|
|
Brasil Terror
em São Paulo Como um bandido e
seus comparsas conseguiram colocar de joelhos a maior cidade brasileira
 Marcelo
Carneiro e Camila Pereira Montagem
com fotos de Valeria Gonçalves/Joedson Alves/AE
 | | Marcola,
o líder do PCC; ao fundo, um dos 82 ônibus incendiados em São
Paulo: mais de 100 horas de pânico |
O homem que comandou a rebelião
simultânea de 73 presídios paulistas, provocou uma onda de atentados
no estado e, ao que tudo indica, ordenou o cessar-fogo aos seus comparsas depois
de mais de 100 horas de terror, não é reconhecido pela Justiça
como líder de uma organização criminosa. Aos olhos da lei,
Marcos Willians Herbas Camacho, o "Marcola", é simplesmente um condenado
por assalto a bancos. Nessa condição, até a semana passada,
o bandido pôde cumprir pena em uma penitenciária comum, de onde comandava
os mais de 100.000 presos que a polícia acredita estarem ligados ao Primeiro
Comando da Capital o PCC, a maior facção criminosa do estado.
Há cerca de um ano, o Ministério Público tentava, sem sucesso,
obter autorização judicial para transferir Marcola para Presidente
Bernardes, o presídio de segurança máxima onde ele se encontra
provisoriamente agora e onde vigora o temido regime disciplinar diferenciado (RDD),
que isola o preso do mundo e dos outros detentos. Os promotores, no entanto, não
conseguiam reunir provas que convencessem a Justiça de que Marcola liderasse
uma organização criminosa. Isso porque, precavido, ele raramente
fala ao celular e jamais ordena a execução de crimes diretamente.
O número 1 do PCC é,
sem dúvida, um bandido esperto. Mas está longe de corresponder às
descrições em que aparece como uma espécie de gênio
do crime, leitor de 3.000 livros e apreciador de Dante Alighieri (a chance de
um livro do poeta italiano ter ido parar nas mãos de Marcola não
é pequena, mas a possibilidade de ele não ter entendido o que leu
é certamente maior). A mitificação de criminosos, processo
freqüente, é ainda mais compreensível num caso em que o bandido
em questão acaba de levar às cordas os que deveriam combatê-lo
para a parte derrotada, exaltar os "superpoderes" do adversário
é sempre um jeito de minimizar a própria humilhação.
E Marcola humilhou. Ao longo de quatro dias, sua organização conseguiu
impor o terror aos 11 milhões de habitantes da cidade de São Paulo.
Policiais foram assassinados, prédios públicos sofreram ataques
a bomba, ônibus arderam em chamas, serviços básicos foram
interrompidos e agências bancárias, escolas e comércio fecharam
suas portas. Tudo porque um bando de criminosos se recusava a perder as regalias
a que estava acostumado nas penitenciárias comuns. A transferência
de 765 detentos ligados ao PCC para a penitenciária de Presidente Venceslau,
de regras mais rígidas, foi o estopim para a espiral de violência
que teve como epicentro a maior e a mais rica metrópole brasileira. Entre
policiais, criminosos e cidadãos comuns, foram 152 mortos, vítimas
dos 293 atentados cometidos pelo PCC de Marcola. João
Wainer/Folha Imagem
 | | Terminal
de ônibus deserto, segunda-feira, 16h, em São Paulo: cidade-fantasma
|
O líder da facção
criminosa conhece bem o universo que comanda. Com 38 anos, ele passou quase a
metade da vida atrás das grades. Começou batendo carteiras e entrou
pela primeira vez em uma penitenciária em 1990. Sua ascensão no
PCC se deu em 2002, quando os então líderes da facção
José Márcio Felício, o "Geleião", e César
Augusto Roriz, conhecido como "Cesinha" foram isolados em Presidente
Bernardes. Aproveitando-se do vácuo de poder, Marcola assumiu o controle
da organização e, em pouco tempo, mudou métodos, estilo e
prioridades. Enquanto os antigos líderes eram adeptos de ações
espetaculares, que incluíam atentados a bomba contra delegacias, com direito
a assinatura da facção, ele optou pela invisibilidade. Ordenou o
fim dos ataques e mergulhou o PCC em um silêncio só quebrado na semana
passada. Foi trabalhando assim, na surdina, que aumentou o raio de ação
da organização e quadruplicou seus ganhos. Na "gestão" anterior,
o PCC era pouco mais do que uma gangue com atuação restrita aos
presídios de São Paulo e destinada a extorquir detentos recém-chegados
ao sistema prisional. Por 50 reais, os líderes ofereciam segurança
contra violências de agentes penitenciários e abusos sexuais por
parte de presos. Marcola tinha planos mais ambiciosos. Desde que passara uma temporada
na mesma penitenciária que o traficante de drogas Luiz Fernando da Costa,
o Fernandinho Beira-Mar, em Brasília, ele havia decidido que o caminho
para o crescimento do PCC estava além dos muros das prisões. Pouco
antes de Marcola conhecer o traficante, integrantes da facção já
haviam passado uma estada em presídios do Rio e voltado deslumbrados com
o pujante estilo de vida de seus colegas cariocas. "Alguns deles nos contaram,
impressionados, que os presos de lá apostavam carros importados nos jogos
de futebol e que os melhores jogadores eram premiados com 5.000 reais", diz o
promotor do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime
Organizado (Gaeco) Roberto Porto, que há cinco anos investiga o PCC.
