Edição 1 650 -24/5/2000

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Sempre jovem

Frank Capra, o diretor de filmes
que não envelhecem

Isabela Boscov

Imagine encontrar uma garrafa de champanhe aberta há décadas e descobrir que ela não perdeu as borbulhas. Pois é o caso da comédia Aconteceu Naquela Noite – lançada em 1934, ela continua efervescente. É uma façanha pela sua idade e pelo fato de que seu argumento foi imitado centenas de vezes: jovem mimada conhece sujeito rude. A irritação é mútua. Logo estarão caindo de amores um pelo outro. É verdade que Clark Gable e Claudette Colbert formam um casal daqueles que soltam faíscas. Mas o gênio por trás dessa fita é mesmo o siciliano Frank Capra, um dos mais inspirados diretores da velha Hollywood. Alguns de seus clássicos agora podem ser conferidos em cópias restauradas e lançadas em DVD. Aconteceu Naquela Noite e Horizonte Perdido já estavam disponíveis. Acabam de somar-se a eles O Galante Mr. Deeds e A Mulher Faz o Homem.

Eles compõem um bom resumo dos atributos que tornaram Capra tão popular, a ponto de, com seus sucessos, pôr a Columbia no primeiro time dos estúdios. Suas comédias sempre tinham uma pitada de drama, e vice-versa. Por mais corrupção que houvesse no mundo, o bem triunfava. Observador, retratava tipos comuns com uma fidelidade que até hoje convence. Também suas mocinhas falantes e despachadas continuam atuais. O diretor sabia ainda combinar sentimentalismo e marotice. Acima de tudo, porém, Capra estava para o cinema como Norman Rockwell para a ilustração: seu negócio era o sonho americano. Como este nunca saiu de moda (e como o diretor era um virtuose do entretenimento), quase todos os seus filmes sobrevivem com facilidade a uma revisão.

O diretor também escolhia bem seus atores. Gary Cooper está irresistível como o caipira que herda uma fortuna em Mr. Deeds. Por sua vez, James Stewart encarna o bom-mocismo na medida justa em A Mulher Faz o Homem, em que é feito senador por ser tão ingênuo que nunca perceberia as maracutaias dos colegas. Completava a receita um efeito especial: o otimismo. Um artigo que, na América triste e empobrecida da Depressão, só estava em oferta no cinema de Capra.