Edição 1 650 -24/5/2000

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De quem vamos falar mal hoje? Acho que falar mal dos outros é a atividade intelectual mais estimulante que existe. Eu passaria a vida falando mal. Dos inimigos, publicamente; dos amigos, só pelas costas. Nos últimos tempos, porém, tenho tido grandes dificuldades para encontrar novos alvos. Todos me parecem óbvios demais. Alvos parados. E disparar contra alvos parados é extremamente sem graça. Por isso, estou começando a aceitar encomendas. Se você quiser que eu fale mal de alguém, se você quiser acertar as contas com velhos desafetos, mande uma cartinha ou um e-mail com seu singelo pedido para a redação de VEJA. Estou à sua completa disposição. Serei seu pistoleiro privado.

Falar mal dos outros, além de divertido, também pode ser muito rentável. Um dos casos mais célebres é o do satirista italiano Pietro Aretino (1492-1556). Ele era de uma mordacidade tal que os aristocratas da época se viam obrigados a enchê-lo de presentes a fim de evitar seus sonetos injuriosos. Dizem que ele se tornou riquíssimo dessa maneira. Pode ficar tranqüilo, pois não pretendo lucrar com minhas difamações. Em primeiro lugar, porque não possuo o talento destrutivo de Aretino e você terá de se conformar com deboches bem mais modestos. Em segundo lugar, porque só falo mal de alguém quando sinto que isso pode me trazer mais danos do que benefícios. É o único jeito de encarar esse tipo de serviço sujo: fazendo de conta que há algo de heróico nele, que tenho algo concreto a perder.

Por esse motivo, concordo em falar mal apenas de personagens públicos, de gente com tribuna para se defender. Uma única vez, no começo da minha carreira, tive a baixeza de falar mal de uma escritora estreante, e até hoje carrego essa culpa dentro de mim. Se você quiser que eu fale mal de um parente seu, por exemplo, ou de um colega de trabalho, lamento muito, mas não posso satisfazê-lo. De preferência, também evito falar mal de políticos. Não que eles não mereçam. Pelo contrário. Talvez seja a categoria mais abominável que existe. Pior do que artistas plásticos e cirurgiões plásticos juntos. Mas todo mundo fala mal de políticos. É permitido. Ninguém se ofende. Nem os próprios políticos. De fato, eles costumam colecionar charges infamantes a seu respeito. Quanto mais charges recebem, mais felizes ficam. Se ao menos seus eleitores se ofendessem, a coisa ainda faria algum sentido. Mas eles também não se ofendem. Faz parte do jogo.

Prefiro falar mal, portanto, de personalidades da cultura, ou autoridades morais e religiosas, ou vultos da nossa História, ou figuras que encarnem idéias compartilhadas pela grande maioria das pessoas. Parece fácil, mas não é. Outro dia falei mal de um respeitabilíssimo escritor e, em vez de me confrontar com a reação indignada dos leitores, recebi uma montanha de elogios. Foi muito deprimente. Pensei que estivesse sendo provocador, quando, na verdade, me limitava a reproduzir o que todos pensavam. Então faça sua lista com cuidado, escolhendo direito seus antagonistas. Depois, mande-a para mim. Farei o possível para ridicularizá-los.