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Brasil Dantas
fez, entregou e continua operando
Documentos desmentem Dantas e derrubam suas versões sobre o dossiê
que passou a VEJA. Mas ele ainda conversa com o governo
 Marcio
Aith Joedson
Alves/AE
 | | Dantas:
ele pagou quase 1 milhão de dólares aos espiões de contas |
A lista das supostas contas
Em
sua edição passada, na reportagem sobre o arsenal do banqueiro Daniel
Dantas contra o governo, VEJA revelou que ele incluía supostas contas de
autoridades brasileiras no exterior. Para ilustrar a matéria, a revista
publicou a cópia de uma lista (à direita) enviada por ordem
de Dantas a VEJA, que tomou o cuidado de apagar o número das supostas contas
e o nome dos bancos. Ainda assim, o fato de tê-la publicado causou várias
reações. Uma delas foi a afirmação de que a lista
não provava nada. De fato não prova nem VEJA pretendeu o
contrário. Ao publicá-la, a revista quis tão-somente mostrar
que tinha em seu poder papéis repassados por Dantas. Todos eles foram entregues
ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Ao longo da
semana passada, os repórteres da revista empenharam-se em acompanhar os
desdobramentos da crise causada pela primeira reportagem. Neste quadro, o leitor
encontra um resumo da apuração. A
MÃO DO BANQUEIRO A lista com as supostas
contas de petistas não chegou à redação de VEJA por
acaso versão divulgada por Dantas, em acordo com o governo, e comprada
por jornalistas ingênuos. Foi oferecida pessoalmente pelo banqueiro à
direção da revista e entregue por seus espiões. A operação
deixou gravações e rastros ELE
DOBROU DIRCEU Documento inédito mostra
Dantas numa conference call com o espião Holder, que o banqueiro afirma
mal conhecer. O que diz Dantas nessa reunião? Que o ex-ministro José
Dirceu (Casa Civil) se comprometeu a defender os interesses do Opportunity desde
que não fosse investigado pela Kroll. Dantas também diz que alguns
membros da Polícia Federal são corruptíveis e podem atuar
como mercenários DE
NOVO NA CASA ERRADA, MINISTRO Enquanto o governo
e jornalistas ingênuos se ocupavam em atacar VEJA por causa de sua reportagem
sobre o dossiê do banqueiro, Dantas teve um encontro secreto com o ministro
da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, na noite da última quarta-feira,
em Brasília. Eles combinaram uma trégua. Familiar? Sim: há
dois meses Bastos participou da reunião em que o ex-ministro Antonio Palocci
(Fazenda) tentou apagar as provas da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa
EM PODER DO PROCURADOR Como
registrou em sua edição passada, VEJA não dispõe dos
meios legais necessários para conferir todas as informações
do dossiê de Dantas. Por isso, remeteu tudo o que recebeu do banqueiro ao
procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza talvez
a única pessoa hoje em Brasília isenta e confiável para analisar
o material de 41 páginas, das quais constam 27 supostas contas de sete
autoridades com seus números, bancos, saldos e supostos caminhos
utilizados pelos espiões de Dantas para localizá-las |
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Em reportagem publicada na semana
passada, VEJA informou ter recebido do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity,
por meio de um ex-espião da agência de investigações
Kroll, documentos com supostas contas, em paraísos fiscais, do presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, de ministros e ex-ministros de seu governo,
do senador Romeu Tuma e do diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda. O
simples fato de um cidadão com o histórico policial de Daniel Dantas
deter uma lista com supostos segredos financeiros da cúpula do governo
deveria causar uma reação enérgica do Estado contra o banqueiro.
Estranhamente, Lula e seus principais ministros decidiram poupá-lo. Em
vez de apurarem o conteúdo da mensagem, insurgiram-se contra o mensageiro.
Lula fez a VEJA o mais destemperado
ataque verbal já desferido por um presidente contra um órgão
de imprensa desde a redemocratização. Enquanto isso, e não
por coincidência, Dantas admitia conhecer os documentos, mas negava, em
entrevistas que deveriam ingressar no anedotário da ingenuidade jornalística,
tê-los encomendado à Kroll e os entregado a VEJA. Não foi
uma boa estratégia. Dantas ofereceu o material pessoalmente à revista
e o entregou por intermédio de Frank Holder, ex-diretor da Kroll. A operação
envolveu vários emissários de Dantas, o próprio banqueiro
e deixou registros e gravações suficientes para ocupar várias
edições de VEJA. Os
repórteres da revista empenharam-se em acompanhar os desdobramentos da
crise causada pela primeira reportagem. Descobriram fatos igualmente graves. Ao
mesmo tempo que VEJA era atacada pelo governo e por colunistas e editorialistas
crédulos, loucos para acreditar em tudo que favoreça o governo,
o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, reunia-se secretamente
com Dantas. O encontro ocorreu em Brasília, na noite de quarta-feira 17.
