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Saúde
Sinal de alerta na academia Pesquisa
confirma que quem pratica exercícios e pára de repente pode
desenvolver sintomas de depressão 
Roberta Salomone
Roberto Setton  |
| Fernanda: ao parar por seis meses, "a vida perdeu a graça"
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A estreita relação
entre atividade física e bem-estar psíquico está comprovada
em inúmeras pesquisas científicas. Já o fenômeno inverso
ou seja, o efeito psíquico da interrupção da prática
regular de exercícios é relativamente pouco observado. No
mês passado, a divulgação de uma pesquisa realizada nos Estados
Unidos veio preencher essa lacuna. O estudo teve como alvo pessoas comuns, que
se exercitavam pelo menos trinta minutos por dia, três vezes por semana.
E constatou que essas pessoas estão sujeitas ao mesmo tipo de transtorno
que costuma acometer os atletas, quando privados da atividade à qual estão
acostumados: tanto amadores quanto profissionais terão grande probabilidade
de desenvolver algum desconforto ou distúrbio (insônia, irritabilidade,
cansaço) típicos da depressão. "Já existiam evidências
de que esses são sintomas mais comuns em sedentários do que em quem
se exercita com freqüência. Agora, está comprovado que a suspensão
dos exercícios pode gerar um quadro de abstinência, até mesmo
nos menos compulsivos por malhação", afirma Sergio Garcia Stella,
fisiologista do exercício e professor de educação física
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Coordenada por cientistas do departamento de psicologia médica e clínica
da Uniformed Services University, de Maryland, a pesquisa reuniu quarenta pessoas
entre 18 e 45 anos, divididas em dois grupos. Um suspendeu as atividades imediatamente
e o outro continuou com a rotina habitual. Durante duas semanas, todos foram submetidos
a questionários psicológicos e avaliações físicas.
"Ao fim da primeira semana da pesquisa, no grupo que parou de se exercitar os
principais sintomas apresentados eram somáticos, como fadiga, tensão
e perda de vigor. Depois, apareceram também traços de melancolia,
culpa e falta de prazer", disse a VEJA Ali Berlin, psicóloga do esporte
e uma das autoras do estudo.
Selmy Yassuda  |
| Roriz: em cinco meses sem malhar, "passei de forte para
magrelo e a auto-estima foi lá para baixo" |
A partir dessas conclusões, os pesquisadores americanos relacionaram também
outros sintomas comuns à depressão, como distúrbios do sono
e irritabilidade, com a interrupção da prática de exercícios.
A pesquisa confirma algumas constatações de um outro trabalho, de
2004, realizado pelo departamento de psiquiatria da Universidade de Michigan,
nos Estados Unidos, que analisou o efeito da interrupção das atividades
aeróbicas em dezoito pessoas que se exercitavam por no mínimo quatro
horas por semana. O objetivo desse trabalho era avaliar as conseqüências
físicas da interrupção, mas constatou-se que quase metade
dos participantes apresentou, simultaneamente, alterações de humor
após uma semana de inatividade. A explicação é simples
e conhecida. A atividade física gera produção de endorfina,
neurotransmissor ligado ao prazer e à satisfação e responsável
pelo alívio da dor e pelo relaxamento do corpo. Com o tempo, o organismo
se acostuma e cria dependência química da produção
dessa substância. "Quem freqüenta muito a academia sente, além
disso, a perda do ambiente social, daquele momento de interiorização,
de testar seus limites, e acaba com uma alteração psicológica
também", diz Paulo Zogaib, médico fisiologista e professor de medicina
esportiva da Unifesp. Foi esse o fator que o advogado carioca Rafael Roriz, 24
anos, ignorou quando decidiu abandonar a academia para estudar para vários
concursos públicos, no ano passado. Em pouco tempo, descobriu ter feito
uma péssima escolha. "A primeira coisa que senti foi uma indisposição
muito grande: tinha dificuldade para acordar cedo, ficava meio desanimado para
fazer coisas rotineiras e me cansava com facilidade. Meu dia não rendia
nada. Como malhei durante dez anos, depois que parei passei de forte para magrelo.
Minha auto-estima foi lá para baixo", diz ele, que cinco meses depois retomou
a rotina de exercícios.
Há
circunstâncias em que interromper a atividade física é inevitável.
Se o repouso total é obrigatório, não existe outro jeito
a não ser se conformar e procurar outras atividades que proporcionem prazer
e relaxamento. O ideal, porém, dizem os especialistas, é nunca parar
completamente. Quando a interrupção é motivada por alguma
contusão, pode-se procurar um exercício de baixo impacto, que poupe
a região lesionada. E, quando o problema é falta de tempo, sempre
há algum exercício rápido e eficiente. A paulista Fernanda
Serrani, 29 anos, sofreu até descobrir isso. Seis meses atrás, assoberbada
de trabalho numa empresa de marketing esportivo, ela, que sempre praticou esportes
e malhava seis vezes por semana ("Eu me sentia melhor a cada gota de suor"), deixou
a academia. Pensava em continuar com os exercícios na sala de ginástica
do prédio onde mora, mas não deu certo. "Acabei desanimando: não
tinha graça, não encontrava ninguém, não tinha o incentivo
do professor", diz. Aí, parou de vez, e vieram os sintomas. "Comecei a
ficar triste, o corpo mais cansado. Sentia o peso do trabalho, ficava mais estressada.
Não tinha vontade de me arrumar. A vida perdeu a graça." Fernanda
só sossegou depois que conseguiu um tempo para voltar a correr. "Agora,
se estou triste, vou para a esteira, e tudo melhora", afirma.
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