"Eles vendem seu patrimônio feito pudim"
Raul Junior
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| Setubal: "Nosso problema é
a mentalidade. Falta visão internacional"
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Banqueiro, ex-prefeito de São Paulo na década
de 70 e chanceler no governo de José Sarney,
Olavo Setubal chega aos 77 anos na condição
de um dos mais autorizados observadores do processo
de transformação na economia brasileira.
Ele conhece por dentro a engrenagem da indústria
nacional. Mantém relações comerciais
e pessoais com os grandes empresários e possui
informações sensíveis sobre a
realidade financeira de uma boa parcela deles. Nesta
entrevista estão algumas de suas opiniões
sobre o empresariado nacional:
Por que as empresas brasileiras têm tanta
dificuldade de crescer e competir com as multinacionais?
Nosso problema é a mentalidade. Eu
fico horrorizado com quem não tem visão
de mundo internacional. Tem um amigo meu que fala:
"Há trinta anos pensamos que somos empresários
e não passamos de quitandeiros". É óbvio.
As escalas no mundo empresarial mudaram. Essa mentalidade
de quitandeiro não leva em conta que uma empresa
pode ser gigantesca para o mercado brasileiro, mas
insignificante comparada a uma multinacional. Aí,
o sujeito acaba engolido.
Por que nem mesmo as grandes empresas nacionais
escapam do canto de sereia do capital estrangeiro?
Os empresários se empolgam com as altas
somas oferecidas pelas multinacionais e acham que
estão fazendo um ótimo negócio,
quando estão vendendo seu patrimônio
feito pudim. Ninguém mais pensa em fazer crescer
a empresa. Outro problema é o endividamento.
Pegar um empréstimo para investimento é
quase assinar a certidão de óbito da
empresa. Por fim, a gestão familiar retrógrada
ainda impera no Brasil. Além da dificuldade
de lidar com o problema da sucessão, existe
uma tendência de cada membro da família
fazer pressão para pegar seu naco e tocar a
vida separadamente.
Mas dentre as estrangeiras, empresas familiares
como a Fiat e a C&A nunca tiveram esse problema.
Qual a diferença?
Mais uma vez, é uma questão de mentalidade.
Veja o caso da Alemanha. Ali, cerca de 90% das empresas
são familiares. Só que lá os
filhos são educados para se virar sozinhos.
Desde cedo sabem que vão ter de se preparar
adequadamente para ter a competência de eventualmente
assumir o negócio. Aqui ocorre o contrário.
Os herdeiros, em vez de estudar, só pensam
em mamar na empresa da família. Além
do fato de que o brasileiro, e eu me incluo, tem muitos
filhos e daí decorre a dificuldade de gestão.
As empresas nacionais em dificuldade elegem dois
vilões para justificar seu estado de penúria:
os gigantes predadores de fora e a instabilidade econômica
do país. Até que ponto isso é
verdade?
Olha, no mundo todo isso acontece. A Mercedes alemã
engoliu a Chrysler, que era uma das jóias da
indústria automobilística dos Estados
Unidos. Nem por isso os empresários americanos
apontaram uma arma para a própria cabeça.
O HSBC comprou o tradicional Crédit Commercial
de France. É a lei do capitalismo. Quem é
forte sobrevive. Mas, de fato, os tempos de instabilidade
econômica ainda produzem reflexos na administração
das empresas. Mesmo com a moeda e a inflação
sob controle, ninguém acredita que a maré
esteja calma. Fica todo mundo esperando acontecer
uma desgraça. Isso faz com que os controladores
tenham sempre uma reserva fora. Em vez de se preocupar
com o crescimento da empresa, ficam preocupados em
quanto vai sobrar para mandar para o exterior.
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