VEJA apurou que Dantas e Bastos celebraram uma trégua. O governo não
colocaria a Polícia Federal na cola do banqueiro desde que Dantas e seu
investigador fechassem a boca e que o banqueiro segurasse seus sócios
e cúmplices, caso eles viessem a ser convocados a depor na CPI dos Bingos.
Quando sair a versão oficial do encontro, ela com toda a certeza será
candidamente reproduzida sem contestação pelos crédulos,
ingênuos e aqueles com interesses financeiros em agradar ao governo. Rafael
Neddermeyer/AE
 | | Thomaz
Bastos: reunião secreta com o banqueiro "inimigo" |
O encontro entre Dantas e o ministro da Justiça é escandaloso. Dantas
acusa o ministro Bastos de ter contas não declaradas no exterior. Se essa
acusação é falsa, como sustenta o ministro, Bastos deveria
esforçar-se para prender o banqueiro, e não se sentar à mesa
com ele para tratar de negócios. Não é a primeira vez que
o ministro é flagrado na casa errada. Há dois meses, VEJA revelou
sua participação em reunião na qual o ex-ministro Antonio
Palocci (Fazenda) tentou apagar as provas da quebra do sigilo do caseiro Francenildo
Costa. Ele não perdeu o cargo naquela ocasião pela lassidão
moral da política brasileira. É possível que a mesma lassidão
o garanta no cargo novamente. O curioso é que, na noite de quarta-feira,
enquanto Bastos se encontrava com o banqueiro investigado pela Polícia
Federal, a própria Polícia Federal, de quem Bastos é superior
hierárquico, deixava vazar que convocaria um editor executivo de VEJA e
o colunista Diogo Mainardi para depor em Brasília. Ou seja, enquanto mandava
a PF incomodar os mensageiros, o ministro negociava com o autor da mensagem.
VEJA também foi a campo entender melhor por que Bastos e outros ministros
tratam Dantas com temor. Obteve nos Estados Unidos um documento precioso cujo
original está em poder da Justiça americana: uma ata, escrita pela
Kroll, resumindo uma conferência telefônica realizada em 10 de fevereiro
de 2005 entre diretores da Kroll e o banqueiro e sua turma. Nela, Dantas faz revelações.
Diz que o então ministro José Dirceu (Casa Civil) e o governo do
PT como um todo comprometeram-se a defender os interesses do Opportunity. Para
isso haveria uma condição: que eles não fossem investigados
pela Kroll. Dantas descreve setores da Polícia Federal como corruptíveis
e mercenários. Curiosidade: também participou da conferência
telefônica o espião Holder, a quem Dantas agora alega mal conhecer.
 | | O
ex-ministro José Dirceu: apoio ao banqueiro para ver-se livre da espionagem da
Kroll |
Confrontado com as
entrevistas que Dantas concedeu a jornais nesta semana, o documento mostra que
existem dois Dantas. Um, o verdadeiro, é o que anda nos porões.
O outro, o de fachada, é aquele em que os jornalistas ingênuos acreditam.
Este último esteve ativo em algumas entrevistas nas quais admitiu vagamente
que conhecia a lista com supostas contas bancárias, que classificou como
"inverossímeis". Não lhe foi perguntado em que circunstâncias
Dantas soube desses papéis, por quem, quando e onde. Ele admitiu apenas
que conhecia o espião Frank Holder, o compilador das listas, assim assim,
como que de passagem. Dantas aliou-se
ao governo na tentativa de desmoralizar VEJA. É uma estratégia arriscada,
considerando o volume de conversas gravadas e de outros registros feitos durante
os nove meses em que a revista esteve em contato com o banqueiro e seus espiões.
A estratégia começou a ruir graças a jornalistas de O
Estado de S. Paulo, em franco contraste com um de seus editorialistas, o crédulo,
o oficialesco, o assustadiço. Na segunda-feira passada, os jornalistas
fizeram uma grave denúncia: o governo decidira atacar VEJA e poupar o banqueiro.
