Mr. Músculos
Aos 52 anos e operado do coração,
o maior
ator de Hollywood (em envergadura) não
pensa em parar de fazer filmes de ação
Wladimir Weltman
Arthur Grace
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"Não faria um filme de arte. Isso poderia
ser interpretado como sinal de decadência, de
que topei trabalhar por pouco dinheiro" |
Três anos atrás, Arnold Schwarzenegger
foi submetido a uma cirurgia para trocar uma válvula
defeituosa do coração. Muito se especulou
se ele poderia voltar a estrelar aquelas fitas de aventura
que fizeram dele um dos astros mais bem pagos de Hollywood,
com cachês acima dos 20 milhões de dólares.
Schwarzenegger, no entanto, provou que uma vida inteira
de culto à forma física rende bons dividendos.
Há poucos meses, o ex-mister Universo protagonizou
um detetive que luta contra o demônio em Fim dos
Dias. No momento, está rodando The 6th
Day, sobre um sujeito que é clonado ilegalmente
e tem de fugir dos malfeitores que desejam matá-lo.
Em suma, ele não quer deixar de ser herói
de ação. "Ainda sou capaz de correr como na
juventude", orgulha-se. Há mais de trinta anos radicado
nos Estados Unidos, o astro também continua pensando
com carinho na possibilidade de se candidatar a um cargo
político. Detalhe: republicano convicto, ele é
casado com uma representante do clã democrata dos
Kennedy, a jornalista Maria Shriver, com quem tem quatro
filhos.
Se há algo que irrita o astro nascido
na pequena cidade austríaca de Graz são as
freqüentes insinuações de que ele é
simpatizante do nazismo. Schwarzenegger refuta peremptoriamente
esse tipo de acusação e processa os incautos
que porventura a façam. Já ganhou vários
desses processos. Mas confessa que gosta de educar os filhos
com a disciplina típica de seu país. Mais:
faz questão de que, desde a mais tenra infância,
eles se habituem a esquiar na neve. Schwarzenegger falou
a VEJA no set de filmagens de The 6th Day,
em Vancouver, no Canadá.
Veja Aos 52 anos, ainda é
possível interpretar bem heróis de filmes
de ação? Não estaria na hora de passar
o bastão a atores jovens?
Schwarzenegger Antes de mais nada, acho que não
cabe a mim passar o bastão adiante. É o público
que deve decidir se ainda sirvo ou não para fazer
esses filmes. Até agora não ouvi queixas.
Na verdade, sinto-me tão ativo quanto na juventude.
Exercito-me duas vezes por dia. Sou capaz de correr na mesma
velocidade de antes e, se preciso, tenho energia para ficar
acordado a noite inteira ou para saltar de pára-quedas.
Veja Como o senhor vê o
público desses filmes?
Schwarzenegger Acho que, na década de
80, a demanda pelo gênero refletiu uma grande mudança
ocorrida na sociedade. A emancipação feminina
fez com que os homens se sentissem alijados do lugar que
ocupavam. Nesse contexto sócio-psicológico,
assistir a filmes de ação foi um dos modos
que eles encontraram para viver a fantasia do macho forte
e controlador. Nos últimos anos, porém, a
situação mudou. Como os homens perceberam
que nada lhes foi tirado, e sim acrescentado, os filmes
de ação passaram a contar com heróis
mais sensíveis, menos descerebrados. Já não
há mais necessidade de personagens que encarnem tão
fielmente o estereótipo machista. Enfim, havia um
vácuo e nós o preenchíamos. Assim como
acontece na política, é preciso sempre caminhar
junto com o público.
Veja O senhor faria um filme
de arte?
Schwarzenegger Acho que não. Isso poderia
ser interpretado como sinal de decadência, de que
topei trabalhar por pouco dinheiro porque não tinha
proposta melhor.
Veja Há um debate em curso
nos Estados Unidos sobre a responsabilidade do cinema na
violência social. O que pensa a respeito?
Schwarzenegger Quando há episódios
horríveis, como o de jovens que assassinam outros
nas escolas, a primeira providência dos políticos
americanos é pôr a culpa em Hollywood. Isso
é estúpido, porque sugere que alguém
sabe por que essas tragédias acontecem. Só
que ninguém tem essa resposta. É preciso pensar
em tudo o que está errado antes de sair por aí
condenando o cinema. Os pais têm dificuldade de transmitir
bons valores a seus filhos. Os políticos mostram
incompetência para criar programas que mantenham as
crianças ocupadas e criem um ambiente saudável
nas escolas. Vendem-se armas indiscriminadamente. Os pais
precisam ficar muito tempo fora de casa para ganhar dinheiro.
