Edição 1957 . 24 de maio de 2006

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Carta ao leitor
A promoção a povo

Hulton Archive/Getty Images
Jefferson: "Um homem honesto não sente prazer no exercício do poder sobre seus iguais"


Quando VEJA revelou, na semana passada, que o banqueiro Daniel Dantas usou espiões internacionais para levantar a vida financeira de petistas, o presidente Lula reagiu com violência verbal. Mesmo sem ler a reportagem e conhecendo apenas relatos sobre seu conteúdo, atacou os profissionais que a fizeram e concluiu: "Sinceramente, é de uma leviandade e de uma grosseria que um ser humano comum não pode admitir, quanto mais um presidente da República".

Na página 50 da presente edição, VEJA comenta as repercussões da reportagem e publica novas descobertas sobre as relações de Dantas com o governo petista. Neste espaço se tratará da concepção de Lula de que um presidente da República merece mais consideração que um cidadão comum. Isso exige uma reflexão. Ela nos vem da lembrança de que os fundadores do sistema democrático de governo, aqueles americanos que se rebelaram contra a tirania monarquista do rei George III da Inglaterra no século XVIII, cuidaram principalmente de coibir o poder e as regalias pessoais do presidente.

Preocupados em não criar um novo rei com o cargo de presidente, ficou estabelecido que:

• O presidente não pode processar ninguém, mas pode ser processado por qualquer cidadão.

• O presidente é um servo do povo e, portanto, deve aos cidadãos obediência litúrgica e hierárquica.

• O mandato presidencial é uma missão constitucional a que um dos cidadãos do país se submete muitas vezes a contragosto e em prejuízo de suas atividades privadas. Thomas Jefferson, o terceiro presidente dos Estados Unidos, disse: "Um homem honesto não sente prazer no exercício do poder sobre seus iguais".

• Quando deixa o comando do governo e volta a ser um cidadão comum, o presidente é promovido a povo.

São lições que precisam ser lembradas a Lula, que tem amigos como o ditador cubano Fidel Castro, que há meio século recusa sua promoção a povo, e o venezuelano Hugo Chávez, que pretende adiar a mesma promoção pelas próximas duas décadas. Além disso, cercado de bajuladores, Lula acabou convencido de que é um "líder", um "guia", enfim, alguém superior aos cidadãos comuns. Nada menos republicano. Nada menos democrático.

 
 
 
 
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