Não esperava tanta gente. Só queria mostrar um pouco do meu perfil. Sou acomodado, numa boa. As pessoas têm uma certa vergonha de assumir que moram com os pais", diz Sindermann, filho único que poupa cerca de 40% do que ganha. Não sair tão cedo de casa é, de certa forma, um jeito de prolongar a adolescência – esta, uma atitude presente em vários aspectos da vida da turma que está passando dos 40. "Maturidade deixou de ter relação direta com o ato de deixar a casa dos pais", diz o professor Sérgio Costa. Resistir à imersão total na vida adulta, no caso, não tem a ver com irresponsabilidade ou criancice. Simplesmente seus praticantes não vêem tanta diferença assim no modo de agir e pensar de quem tem 25 ou 45 anos. Nos Estados Unidos, um grupo de comportamento nessa linha ganhou recentemente nome próprio em longa reportagem da revista New York. Trata-se dos grups (abreviação de grown-ups, adultos, em inglês, e um termo tirado, muito apropriadamente, de um episódio da série Jornada nas Estrelas), homens e mulheres na faixa dos 40 anos que se vestem como os adolescentes e compartilham seus gostos culturais. São adultos na conta bancária e na responsabilidade; têm 20 anos no guarda-roupa de jeans, camiseta e tênis e na preferência por bandas moderninhas. Bem distante das análises de comportamento e das justificativas bem fundamentadas, o advogado carioca Ricardo Velloso, 43 anos, escritório próprio (com sócio) e renda mensal em torno dos 7.000 reais, mora com os pais e não tem meta, plano ou prazo para mudar de endereço. "Já tive vontade de sair de casa, mas passou rápido", brinca. O único problema são as namoradas. "Todas acham logo que vão se casar comigo. Quando sabem que já passei dos 40 e ainda moro com meus pais, pensam em igreja, casa, filhos." Tudo em vão, ele avisa. "Eu não estou preparado."



 

 
 
 
 
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