A lista dos problemas é enorme. Nós, da indústria
do entretenimento, deveríamos conter nossos abusos,
sim. Mas o governo também tem de dar duro para que
a educação seja uma prioridade.
Veja O senhor fala como um político.
Pretende se candidatar a algum cargo?
Schwarzenegger Só quando eu me cansar
do cinema.
Veja Quais são as chances
de que isso venha a ocorrer?
Schwarzenegger Não sei. Já aconteceu
com o fisiculturismo. Eu estava no auge da minha carreira
como atleta e, de repente, quis parar. As reviravoltas na
minha vida não são planejadas.
Veja Os críticos do sistema
americano costumam dizer que Washington é uma extensão
de Hollywood. Ambas seriam fábricas de ilusões.
Schwarzenegger Bem, só o que posso dizer
a respeito é que Hollywood e Washington sempre tiveram
um caso de amor. Hollywood gosta do poder e da possibilidade
de legitimação que a política oferece.
Washington gosta da indústria do entretenimento pelo
que ela representa e pelo dinheiro que gera.
Veja Muitos astros reclamam do
tratamento que a imprensa lhes dá. O senhor se incomoda
com o que sai a seu respeito nos jornais e revistas?
Schwarzenegger É óbvio que todos
nós adoramos ler coisas boas sobre nós mesmos
e detestamos quando sai algo negativo. Por isso mesmo,
seria a última pessoa a dizer que os jornalistas
não prestam porque publicaram essa ou aquela notícia,
ou porque disseram que meu filme é ruim. É
preciso aceitar as críticas. Se você não
gosta de calor, saia da cozinha. Por outro lado, há
um tipo de jornalismo que vive de procurar e explorar o
que há de pior na vida de gente famosa. Nesses casos,
em que se publicam afirmações falaciosas e
destrutivas, é preciso recorrer à Justiça
ou exigir retratação. Por exemplo: um jornal
disse que eu não havia me recuperado bem da cirurgia
cardíaca a que fui submetido. Que mal conseguia andar
depois da operação, imagine só. Mesmo
sendo estampada numa publicação não
lá muito conceituada, é o tipo de manchete
que prejudica a minha carreira. Escrevi, então, ao
editor do jornal, pedindo que ele desmentisse a nota.
Veja E quanto às afirmações
de que o senhor é um simpatizante do nazismo?
Schwarzenegger É incrível: me acusam
de ser nazista só porque nasci na Áustria.
Sou muito sensível a respeito desse tema, inclusive
porque vários de meus amigos são judeus. Evidentemente,
não sou nazista. Desprezo tudo o que esse regime
representou. Por seis vezes já processei publicações
que afirmaram que eu era simpático ao nazismo
e em todas elas ganhei a causa.
Veja O que o senhor pensa do
líder ultradireitista Joerg Haider, cujo partido
chegou ao poder na Áustria?
Schwarzenegger É uma tristeza que a Áustria
seja execrada internacionalmente por causa de um homem.
Trabalha-se tanto para dar a um país uma boa reputação
e, de uma hora para outra, surge um sujeito com um discurso
estúpido e põe tudo a perder.
Veja A cirurgia que o senhor
sofreu em 1997 alterou de algum modo a sua maneira de ser?
Schwarzenegger Não, não modificou
em nada. Não tive aquelas visões estranhas
que os pacientes descrevem, de nuvens e luzes. Ou talvez
seja mais certo dizer que, se as tive, não me lembro.
Tudo o que fica na memória é a sensação
de cair no sono e depois acordar com um sujeito debruçado
sobre você dizendo: "Bem, agora vou puxar este tubo
de dentro da sua garganta". Isso e o fato de que, na primeira
semana de recuperação, a comida tem um sabor
horrível.
Veja O senhor não passou
a dar mais valor à vida depois dessa experiência?
Schwarzenegger Na verdade, acho que ninguém
pensa no valor da própria vida o tempo todo, a não
ser que digam que só lhe restam seis meses. No meu
caso, logo que saí da cirurgia já estava me
sentindo ótimo e estava me sentindo ótimo
antes de passar por ela também. Até que os
médicos recomendassem a troca de uma válvula
cardíaca, por causa de um defeito congênito,
eu pensava que tinha apenas um sopro no coração.
Daqui a vinte anos provavelmente terei de substituir essa
válvula por outra e sempre há aquela
pequena possibilidade de não sair vivo da mesa de
operação. O que me consola é saber
que, se o pior acontecer, não vou sofrer. Simplesmente
não irei acordar.
Veja Em seu novo filme, The
6th Day, seu personagem descobre que foi clonado.
