Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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Brasil
Banditismo e podridão

Ao atacar VEJA, Lula usou adjetivos que seriam
mais indicados para qualificar o seu governo

Na semana passada, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, desferiu contra VEJA o pior ataque já feito por uma autoridade pública a um órgão de imprensa desde a redemocratização do país. Ao comentar a reportagem da revista sobre o arsenal de informações contra o governo estocado pelo banqueiro Daniel Dantas, Lula atacou o mensageiro e não a mensagem. O presidente disse que: 1) VEJA atingira "o limite da podridão"; 2) o autor do texto era "bandido, mau-caráter, malfeitor, mentiroso"; e 3) na redação da revista não havia ninguém com "10% da dignidade" dele próprio – como se dignidade pudesse ser medida em porcentagem, assim como as propinas dos petistas. Em seguida, Lula afirmou que não havia lido a reportagem contra a qual vociferara. Típico.

Desde 2005, quando VEJA revelou o escândalo da corrupção nos Correios, Lula, seus ministros e aliados se esforçam para negar todas as revelações feitas pela revista. Foi assim com o valerioduto, a empresa de Lulinha, os sacadores do mensalão, os dólares de Cuba, a quebra do sigilo do caseiro, e por aí vai. Nestas páginas, VEJA apresenta uma lista dos principais escândalos da era Lula – escândalos que só vieram à tona graças ao trabalho da imprensa. Chama atenção o fato de que, quando eles eclodiram, o presidente jamais utilizou contra seus protagonistas – estes, sim, malfeitores – os termos empregados em relação à reportagem exemplar de VEJA. Mas os fatos estão aí, ainda que Lula tente ignorá-los. Se ele quiser estender-se sobre "banditismo" e "podridão", é preciso que olhe para seu próprio governo.


CORRUPÇÃO NOS CORREIOS




O banditismo: em maio de 2005, VEJA publicou reportagem sobre Maurício Marinho, um funcionário dos Correios flagrado em vídeo embolsando propina de 3 000 reais. A revista informou que Marinho fazia parte de uma rede de corrupção que arrecadava recursos para o PTB, de Roberto Jefferson, com o aval do PT. Outros órgãos federais, como o IRB, também estavam no esquema.

A podridão: o ex-ministro José Dirceu classificou a reportagem como "golpismo das elites", afirmou que o governo Lula "não rouba nem deixa roubar" e garantiu que a corrupção nos Correios era "um caso isolado". O PT tentou impedir o Congresso de investigar o caso.

O desfecho: funcionários das empresas confirmaram as denúncias. Todos os diretores dos Correios e do IRB foram afastados.


VALERIODUTO


O banditismo: em junho de 2005, VEJA informou que Marcos Valério havia montado um grande esquema de lavagem de dinheiro a pedido do PT. Segundo a reportagem, Valério distribuía dinheiro a políticos de vários partidos para garantir apoio a Lula no Congresso. No mês seguinte, a revista mostrou que Valério e os petistas José Genoino e Delúbio Soares haviam firmado contratos milionários de empréstimos nos bancos Rural e BMG.

A podridão: antes de VEJA publicar cópias de contratos assinados por Valério, Genoino e Delúbio, os três refutaram as afirmações da revista. Valério afirmou que todas as acusações eram mentirosas. Delúbio garantiu que nunca havia transgredido os "limites da ética política". Genoino disse "nunca ter assinado" nenhum empréstimo.

O desfecho: a análise da contabilidade de Valério comprovou todas as denúncias e revelou a existência do mensalão, esquema descrito por Roberto Jefferson em entrevista à Folha de S.Paulo.


LULINHA E A GAMECORP


Ana Araujo

O banditismo: Fábio Luís da Silva, filho do presidente Lula, montou uma empresa no segundo ano do governo do pai, a Gamecorp. Logo em seguida, ficou sócio da gigante Telemar e levou 5 milhões de reais no negócio. A operação não foi comunicada à Comissão de Valores Mobiliários, como determina a lei. A história foi revelada na edição de VEJA de 13 de julho de 2005.

A podridão: o presidente Lula se recusou a investigar o caso. Em um discurso indignado, disse ser alvo de um "golpe baixo" da imprensa destinado a "invadir sua vida privada".

O desfecho: a reportagem de VEJA foi inteiramente confirmada, mas o governo não tomou nenhuma providência sobre o caso.