A razão da escolha? Segundo o jornal, VEJA fora escolhida como alvo preferencial
pois, na avaliação do governo, Dantas teria ainda muita munição.
Pena que o jornal não tenha aprofundado a investigação suscitada
pela reportagem em questão. Não houvesse perdido o rumo ético
há um bom tempo, o governo Lula teria de ser confrontado com o absurdo
moral de atacar uma publicação que fez o seu trabalho. Mas isso
é, realisticamente, perda de tempo.
Na terça-feira, o mesmo jornal revelou que a Brasil Telecom, empresa que
Dantas controlou, pagou, ao longo de 2005, centenas de milhares de dólares
diretamente ao espião Holder aquele que Dantas dissera mal conhecer
e que, segundo ele, coleta informações inverossímeis. Na
última sexta-feira, um documento publicado na revista Carta Capital
comprovou que esses pagamentos totalizaram 838.000 dólares. A publicação
foi além: lembrou que o senador Heráclito Fortes (PFL-PI), velho
aliado de Dantas, fez várias alusões a contas bancárias no
exterior durante o depoimento do ministro Luiz Gushiken à CPI dos Correios,
no dia 14 de setembro passado: "Não era uma característica da Kroll,
no mundo inteiro, fazer gravações telefônicas, como se queria
provar e mostrar, mas, sim, rastreamento de contas e outras atividades", disse
o senador ao ministro. "O medo da Kroll tem outro fundamento, senhor Gushiken,
e a verdade vai chegar. É só questão de esperar, é
só questão de tempo. Na verdade, o pavor que o governo tem da Kroll
tem outro fundamento e nós vamos chegar à verdade." Valeria
Gonçalves/AE
 | | Mangabeira:
contratado por Dantas. Para pensar |
VEJA divulgou apenas um dos 41 papéis que recebeu dos espiões de
Dantas e, mesmo assim, tomou o cuidado de apagar o nome das instituições
financeiras e os supostos números de contas. Muitos compararam o episódio
à divulgação do Dossiê Cayman, a papelada falsa que,
em 1998, tentava incriminar o então presidente Fernando Henrique Cardoso
e os ministros José Serra e Sergio Motta e o governador de São Paulo,
Mário Covas, como donos de uma empresa num banco das Antilhas. A comparação
não se sustenta não só porque VEJA tomou o cuidado de apagar
informações sensíveis, mas, principalmente, porque a revista
apontou o nome do mandante do dossiê, o nome do fabricante do dossiê
e chamou atenção para o uso dos papéis como instrumento de
chantagem. Outros criticaram a revista
por publicar informações ainda não comprovadas, lembrando
ser essencial, num jornalismo com pretensões éticas, confirmar as
informações antes de publicá-las. VEJA concorda com a premissa,
mas não aceita a crítica. Está confirmado e provado que foi
o banqueiro Daniel Dantas quem pagou 838.000 dólares pelo dossiê;
está confirmado e provado que o autor dos papéis é o ex-diretor
da Kroll Frank Holder, um dos mais experientes e respeitados investigadores privados
americanos; está confirmado e provado que Dantas usou o dossiê como
elemento de chantagem. Vale lembrar que os nomes dos fabricantes do Dossiê
Cayman todos obscuros meliantes do submundo de Miami só vieram
à tona dois anos depois de sua divulgação. Além disso,
as fontes que vazaram aqueles papéis falsificados permanecem incógnitas.
Joedson
Alves/AE
 | | Procurador-geral:
ilha de isenção |
VEJA
não denunciou a existência de contas de petistas e outras autoridades
em paraísos fiscais, ao contrário da versão comprada por
jornalistas ingênuos nesta última semana. VEJA informou que um banqueiro
poderoso tem em mãos e usa como instrumento para obter vantagens oficiais
uma lista com supostos números de contas em paraísos fiscais do
presidente da República e de autoridades brasileiras no exterior
isso é notícia. Foi essa a notícia que VEJA publicou. A revista
deixou claro que não pôde comprovar a autenticidade dos papéis,
que podem ser todos eles uma fraude. Mesmo assim, é custoso acreditar que
o banqueiro tenha gasto tanto tempo e dinheiro na contratação e
instrumentação dos melhores espiões internacionais e tenha
saído da operação com um monte de documentos de fantasia.
