Mande-me sua lista
De
quem vamos falar mal hoje? Acho que falar mal dos outros
é a atividade intelectual mais estimulante que existe.
Eu passaria a vida falando mal. Dos inimigos, publicamente;
dos amigos, só pelas costas. Nos últimos tempos,
porém, tenho tido grandes dificuldades para encontrar
novos alvos. Todos me parecem óbvios demais. Alvos
parados. E disparar contra alvos parados é extremamente
sem graça. Por isso, estou começando a aceitar
encomendas. Se você quiser que eu fale mal de alguém,
se você quiser acertar as contas com velhos desafetos,
mande uma cartinha ou um e-mail com seu singelo pedido para
a redação de VEJA. Estou à sua completa
disposição. Serei seu pistoleiro privado.
Falar mal dos outros, além de divertido, também
pode ser muito rentável. Um dos casos mais célebres
é o do satirista italiano Pietro Aretino (1492-1556).
Ele era de uma mordacidade tal que os aristocratas da época
se viam obrigados a enchê-lo de presentes a fim de
evitar seus sonetos injuriosos. Dizem que ele se tornou
riquíssimo dessa maneira. Pode ficar tranqüilo,
pois não pretendo lucrar com minhas difamações.
Em primeiro lugar, porque não possuo o talento destrutivo
de Aretino e você terá de se conformar com
deboches bem mais modestos. Em segundo lugar, porque só
falo mal de alguém quando sinto que isso pode me
trazer mais danos do que benefícios. É o único
jeito de encarar esse tipo de serviço sujo: fazendo
de conta que há algo de heróico nele, que
tenho algo concreto a perder.
Por esse motivo, concordo em falar mal apenas de personagens
públicos, de gente com tribuna para se defender.
Uma única vez, no começo da minha carreira,
tive a baixeza de falar mal de uma escritora estreante,
e até hoje carrego essa culpa dentro de mim. Se você
quiser que eu fale mal de um parente seu, por exemplo, ou
de um colega de trabalho, lamento muito, mas não
posso satisfazê-lo. De preferência, também
evito falar mal de políticos. Não que eles
não mereçam. Pelo contrário. Talvez
seja a categoria mais abominável que existe. Pior
do que artistas plásticos e cirurgiões plásticos
juntos. Mas todo mundo fala mal de políticos. É
permitido. Ninguém se ofende. Nem os próprios
políticos. De fato, eles costumam colecionar charges
infamantes a seu respeito. Quanto mais charges recebem,
mais felizes ficam. Se ao menos seus eleitores se ofendessem,
a coisa ainda faria algum sentido. Mas eles também
não se ofendem. Faz parte do jogo.
Prefiro falar mal, portanto, de personalidades da cultura,
ou autoridades morais e religiosas, ou vultos da nossa História,
ou figuras que encarnem idéias compartilhadas pela
grande maioria das pessoas. Parece fácil, mas não
é. Outro dia falei mal de um respeitabilíssimo
escritor e, em vez de me confrontar com a reação
indignada dos leitores, recebi uma montanha de elogios.
Foi muito deprimente. Pensei que estivesse sendo provocador,
quando, na verdade, me limitava a reproduzir o que todos
pensavam. Então faça sua lista com cuidado,
escolhendo direito seus antagonistas. Depois, mande-a para
mim. Farei o possível para ridicularizá-los.