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Investidores do Brasil, eu avisei
a tempo:
QUEM APOSTAR NO CAOS
NÃO VAI PERDER DINHEIRO
A Bíblia do Caos
L&PM |
UM DEFEITO DE COR
Ana Maria Gonçalves me mandou seu primeiro
livro com este título invendável, Ao Lado e
à Margem do que Sentes por Mim. Livro terno, íntimo,
vivido e escrito em Itaparica, terra que João Ubaldo mitificou.
Mas Ana Maria não é baiana. É mineira, de boa
e segura família mineira, aquela que sempre é capaz
de criar aventureiros limpos. Ana já morou em São
Paulo, mas é mineira. Viveu também em Salvador, mas
é mineira. Hoje aí pelos 30 anos, é uma mulher
extremamente moderna mas continua mineira. E convenho (!)
lembrar: "Mineiro nunca é o que parece. Sobretudo quando
parece o que é".
Se Ao Lado e à Margem
é altamente legível, Um Defeito de Cor,
que tendes em mão (por respeito sempre me refiro a esse livro
na segunda do plural), é extraordinário. E olhem que
acabei de ler, e estou traduzindo, o esplendoroso superclássico
Celestina, de Fernando Rojas, de 1449, quando o Brasil
nem era nascido. E também acabei de ler o sufocante (pela
inteligência e cultura) The Discovery of Heaven
(2001), do holandês Harry Mulisch.
Ana Maria Gonçalves apelidou com perfeição
seu segundo livro: Um Defeito de Cor. Ela explica:
na nossa delicada belle époque colonial, você,
escurinho pretendente a cargo público, tinha que assinar
documento abdicando oficialmente da cor da pele. Pois os tais cargos,
militares e civis e eclesiásticos também, olalá!
, só podiam, claro, ser ocupados por brancos.
Um Defeito de Cor narra a história
de Kehinde, negrinha de 8 anos capturada no Daomé (Benin),
no princípio do século XX, trazida pro Brasil, rodando
por Bahia, Maranhão, Santos, São Paulo, e por aí
vai, nesse mundo perdido que era o Brasil.
A saga de Kehinde atravessa oito décadas,
mais ou menos o mesmo tempo que o negro Damião vive no romance
de Josué Montello, ouvindo Os Tambores de São
Luís, romance já merecidamente clássico.
Violências inauditas contra a negritude
muçulmana arrancar olhos de escravas e castrar escravos
por ousarem ser rivais sexuais de senhores , pois estamos
num mundo que se debate, com rebeliões conquistando liberdades
falsas, mas também verdadeiras, individuais, como a da própria
Kehinde, que a conquista aprendendo a ler, escrever e falar inglês.
E lhe permite fugir pro Maranhão e pro Recôncavo, e
até pro Rio (1840 competente reconstituição),
na procura desesperada de um filho vendido.
Madura e liberta mesmo em sua alma, Kehinde
volta à África, vira "industrial", casa com negro
"inglês" e, já velha, volta ao Brasil. Aonde não
chega.
A vida, não sei se vocês sabem,
não tem happy end.
Em suas 952 páginas, Um Defeito
de Cor não tem hausto, parada pra respirar.
Desmintam-me, por favor.
É um dos livros mais importantes, coloco
entre os melhores que li em nossa bela língua eslava.
Entre os 100 melhores, Millôr? Que exagero
é esse, rapaz?, entre os 10.
TE CUIDA, SARAMAGO!

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