Choques de capitalismo
"Parece que vamos na direção
de um
hipercapitalismo, no qual o mercado é
turbinado pela internet"
Ilustração Ale Setti
 |
Em 1989, o então candidato à Presidência
Mário Covas fez um pronunciamento que poderia estar,
seguramente, entre os melhores momentos do Parlamento. O conteúdo
talvez não fosse tão consagrador, especialmente
se analisado tendo-se em vista o que ocorreu nos anos que
se seguiram. Mas criou-se aí uma expressão perfeita,
uma síntese bem mais ampla e poderosa do que era percebido
até pelo autor. "O Brasil precisa de um choque de capitalismo",
ele disse, e nem foi preciso entender o resto do discurso.
Pena que, aos olhos do eleitor, foi o candidato Collor
que melhor capturou o desejo da sociedade de ver um país
com menos privilégios e mais mercados, ou seja, um
país com mais mecanismos impessoais de definição
de vencedores no jogo econômico. "Marajás"
e "carroças" eram metáforas poderosas para
a apropriação privada de recursos públicos,
fiscais e regulatórios. Foram conceitos que encantaram
uma população cansada de desenvolvimentismo
inflacionista (e concentrador), de "política industrial"
para os amiguinhos do poder e de fechadura econômica
para acobertar a incompetência empresarial.
Pena (de novo) que fosse um engodo: era apenas outro político
com intuição privilegiada que vislumbrava
os anseios da nação, mas tinha sua agenda
pessoal e, como ficaria claro a seguir, uma quadrilha em
torno de si.
Assim sendo, o primeiro "choque de capitalismo" nada mais
foi que uma frase de efeito, que até gerou planos
por parte da assessoria do candidato do PSDB, o qual, infelizmente,
pouco se utilizou dessas idéias em sua campanha.
Os planos foram para a gaveta, e logo em seguida foram insistentemente
procurados pela equipe do candidato Collor, que vencera
prometendo coisas para as quais não tinha planos
de nenhuma espécie, como a abertura e uma nova política
industrial e de comércio exterior.
O segundo "choque de capitalismo", o do governo Collor,
foi como um vendaval asiático: aplicou-se avant
la lettre o chamado "capitalismo de quadrilhas", que,
como depois aprenderíamos, era a essência de
diversos modelos do Sudeste Asiático baseados em
confusão entre o público e o privado, corrupção
deslavada e um tempero retórico moderninho.
Mas, como o Brasil é um país abençoado,
algum progresso acabou tendo lugar em matéria de
abertura, desregulamentação e privatização.
As mudanças estacionaram durante a presidência
Itamar Franco até o Plano Real, que nos trouxe, finalmente,
na terceira tentativa, um já bastante atrasado choque
de capitalismo de verdade.
O grau de abertura na indústria saiu de 4,5% em
1989 para cerca de 20% em 1998, e, a partir de 1994, empresas
responsáveis pela produção de cerca
de 3% do PIB foram privatizadas, gerando quase 80 bilhões
de dólares em receitas. A estabilização
se consolidou, a produtividade tem crescido como nunca e
o investimento direto estrangeiro voltou com força
total. Foram quatro anos do mais puro choque de capitalismo,
feito como nenhum de seus proponentes anteriores poderia
imaginar.
A má notícia foi descobrir que o preço
para esses avanços era encontrar termos de convivência
com um novo fenômeno: a globalização.
Sem dúvida, nos últimos dez ou quinze anos,
não houve outro tema que consumisse mais tinta, e
mais gás lacrimogêneo. O aprendizado tem sido
intenso, e a conclusão a que se chegou, a partir
da experiência das trinta e tantas economias "em transição"
para o capitalismo e das emergentes asiáticas e latino-americanas,
é que as economias de mercado sem dúvidas
vocacionais e com instituições democráticas
tendem a se beneficiar da globalização
enquanto os regimes "alternativos", "hesitantes" ou "neodesenvolvimentistas"
passaram a ser vistos assim como uísque paraguaio.
O sistema encontrou uma punição exemplar para
quem não se enquadra nos consensos internacionais
de política econômica: a indiferença.
O Brasil vinha se acostumando com a globalização,
mas para economistas "alternativos", ou nacionalistas que
se recusam a mexer em computador, o "terceiro choque" e
a globalização ainda são uma enorme
fonte de irritação. E justamente neste momento
de acomodação, depois de uma pirueta malsucedida
na direção de um "modelo desenvolvimentista",
um "quarto choque" parece desenhar-se: os efeitos das novas
tecnologias de informação e da internet em
particular. Tudo parece indicar que vamos na direção
de um hipercapitalismo, no qual a instituição
central do sistema, o mercado, é reinventada e turbinada
pela internet. A competição selvagem e sangrenta,
a soberania absoluta do consumidor, a meritocracia mais
cruel e a ausência do Estado são traços
marcantes da chamada nova economia. Se já havia gente
de mau humor com o "terceiro choque", imaginem então
quando a internet puder ser acessada pela TV, alcançando
99% dos lares brasileiros...