Qual é a sua opinião a respeito de um tema
tão controvertido quanto a clonagem de seres humanos?
Schwarzenegger Acho que a clonagem apresenta
possibilidades maravilhosas. Imagine só, multiplicar
aos milhares animais em via de extinção! Quanto
à clonagem humana, é um assunto delicado.
Quando a técnica estiver inteiramente dominada, o
que deve ocorrer num futuro não muito longínquo,
é preciso tomar cuidado para que não seja
utilizada por psicopatas. Ao contrário do personagem
que interpreto, contudo, não tenho objeções
de cunho religioso à idéia de clonar seres
humanos. O curioso é que, por saber que eu estava
trabalhando num filme sobre clonagem, chegaram a me procurar
para investir num experimento desses. Recusei, é
claro.
Veja O senhor recebe muitas
ofertas desse tipo?
Schwarzenegger Muitas. Já recebi propostas
para entrar nos negócios mais malucos que se possam
conceber. Acho que isso acontece porque sou conhecido como
um sujeito que administra os próprios ganhos e gosta
de faturar um dólar ou outro, ao contrário
de outros atores, que entregam tudo a um agente financeiro
e depois descobrem que o dinheiro sumiu. É engraçado:
às vezes alguém vem se gabar de que, desde
que contratou esse ou aquele investidor, está há
cinco anos sem pagar impostos. "Claro", digo, "é
porque ele roubou o seu dinheiro!" Adoro pagar impostos.
Parto do pressuposto de que, se tenho de pagar mais, é
porque ganhei mais.
Veja O senhor tem fama de ser
um bom comprador de obras de arte.
Schwarzenegger Não me arrependo de nem
um dólar que tenha gasto em arte ou em imóveis.
Tenho um quadro que retrata Russell Means, famoso líder
indígena americano, pelo qual paguei 28.000
dólares. Hoje, ele vale milhões. Arte é
um investimento imbatível.
Veja Que grandes artistas podem
ser encontrados nas paredes de sua casa?
Schwarzenegger Não só da minha
casa, mas também do meu escritório. Tenho
pinturas de Andy Warhol e óleos e litografias de
Marc Chagall e Claude Monet. Eram peças caras quando
as comprei, mas hoje não têm preço.
E imaginar que as pessoas achavam que eu era louco por gastar
meu dinheiro com elas! Também tenho muitos quadros
e esculturas de Anthony Quinn, o ator. Uma de minhas telas
favoritas é a de uma mãe com seu filho, com
que presenteei minha mulher quando nossa segunda filha nasceu.
A cada filho que tivemos, dei a Maria uma obra com esse
tema.
Veja Há pouco tempo o
senhor teve seu quarto filho. O que mais o encanta em ser
pai?
Schwarzenegger Pessoas que gostam de negócios
se entusiasmam quando vêem um dólar que investiram
multiplicar-se. Pois bem, o cérebro de uma criança
é o maior investimento que se pode fazer. Uma das
coisas que mais me divertem é ver meu filho, de 6
anos, dizer coisas da maneira que eu as diria. Também
gosto de contar à minha filha sobre a Áustria,
para que ela possa fazer trabalhos de escola a respeito
do lugar em que seu pai nasceu.
Veja Apesar de viver há
mais de trinta anos nos Estados Unidos, o senhor ainda se
sente austríaco?
Schwarzenegger Sim. A cultura e os costumes austríacos
estão entranhados em mim.
Veja O senhor educa seus filhos
do modo austríaco ou do americano?
Schwarzenegger Faço o possível
para incutir neles um pouco da cultura do meu país.
A disciplina em minha casa é austríaca e também
algumas das comidas. Freqüentemente os levo em viagem
à Áustria. Muitas vezes conversamos em alemão.
Faço questão, ainda, de que eles aprendam
a esquiar muito bem. Você sabia que, aos 2 anos, uma
criança já é capaz de se equilibrar
sobre um par de esquis?
Veja O senhor é um pai
severo?
Schwarzenegger Há dois anos tento convencer
minha filha a se livrar de uma urna com as cinzas de seu
cavalo, que ela mantém na garagem de casa em homenagem
ao animal de que tanto gostava. Se alguns anos atrás
me dissessem que eu toleraria algo assim, daria gargalhadas.
Veja Se fosse possível,
com que ator do passado o senhor gostaria de contracenar?
Schwarzenegger Com John Wayne. Tive sorte em
poder fazer filmes com muitos dos meus ídolos de
juventude, como Kirk Douglas e Charlton Heston. Mas John
Wayne é um herói para mim. Seria maravilhoso
fazer um faroeste com ele.
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