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André
Petry
De tucano a avestruz
"Serra tem 63% dos votos para
governador e, quando o estado entra
em convulsão, cadê Serra? Cadê?"
Em julho do ano passado, quando
quatro explosões terroristas deixaram 56 mortos em Londres,
Tony Blair interrompeu uma reunião do G8 na Escócia
e voltou imediatamente à capital inglesa, onde fez um pronunciamento
solidarizando-se com os familiares das vítimas. A rainha
visitou o Royal London Hospital, onde alguns dos 700 feridos estavam
internados. Em Madri, os atentados terroristas de março de
2004 deixaram 191 mortos, houve exploração política
indecente do episódio, mas ainda assim as autoridades não
perderam a noção de solidariedade: o governo decretou
três dias de luto e o rei falou ao país agradecendo
aos que ajudaram a socorrer as vítimas. Em São Paulo,
uma dramática onda de atentados do crime organizado resulta
em mais de 150 mortos e o que fazem nossos governantes? Escondem-se.
O presidente Lula passou o domingo
da conflagração no recesso do lar em São Bernardo,
quietinho. Não fez um pronunciamento ao país, ou aos
paulistas, para demonstrar coesão e firmeza, para tranqüilizar
a cidade e o estado onde construiu sua vida sindical e política.
Os tucanos fizeram ainda pior. O ex-governador Geraldo Alckmin,
que passou os últimos doze anos no governo paulista, tentou
de tudo para distanciar-se da tragédia. Não apareceu
ao lado do sucessor, Cláudio Lembo, para transmitir unidade,
coragem, altivez. Não deu uma coletiva para solidarizar-se
com os paulistas, não lançou uma nota de repúdio
ao crime e de conforto aos familiares das vítimas. Aparecer
no enterro de um policial assassinado para dar condolências
aos familiares, num ato de civilidade e respeito? Nem pensar. Alckmin
passou a semana esgueirando-se pelas bordas da tragédia.
Na segunda-feira, o condomínio do seu escritório político
em São Paulo fechou às 4h30 da tarde por causa da
violência. Alckmin estava no escritório, escondidinho.
E o ex-presidente Fernando Henrique
Cardoso, que já foi candidato a prefeito de São Paulo,
fez sua carreira política e acadêmica em São
Paulo, ganhou duas eleições presidenciais em São
Paulo, o que fez? Estava em Nova York, onde deu uma entrevista sem
sinal de indignação, luto ou solidariedade
e sentou-se à mesa com outros dois tucanos emplumados, Aécio
Neves e Tasso Jereissati, que estavam de passagem por Nova York.
Para quê? "Para jogar conversa fora", explicou o ex-presidente.
Ninguém fez pior do que
José Serra, que acaba de deixar o comando da prefeitura paulistana
para concorrer ao governo de São Paulo. Serra tem 63% das
intenções de voto para governador, está virtualmente
eleito e, quando o estado que deseja governar entra em convulsão,
cadê Serra? Cadê? Viajou para Nova York? Foi passar
uma semana com o filho na Itália? Sua assessoria informa
que ele foi mesmo para Nova York, descansar. Pois, de seu descanso,
Serra não deu uma única palavra de conforto aos paulistas,
nem fez um único gesto de solidariedade. Nada. Sumiu do mapa
e dos holofotes. Lembo, o governador, diz que Serra não lhe
deu sequer um telefonema...
Pois é. Nossas autoridades,
com medo de ser responsabilizadas pelo triunfo da barbárie
e perder uns votinhos, tiveram um comportamento que não se
pode chamar de mesquinho. É covarde mesmo.
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