Assim que assumiu o comando da organização, Marcola tratou de espalhar
uma nova determinação aos seus comparsas: dali em diante, a prioridade
não seria mais a extorsão de novatos, e sim o comércio de
drogas. No início, os paulistas estabeleceram uma joint venture com os
cariocas do Comando Vermelho, facção que domina a maior parte dos
pontos-de-venda de drogas nas favelas do Rio. Logo, porém, Marcola providenciou
seus próprios canais e tornou-se o principal fornecedor de drogas para
a Baixada Santista. Partiu também dele a idéia que transformou o
PCC numa espécie de cooperativa do crime. Hoje, ele funciona nos moldes
de um consórcio: aluga armas e carros para outros bandidos e recebe, como
pagamento, parte do butim que os criminosos arrebatam em suas ações.
Com o comércio de drogas e a participação em ações
de seqüestro e assaltos a condomínios de luxo, a polícia estima
que a facção movimente um mínimo de 1 milhão de reais
por mês. Luiz
Carlos Murauskas/Folha Imagem
 | | O
governador Cláudio Lembo (ao centro) e autoridades de segurança:
discurso tirado de letra de rap |
A capacidade de liderança de Marcola no círculo da bandidagem é
indiscutível. Além de ter unificado e reformado em tempo recorde
a organização, ele também consagrou um estilo na facção.
A linha "bandido de fala mansa", dotado de supostas qualidades intelectuais, fez
tanto sucesso na facção que diversos integrantes da cúpula
começaram a copiar ao menos parte do modelo. "Passaram a usar óculos
como ele", conta o promotor Porto. O acessório virou uma espécie
de marca registrada dos líderes do PCC. Na maioria dos aspectos, porém,
Marcola pouco difere dos bandidos que comanda: gosta de gastar dinheiro comprando
carrões e roupas de grife (mesmo preso, costumava usar tênis Nike
e camisas brancas da grife francesa Lacoste) e não tem outra perspectiva
na vida que não a de seguir fazendo a única coisa que sabe. Como
ele mesmo disse, certa vez, em resposta a um investigador que o aconselhou a largar
o crime: "Doutor, nessa vida, cada um trabalha no que sabe fazer melhor. O senhor
vai sair daqui para a sua sala. Eu vou de novo roubar banco!".
O que possibilita o surgimento de um Marcola no sistema prisional? E que espécie
de caldo de cultura permite o crescimento de uma organização como
o PCC? Os Estados Unidos têm 2 milhões de detentos, uma população
carcerária cinco vezes maior do que a brasileira. Mesmo assim, há
26 anos não existe registro de uma grande rebelião em seus presídios.
Qual a explicação para isso? Existem três diferenças
fundamentais entre os sistemas prisionais dos dois países. A primeira delas
diz respeito às condições carcerárias de cada um.
