Edição 1 650 -24/5/2000

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"Eles vendem seu patrimônio feito pudim"

Raul Junior
Setubal: "Nosso problema é a mentalidade. Falta visão internacional"


Banqueiro, ex-prefeito de São Paulo na década de 70 e chanceler no governo de José Sarney, Olavo Setubal chega aos 77 anos na condição de um dos mais autorizados observadores do processo de transformação na economia brasileira. Ele conhece por dentro a engrenagem da indústria nacional. Mantém relações comerciais e pessoais com os grandes empresários e possui informações sensíveis sobre a realidade financeira de uma boa parcela deles. Nesta entrevista estão algumas de suas opiniões sobre o empresariado nacional:

Por que as empresas brasileiras têm tanta dificuldade de crescer e competir com as multinacionais?
Nosso problema é a mentalidade. Eu fico horrorizado com quem não tem visão de mundo internacional. Tem um amigo meu que fala: "Há trinta anos pensamos que somos empresários e não passamos de quitandeiros". É óbvio. As escalas no mundo empresarial mudaram. Essa mentalidade de quitandeiro não leva em conta que uma empresa pode ser gigantesca para o mercado brasileiro, mas insignificante comparada a uma multinacional. Aí, o sujeito acaba engolido.

Por que nem mesmo as grandes empresas nacionais escapam do canto de sereia do capital estrangeiro?
Os empresários se empolgam com as altas somas oferecidas pelas multinacionais e acham que estão fazendo um ótimo negócio, quando estão vendendo seu patrimônio feito pudim. Ninguém mais pensa em fazer crescer a empresa. Outro problema é o endividamento. Pegar um empréstimo para investimento é quase assinar a certidão de óbito da empresa. Por fim, a gestão familiar retrógrada ainda impera no Brasil. Além da dificuldade de lidar com o problema da sucessão, existe uma tendência de cada membro da família fazer pressão para pegar seu naco e tocar a vida separadamente.

Mas dentre as estrangeiras, empresas familiares como a Fiat e a C&A nunca tiveram esse problema. Qual a diferença?
Mais uma vez, é uma questão de mentalidade. Veja o caso da Alemanha. Ali, cerca de 90% das empresas são familiares. Só que lá os filhos são educados para se virar sozinhos. Desde cedo sabem que vão ter de se preparar adequadamente para ter a competência de eventualmente assumir o negócio. Aqui ocorre o contrário. Os herdeiros, em vez de estudar, só pensam em mamar na empresa da família. Além do fato de que o brasileiro, e eu me incluo, tem muitos filhos e daí decorre a dificuldade de gestão.

As empresas nacionais em dificuldade elegem dois vilões para justificar seu estado de penúria: os gigantes predadores de fora e a instabilidade econômica do país. Até que ponto isso é verdade?
Olha, no mundo todo isso acontece. A Mercedes alemã engoliu a Chrysler, que era uma das jóias da indústria automobilística dos Estados Unidos. Nem por isso os empresários americanos apontaram uma arma para a própria cabeça. O HSBC comprou o tradicional Crédit Commercial de France. É a lei do capitalismo. Quem é forte sobrevive. Mas, de fato, os tempos de instabilidade econômica ainda produzem reflexos na administração das empresas. Mesmo com a moeda e a inflação sob controle, ninguém acredita que a maré esteja calma. Fica todo mundo esperando acontecer uma desgraça. Isso faz com que os controladores tenham sempre uma reserva fora. Em vez de se preocupar com o crescimento da empresa, ficam preocupados em quanto vai sobrar para mandar para o exterior.

 

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