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Edição
1 650 -24/5/2000
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No cinema, uma arte que imita a vida, a cena
já não causa espanto algum. Sexagenários
conquistam garotas quarenta anos mais jovens (Sean Connery,
68, e Catherine Zeta-Jones, 29, em A Armadilha).
Casais para lá de maduros se apaixonam, se beijam,
se despem e vão para a cama juntos (Clint Eastwood,
65, e Meryl Streep, 45, em As Pontes de Madison).
Mulher quarentona esbanja sensualidade e ardor diante de
senhor igualmente madurão (Rene Russo, 45, e Pierce
Brosnan, 46, em Thomas Crown A Arte do
Crime). Cada um desempenha seu papel como se fosse a
coisa mais natural do mundo, e o público aplaude
porque já descobriu na vida prática que é
exatamente o que está acontecendo. Homens e mulheres
na faixa dos 40 aos 60 anos mantêm atualmente uma
vida sexual muito mais ativa do que a que tinham seus pais
e avós na mesma idade.
Parceiros mais jovens A mudança de comportamento não atinge todo mundo, claro, até porque quem vira os 40 e quer continuar ativo e bem disposto precisa ter acesso a muita informação e dispor de um extra na conta bancária. Mesmo assim, ela abrange boa parte dos mais de 19 milhões de brasileiros que têm entre 40 e 59 anos. Um bom indício é a contabilidade dos casamentos de homens maduros com menininhas e de senhoras com garotões. Dados recém-tabulados pelo setor de registro civil do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em que compara os anos de 1978 e 1996, mostram que no período o número de casamentos de homens e mulheres de 40 a 59 anos com jovens de 20 a 29 anos duplicou. Entre os homens, o aumento de 4.239 para 7.483 uniões é significativo, mas não chega a surpreender. Mais espantoso foi o avanço entre as mulheres, de 503 para 1.431 uniões oficiais, num universo em que a atividade sexual entre gente acima de 40 não passa pelo cartório na grande maioria dos casos. Além disso, as mulheres ainda se envergonham de casar de papel passado com um parceiro muito mais jovem. Preferem ficar no relacionamento não oficializado pelo escrivão. A produtora paulista Márcia Marino, 44 anos, casou-se pela primeira vez com um homem mais velho. Durou cinco anos. Casou-se pela segunda vez com um rapaz nove anos mais jovem. Ficaram quinze juntos. Desde que se separou, só namora gente da idade de seu filho mais velho, de 23 anos. "Como são poucos os homens disponíveis da minha idade, acabo ficando com os moços, que têm pique para me acompanhar tanto na cama como fora dela", diz Márcia. Como muitas mulheres de sua idade, ela é mais liberada, mais segura e mais capaz de sentir prazer na atividade sexual que a geração anterior à sua. No entanto, sente falta de um parceiro estável os homens de sua faixa etária, em geral, ou fogem de compromisso ou não se interessam por mulheres acima dos 25. "Gostaria de encontrar alguém mais velho que me entendesse, tivesse a minha cabeça", admite ela. Milagre e perigo Driblar o peso da idade
no desempenho sexual é batalha diuturna, que exige
empenho e dedicação. Dificuldade de ereção,
ejaculação precoce, diminuição
da libido, tudo triplica com o passar dos anos. Pesquisa
feita com 1.082 homens entre
1998 e 1999 pela Fundação Oswaldo Cruz, de
Salvador, detectou algum grau de dificuldade de manter o
pênis ereto na relação sexual em 40%
dos entrevistados de 40 a 59 anos. Isso acontece porque,
com o tempo, o corpo cavernoso do pênis fica mais
flácido, o que dificulta a entrada do sangue, que
possibilita a ereção. Também atrapalham
as doenças cardiovasculares e neurológicas,
o fumo e tudo o mais que possa provocar entupimento de artérias.