"As cadeias brasileiras são antecâmaras do inferno", lembra Cláudio
Beato, coordenador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública
da Universidade Federal de Minas Gerais. "Em meio à violência, à
corrupção e à superlotação, os presos se tornam
uma massa de manobra perfeita para facções como o PCC, que assumem
a sua proteção", diz. Nas prisões americanas, o cenário
é diferente. Apesar do grande contingente de presos, os casos de corrupção
são bem mais raros e superlotação praticamente inexiste:
na maior parte dos presídios, há apenas dois detentos por cela.
A segunda diferença é que, nos Estados Unidos, os presos recém-chegados
ao sistema passam por uma triagem rigorosa que visa a evitar a mistura de detentos
perigosos com condenados por delitos leves. "A medida impede a ocorrência
de um fenômeno muito comum no Brasil: a transformação de um
presídio em escola do crime", explica o advogado americano Alvin Bronstein,
diretor da ONG The National Prison Project. O terceiro fator, e talvez o mais
importante na elucidação dos motivos que fazem com que Estados Unidos
e Brasil tenham cenários prisionais tão diversos, diz respeito à
maneira como se punem os presos que cometem infrações. No Brasil,
muitos dos delitos não merecem nenhuma sanção. O uso do celular,
por exemplo, não é considerado falta grave ao contrário
do que ocorre nos Estados Unidos, onde, em alguns estados, o flagrante pode acarretar
até aumento de pena (veja
quadro). Outra particularidade do sistema americano: lá,
presos que lideram motins não apenas são enviados para uma das temidas
Supermax, as prisões de segurança máxima, como podem ter
de cumprir nelas o resto de suas sentenças. No Brasil, os bandidos mais
perigosos só podem permanecer por 360 dias no RDD o regime mais
duro, em que o preso fica 23 horas por dia trancafiado em celas individuais. É
possível, sim, quebrar a espinha dorsal do crime organizado (veja
quadro). O primeiro passo para isso é saber punir. "A perspectiva
de punição rigorosa faz com que o detento pense duas vezes antes
de cometer uma indisciplina", diz o coronel José Vicente da Silva, ex-secretário
nacional de Segurança Pública.
A crise desencadeada pelas ações do PCC fez com que petistas e tucanos
passassem a semana se dedicando a acusar-se mutuamente de responsabilidade pelo
episódio e a produzir as mais disparatadas declarações a
respeito de suas possíveis causas. Nesse último exercício,
o governador Cláudio Lembo sagrou-se, de longe, campeão. Entre outras
coisas, atribuiu à "maldade da burguesia" e ao "egoísmo" da "minoria
branca" praticamente todos os males da nação, incluindo a superpopulação
carcerária e as bombas do PCC. Daria uma boa letra de rap. O presidente
Lula também deu sua contribuição ao debate ao afirmar que
a causa da violência ocorrida em São Paulo era a "falta de escolaridade".
"Na hora que você não investe em uma escola, você vai ter de
investir depois em uma cadeia", disse. Trata-se de uma platitude. A falta de educação
formal não impediu que um operário sem 2º grau chegasse à
Presidência da República. Deficiências de formação
sem dúvida são um grande problema, mas podem ser superadas pelo
esforço individual. Elas não explicam a criminalidade e muito menos
o crime organizado. Além do mais, uma pesquisa feita pelo economista Marcelo
Neri mostra que o grau de escolaridade da população carcerária
de São Paulo é mais alto do que o da população paulista
que vive fora das cadeias. Entre os presos, 24,5% são analfabetos e analfabetos
funcionais (que estudaram até no máximo três anos). Já
entre a população paulista, o índice aumenta para 33%.
As causas do que se verificou em São Paulo não são "a maldade
da burguesia" ou a "falta de escolaridade". Tudo o que ocorreu se deve à
ausência de Estado. Onde ele não existe ou se encontra desorganizado,
nascem e vicejam as organizações criminosas. Proteger seus cidadãos
é a função primordial de qualquer Estado. Mas o brasileiro,
seja na instância federal, seja na estadual, vem falhando miseravelmente
nessa missão que pode ser resumida em prender criminosos e mantê-los
bem presos. Cabe agora aos seus representantes assumir a responsabilidade pela
situação e trabalhar para mudá-la antes que o episódio
caia no esquecimento e volte a se repetir daqui a pouco por capricho de
bandidos contrariados em seus interesses. 
|