Fosse tudo fantasia, teria o ministro Márcio Thomaz Bastos se abalado a,
arriscando o próprio cargo, encontrar-se secretamente com o banqueiro Dantas?
Afinal, Dantas não é o inimigo da PF, o investigado pela polícia
e que, segundo o governo, falsifica papéis para derrubar o próprio
governo? Fosse tudo fantasia, o ex-ministro José Dirceu teria se curvado
aos interesses de Dantas sob a ameaça do escrutínio da Kroll, como
mostra a ata da teleconferência em poder da Justiça americana?
É tudo fantasia? Na esperança de que a apuração
caminhe agora pelas vias oficiais, VEJA, na semana passada, entregou todos os
41 documentos de que dispunha ao procurador-geral da República única
autoridade com estofo ético e poderes para investigar o caso.
A prova da chantagem  | | "Dantas
afirmou que a informação relatada por JK [Jules Kroll] confirma
sua impressão da situação. (...) Ele afirmou especificamente
ter recebido confirmação direta de uma fonte muito próxima
ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, de que enquanto Dirceu não
fosse investigado (...) ele apoiaria Dantas" |
 | | "Dantas
relatou que, uma vez que o governo Lula estivesse livre da preocupação
de que não era parte de nenhuma investigação, não
exerceria nenhum papel ativo nos eventos que se seguiriam. Dantas apontou que
a operação policial foi conduzida diretamente pela Polícia
Federal, mas sem o conhecimento nem o apoio do governo. Dantas sugeriu que existem
elementos na Polícia Federal que podem trabalhar independentemente e que,
se corrompidos, agiriam como mercenários. O estilo do ministro da Justiça,
Bastos, conhecido por não interferir nos assuntos relacionados à
conduta da polícia, embasa essa opinião" |
O documento acima mostra que Daniel Dantas usou o poder de espionagem da Kroll
para chantagear o governo Lula, de modo geral, e o então ministro José
Dirceu, de maneira específica. É a transcrição da
ata de uma conferência telefônica realizada no dia 10 de fevereiro
de 2005 entre o banqueiro, sua turma e a direção da Kroll. Na transcrição
da conversa, Dantas diz que Dirceu estava disposto a defender os interesses do
Opportunity junto ao governo. Em troca, Dirceu exigiria a garantia de não
ser alvo de espionagem. Em outro trecho, o banqueiro diz que o governo Lula como
um todo ficaria satisfeito em evitar investigações. Afirma ainda
conhecer "elementos" da Polícia Federal que, "se corrompidos, poderiam
atuar como mercenários". Um dos participantes da conversa é o investigador
Frank Holder, a quem Dantas diz ter conhecido apenas superficialmente. Outro é
o esquisitão Mangabeira Unger, o guru de aluguel contratado por Dantas
para assessorá-lo. Na ocasião, a Kroll já era investigada
no Brasil pela PF. A transcrição da conversa, obtida por VEJA nos
Estados Unidos, ainda está em sigilo. Foi entregue pela própria
Kroll à Justiça americana, numa ação em que a nova
direção da Brasil Telecom exige, da Kroll, cópias do trabalho
de espionagem feito na época em que Dantas controlava a empresa. |
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Notícia é com ele
Roberto
Setton
 | | Aith:
um dos mais destacados jornalistas do país |
O editor executivo Marcio Aith, de 38 anos, é um dos mais destacados
jornalistas do país. Formado em direito pela USP, na Faculdade do Largo
São Francisco, ele iniciou sua carreira na imprensa em 1990, na Gazeta
Mercantil. Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Tóquio e
Washington, ele estava à frente da editoria de economia do jornal em 2004,
quando revelou que a empresa de investigações Kroll fora contratada
pelo banqueiro Daniel Dantas para espionar adversários comerciais e integrantes
do governo. Em VEJA, Aith vem desempenhando um papel fundamental na apuração
dos escândalos do governo Lula. Foi ele quem desvendou as ligações
perigosas do ministro Antonio Palocci com a turma de Ribeirão Preto e descobriu
uma rede de sete contas secretas no exterior do publicitário Duda Mendonça,
marqueteiro do PT. Agora, o nome de Aith volta a estar em evidência por
causa da apuração exemplar que trouxe à tona o dossiê
de Daniel Dantas contra autoridades brasileiras. De certa forma, trata-se de uma
extensão das reportagens que ele fez sobre a Kroll na Folha de S.Paulo.
Aith não larga o osso. | | |