Sem falar no lado psicológico. "Qualquer problema
que abale a autoconfiança do homem também
pode levar à impotência", afirma o urologista
Celso Gromatzky, professor de medicina da Universidade de
São Paulo (USP). Todos esses maus espíritos,
no entanto, foram em boa parte exorcizados em 1998 com o
advento do Viagra, um comprimido que, tomado uma hora antes
da relação, garante a ereção
motivada pelo desejo sexual. Um efeito colateral do Viagra
foi demonstrar a extensão da preocupação
dos homens com o desempenho sexual: a cada ano, são
consumidos no mundo 130 milhões de pílulas
azuis sem falar nas concorrentes, que não
param de surgir, cada qual mais rápida e eficiente
que a outra. "Com os cabelos grisalhos, mais gordo e com
menos vigor físico, o homem fica inseguro, e isso
afeta sua performance. É esse grupo que consome Viagra
e é para ele que melhor se aplica o remédio",
atesta o médico Miguel Srougi, professor de urologia
da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
Qualidade x quantidade A testosterona, com
sua capacidade de aumentar a libido, também é
popular entre as mulheres. "Embora não seja relevante
no funcionamento sexual feminino, esse hormônio estimula
o aparecimento do desejo", explica Eduardo Tomioka, professor
de ginecologia da USP. "Se a mulher não está
feliz com sua vida sexual, sente falta de disposição
e vontade, ele pode ajudar", diz. A testosterona, no caso,
é uma espécie de chantilly no esquema de reposição
hormonal a que a mulher de hoje se submete para se manter
rejuvenescida e sexualmente bem disposta depois dos 40,
45 anos. Nessa idade, começa a diminuir o nível
de estrógeno, um dos hormônios femininos. E
tudo, por assim dizer, desaba. A pele perde o frescor e
os músculos relaxam. Quando o estoque de estrógeno
diminui, na menopausa, as paredes vaginais perdem a elasticidade,
a lubrificação fica prejudicada e a penetração
torna-se mais difícil e dolorida. Por muito tempo
foi assim e pronto. Agora, as senhoras espertas ingerem
estrógeno sintético e no mínimo adiam
por vários anos a chegada dos sintomas. Os benefícios
da reposição hormonal são conhecidos
desde os anos 50, mas só há uma década
o Congresso Mundial de Ginecologia e Obstetrícia
classificou o método como razoavelmente seguro. Ainda
se discute até que ponto a reposição
artificial de hormônios pode facilitar o surgimento
de câncer de mama e doenças cardiovasculares,
mas quem ouve falar de seus benefícios em geral decide
correr o risco. "Em meu consultório todas fazem",
atesta o ginecologista Tomioka.
Mais maduros, mais prazer Engana-se, no entanto,
quem acha que, nessa situação ideal
bem de vida, bem-cuidado, estimulado para o sexo ,
basta estalar os dedos que logo aparece um parceiro. O físico
pode estar o.k., porém, como sempre, perseverar é
preciso. A educadora paulistana Penha Lopes, 56 anos, está
casada há 37, tem três filhos e um neto. Durante
anos, teve uma relação sexual convencional
com o marido. Quando ambos chegaram aos 40, começaram
a buscar novidades. "Íamos ao motel, assistíamos
a vídeos e fazíamos um sexo bem mais prazeroso",
lembra ela. Elson, o marido, não acompanhou seu passo,
e eles se separaram, mas reataram depois de quatro anos.
"É muito fácil ser engolido pelo papel de
mãe e avó. A idade diminui o desejo, mas não
é nem de longe o fim da linha. Para manter o desejo,
um precisa estar sempre estimulando o outro", ensina Penha.
Cirurgias e disfarces Com a mudança
no estilo de vida dos quarentões, o número
de óbitos por doenças coronarianas nesse grupo
caiu 50% desde 1970. As mortes por câncer diminuíram
um terço. É claro que um casal de cinqüentões
nunca terá a mesma disposição dos tempos
da lua-de-mel. A partir dos 20 anos, perde-se massa muscular,
e o metabolismo fica mais lento. Ingerindo o mesmo número
de calorias, todo mundo ganha 4 quilos por década
depois dos 30 anos. A vista funciona mal, os dentes ficam
manchados. Antigamente, tudo isso ficava ali, à vista
de jovens e velhos. Hoje, disfarça-se com bastante
ginástica, cremes, plásticas e vitaminas.
O ronco é resolvido com cirurgia; a calvície
se previne com um comprimido diário.
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