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A Igreja Católica tem como tradição tratar com discrição as denúncias de abusos sexuais em suas fileiras. Como recurso para proteger a imagem da instituição, os casos geralmente são encerrados com reprimendas simbólicas, como a transferência para outra paróquia, ou tratamento psicológico em clínica especializada. Foi dessa forma que a Santa Sé tentou primeiro lidar com a série de escândalos envolvendo padres que atacam sexualmente meninos nos Estados Unidos. O silêncio na alta hierarquia romana passava a mensagem de que o problema era visto como uma excentricidade americana e acabaria por sumir. Nada mais distante da realidade. Há tal quantidade de casos similares surgindo em toda parte do mundo que a pedofilia de batina se tornou o epicentro de uma das maiores crises da Igreja nos tempos modernos. A importância avassaladora da questão pode ser dimensionada pela convocação, por parte do papa João Paulo II, na semana passada, de uma reunião de emergência com todos os cardeais americanos, a primeira em uma década. O encontro a portas fechadas, marcado para durar dois dias a partir desta terça-feira no Vaticano, é o reconhecimento pela alta hierarquia da Igreja de que os escândalos já não podem ser justificados como o comportamento pervertido, mas perfeitamente controlável, de alguns padres. Por sua persistência e amplitude, é um câncer de bom tamanho, que começa a sabotar a autoridade moral, a credibilidade pública e até a saúde financeira da Igreja Católica.
O que é preciso fazer para evitar que sacerdotes se aproveitem
da autoridade conferida pela batina para tirar terrível proveito
da vulnerabilidade de meninos e adolescentes? Devido à fragilidade
física do papa, este não é o melhor momento para
a Igreja lidar com decisões dessa magnitude. Nem está certo
que ele participará da reunião com os cardeais ou se delegará
a tarefa a seu braço direito, o cardeal alemão Joseph Ratzinger,
que tem atuado no lugar do papa em vários assuntos para poupar
o superior. O papa, que está com a resistência física
no limite e já não esconde em público as dores que
o perseguem, é muito criticado por não ter respondido mais
cedo às denúncias de desvios sexuais entre o clero. Parece
que ele só tomou conhecimento de todas as implicações
há duas semanas, durante conversa com dois representantes da Conferência
dos Bispos Católicos dos Estados Unidos. É difícil
saber se João Paulo II quer ouvir o que os cardeais têm a
dizer sobre os escândalos ou se ele deseja explicar como eles devem
lidar com o assunto talvez ambas as coisas. Na cúpula da
Igreja há quem ache importante que também seja discutida
a realidade do homossexualismo no sacerdócio. "A maioria dos casos
de abuso sexual envolve padres com rapazes crescidos, adolescentes", diz
o padre Richard John Neuhaus, editor do First Things, jornal católico
americano. "Em linguagem comum, isso é chamado de homossexualismo."
Fotos AP![]() AMIGO DO PAPA RENUNCIA NA POLÔNIA Os escândalos chegaram até a Polônia, terra natal de João Paulo II. No mês passado, renunciou o arcebispo de Poznan, Juliusz Paetz, acusado de molestar seminaristas. Paetz foi assessor do papa entre 1978 e 1982 |
Que os cardeais tenham sido chamados ao Vaticano em caráter de
urgência para discutir pedofilia no sacerdócio é um
dramático sinal de como as coisas andam ruins. Na última
convocação do gênero, há uma década,
o assunto mais palpitante era como lidar com o casamento de divorciados.
Estarão na reunião onze cardeais americanos oito
deles atuam nos Estados Unidos e três têm cargos em Roma.
O homem sob holofotes é Bernard Law, cardeal de Boston. Ele já
foi o favorito do papa entre os prelados americanos. Hoje é o símbolo
do que há de errado com eles. Em janeiro, quando um certo padre
John Geoghan foi levado a julgamento, tornou-se público que o cardeal
de Boston o tinha transferido de uma paróquia para outra, sempre
que ele se envolvia em novo caso de pedofilia. Geoghan, acusado de estuprar
mais de 130 crianças em trinta anos, foi sentenciado a dez anos
de cadeia pelo crime de ter abusado de um menino de 10 anos. Ele ainda
responde a processo por "assalto indecente" e agressão a outro
garoto, em 1990. O cardeal Law teve de admitir que a arquidiocese havia
torrado 10 milhões de dólares em acordos extrajudiciais
com outras vítimas de Geoghan. Para aplacar o clamor público,
Law entregou uma lista de setenta padres de sua diocese acusados nos últimos
quarenta anos de abusos sexuais contra meninos. Foi quando o país
acordou para o drama da pedofilia na sacristia, gerando uma onda de indignação
que ameaça tragar a Igreja Católica nos Estados Unidos.
Para os católicos, tão chocante quanto o abuso sexual em
si foi a conivência escandalosa da alta hierarquia da Igreja com
os padres flagrados. Há várias explicações
para o fato de a cúpula católica proteger os sacerdotes
nessa situação, nenhuma delas convincente para a opinião
pública. Do ponto de vista doutrinário, a Igreja vê
as ofensas sexuais como um pecado que precisa ser confessado, e não
um crime a ser comunicado à polícia. "O cristianismo acredita
que as pessoas podem redimir-se e ser perdoadas", diz o inglês David
Thompson, professor de história da igreja moderna na Universidade
de Cambridge, na Inglaterra. O descompasso com o mundo externo decorre
do fato de que a sociedade não quer perdão, e sim justiça.
