Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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UM DEFEITO DE COR

Ana Maria Gonçalves me mandou seu primeiro livro com este título invendável, Ao Lado e à Margem do que Sentes por Mim. Livro terno, íntimo, vivido e escrito em Itaparica, terra que João Ubaldo mitificou. Mas Ana Maria não é baiana. É mineira, de boa e segura família mineira, aquela que sempre é capaz de criar aventureiros limpos. Ana já morou em São Paulo, mas é mineira. Viveu também em Salvador, mas é mineira. Hoje aí pelos 30 anos, é uma mulher extremamente moderna – mas continua mineira. E convenho (!) lembrar: "Mineiro nunca é o que parece. Sobretudo quando parece o que é".

Se Ao Lado e à Margem é altamente legível, Um Defeito de Cor, que tendes em mão (por respeito sempre me refiro a esse livro na segunda do plural), é extraordinário. E olhem que acabei de ler, e estou traduzindo, o esplendoroso superclássico Celestina, de Fernando Rojas, de 1449, quando o Brasil nem era nascido. E também acabei de ler o sufocante (pela inteligência e cultura) The Discovery of Heaven (2001), do holandês Harry Mulisch.

Ana Maria Gonçalves apelidou com perfeição seu segundo livro: Um Defeito de Cor. Ela explica: na nossa delicada belle époque colonial, você, escurinho pretendente a cargo público, tinha que assinar documento abdicando oficialmente da cor da pele. Pois os tais cargos, militares e civis – e eclesiásticos também, olalá! –, só podiam, claro, ser ocupados por brancos.

Um Defeito de Cor narra a história de Kehinde, negrinha de 8 anos capturada no Daomé (Benin), no princípio do século XX, trazida pro Brasil, rodando por Bahia, Maranhão, Santos, São Paulo, e por aí vai, nesse mundo perdido que era o Brasil.

A saga de Kehinde atravessa oito décadas, mais ou menos o mesmo tempo que o negro Damião vive no romance de Josué Montello, ouvindo Os Tambores de São Luís, romance já merecidamente clássico.

Violências inauditas contra a negritude muçulmana – arrancar olhos de escravas e castrar escravos por ousarem ser rivais sexuais de senhores –, pois estamos num mundo que se debate, com rebeliões conquistando liberdades falsas, mas também verdadeiras, individuais, como a da própria Kehinde, que a conquista aprendendo a ler, escrever e falar inglês. E lhe permite fugir pro Maranhão e pro Recôncavo, e até pro Rio (1840 – competente reconstituição), na procura desesperada de um filho vendido.

Madura e liberta mesmo em sua alma, Kehinde volta à África, vira "industrial", casa com negro "inglês" e, já velha, volta ao Brasil. Aonde não chega.

A vida, não sei se vocês sabem, não tem happy end.

Em suas 952 páginas, Um Defeito de Cor não tem hausto, parada pra respirar.

Desmintam-me, por favor.

É um dos livros mais importantes, coloco entre os melhores que li em nossa bela língua eslava.

Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero é esse, rapaz?, entre os 10.

TE CUIDA, SARAMAGO!

 
 
 
 
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