DINHEIRO NA CUECA

O banditismo: em julho de 2005, José Adalberto Vieira da Silva foi preso no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, com 100 000 dólares e 200 000 reais escondidos na cueca. Ele era assessor do deputado cearense José Nobre Guimarães, irmão de José Genoino, ex-presidente do PT.

A podridão: Adalberto tentou dizer que o dinheiro havia sido obtido com a venda de "legumes e verduras". Genoino não se manifestou sobre o caso. Guimarães foi poupado de dar explicações. Sua única punição foi ser expulso da executiva do partido no Ceará.

O desfecho: apesar de ter sido apanhado em flagrante, José Adalberto teve a prisão relaxada logo em seguida. Ninguém foi preso nem punido pelo episódio.

CASO BOB MARQUES

O banditismo: em 3 de agosto de 2005, VEJA trazia uma informação que afetava diretamente o ex-ministro José Dirceu. A CPI dos Correios havia encontrado uma autorização de saque no valerioduto no valor de 50 000 reais em nome de Roberto Marques, conhecido como Bob, secretário particular de Dirceu.

A podridão: José Dirceu disse que quem aparecia na lista era um homônimo do seu secretário. O ex-ministro se esforçou para esconder o nome de Bob Marques porque sabia que a autorização de saque em nome de seu assessor era a prova cabal de sua ligação com o dinheiro sujo do valerioduto.

Fotos Ernesto Rodrigues/AE
es/AE

O desfecho: apesar de tentar ocultar suas relações com Marcos Valério, Dirceu foi cassado pela Câmara em novembro do ano passado e não poderá se candidatar a nenhum cargo público até 2015.


PALOCCI E OS LOBISTAS



Valter Campanato/ABR
ABR

O banditismo: no fim de agosto, a revista informou que Antonio Palocci, então ministro da Fazenda, mantinha perigosas relações com um grupo de lobistas. Na semana seguinte, revelou que eles se encontravam em uma luxuosa mansão no Lago Sul de Brasília.

A podridão: Antonio Palocci convocou uma entrevista coletiva naquele fim de semana para refutar todas as afirmações da revista. Também disse que não se encontrava com os lobistas e que, se tivesse ido à tal casa, deixaria seu cargo no governo.

O desfecho: Palocci foi desmentido por Rogério Buratti, seu ex-assessor, e por Francenildo Costa, o caseiro da mansão.


OS DÓLARES CUBANOS



Luz
Luludi/Ag. Luz

O banditismo: Vladimir Poleto, ex-assessor de Palocci, transportou dólares vindos de Cuba em um jatinho particular no ano de 2002. Poleto levou o dinheiro de Brasília para um escritório do PT em São Paulo. VEJA revelou os bastidores do transporte de dinheiro em novembro de 2005.

A podridão: o PT pressionou Poleto a desmentir o conteúdo da reportagem durante seu depoimento à CPI dos Bingos. Ele negou ter dado as informações a VEJA e alegou até que, se havia dito alguma coisa, era porque estava alcoolizado.

O desfecho: Poleto saiu da CPI desmoralizado, pois sua entrevista havia sido gravada. E ele estava sóbrio.


MARKETING BANDIDO



aujo
Ana Araujo

O banditismo: em janeiro deste ano, VEJA revelou que Duda Mendonça, ex-marqueteiro de Lula, que já havia admitido ter recebido dinheiro do caixa dois petista nas Bahamas, também tinha outra conta secreta em Miami e estava envolvido com remessas ilegais de dinheiro para o exterior, desvio de verbas de órgãos públicos, sonegação de impostos e crimes eleitorais.

A podridão: Duda atacou duramente a revista em notas publicadas nos maiores jornais do país. Lula, apesar das revelações, permitiu que Duda continuasse sendo o titular da milionária conta publicitária da Petrobras.

O desfecho: as outras contas de Duda no exterior vieram à tona e ele foi citado pela Procuradoria-Geral da República como um dos quarenta membros da "organização criminosa" petista.


O SIGILO DO CASEIRO



Antonio Cruz/ABR
z/ABR

O banditismo: em abril, VEJA publicou reportagem em que revelava que o ministro Antonio Palocci havia sido o mandante da quebra de sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa.

A podridão: o governo tentou montar uma farsa para preservar a imagem de Palocci diante da opinião pública. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, ajudou na tentativa de criar uma versão que eximisse Palocci de responsabilidade.

O desfecho: o ex-presidente da Caixa Jorge Mattoso confessou ter recebido ordem de Palocci para quebrar o sigilo do caseiro. O ministro foi demitido.

 
 
 
 
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