Entende que a condenação dos criminosos é, além
de justa, uma forma de proteger as crianças de novos ataques, dos
acusados ou de outros que ainda estão nas sombras. Nas sacristias,
impera o corporativismo. "Pedir a uma família que denuncie um filho
que usa drogas é pedir muito. Da mesma forma, a Igreja primeiro
vai tentar encaminhá-lo para tratamento psicológico", diz
dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo de Blumenau e responsável
pelo setor de vocações e ministérios da Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil. O clero americano acostumou-se aos acordos
sigilosos, com pagamento de indenizações, em lugar de simplesmente
entregar o pedófilo à polícia.
![]() SEGREDO DO PASSADO Anthony O'Connell, bispo de Palm Beach, admitiu ter pago 125 000 dólares para calar um ex-seminarista com quem fez sexo nos anos 70. No mês passado, o caso veio à tona e ele renunciou |
Anthony O'Connell, bispo de Palm Beach, na Flórida, renunciou no mês passado após admitir ter pago 125.000 dólares a um ex-seminarista que molestou sexualmente nos anos 70. Três anos depois do acordo financeiro, O'Connell foi promovido para a diocese de Palm Beach, para ocupar o lugar de um bispo que tinha sido forçado a renunciar um ano antes justamente por molestar crianças. O poderoso arcebispo de Nova York, cardeal Edward Egan, entrou na linha de tiro por ter acobertado casos de abuso sexual de padres de sua diocese entre 1988 e 1990, quando era bispo de Bridgeport. No ano passado, a diocese de Bridgeport fez um acordo envolvendo seis padres. Pagou entre 12 milhões e 15 milhões de dólares. Muitos católicos americanos pedem o afastamento imediato de Egan e de Law, mas os problemas do cardeal de Boston são bem maiores. Grupos de manifestantes se revezam diante da catedral da cidade pedindo sua renúncia. Enclausurado em sua mansão, cercado de freiras que cuidam do serviço doméstico, Law não fala em público há dois meses. Deixou até de rezar a missa de domingo. Foi por escrito que revelou ter viajado secretamente para discutir sua renúncia com o papa João Paulo II. Voltou do Vaticano decidido a continuar no cargo enquanto a arquidiocese estiver às voltas com os escândalos. Nesta semana estará em Roma, junto com os outros cardeais americanos.
Há duas semanas, a Justiça obrigou a arquidiocese de Boston
a divulgar 800 documentos internos sobre um de seus padres, Paul Shanley,
acusado de ter molestado dezenas de crianças. Foi como abrir uma
caixa de Pandora. Os documentos mostram que a arquidiocese de Boston não
só repetia a conduta repugnante adotada com o padre Geoghan, transferindo
Shanley a cada nova denúncia, como omitiu de outras dioceses as
acusações de pedofilia que pesavam contra ele. Nos anos
60 e 70, Shanley era famoso como "padre hippie", por seu trabalho com
jovens de rua e viciados em drogas. Ele dedicava especial atenção
à comunidade homossexual. Pelos documentos da arquidiocese, sabe-se
que Shanley defendia publicamente a pedofilia e o homossexualismo. Como
castigo, que ele deve ter recebido como prêmio, o padre foi removido
do trabalho pastoral e encarregado de aconselhar adolescentes atormentados
com problemas sexuais. Aos 71 anos, Shanley deverá sentar-se no
banco dos réus para enfrentar acusações de várias
vítimas. O relato aterrador de Gregory Ford, de 24 anos, deverá
ser decisivo para a condenação pesada. Ford foi estuprado
por Shanley dos 6 aos 12 anos, quando freqüentava aulas de religião
na igreja na qual o padre era pároco. Toda semana, Shanley o levava
para uma sala, jogava pôquer com o menino quem perdia tirava
uma peça de roupa a cada rodada e o atacava sexualmente.
Segundo o pai do rapaz, "depois de estuprá-lo, ele o devolvia à
sala de aula e subia para rezar a missa". Ford tornou-se um jovem problemático,
que perambulou por instituições psiquiátricas e até
hoje é medicado com tranqüilizantes.
Reuters![]() ASSÉDIO E EXORCISMO O bispo-auxiliar de Mainz, na Alemanha, Franziskus Eisenbach, renunciou na semana passada ao se tornar pública a acusação de ter violentado uma mulher durante sessões de exorcismo |
Desde janeiro, a crise já causou a renúncia de um bispo
e o afastamento de 55 sacerdotes de dezessete dioceses nos Estados Unidos.
Estima-se que a Igreja Católica americana tenha gasto 350 milhões
de dólares desde 1985 em indenizações a vítimas
de abusos sexuais cometidos por padres, valor que pode chegar a 1 bilhão
de dólares quando todas as contas forem acertadas. Algumas outras
dioceses estão perto da falência por acordos nessa área.
Esse é outro perigo que ronda a Igreja o da bancarrota.
Para manter a missão de ajudar os pobres e doentes, a Igreja depende
fundamentalmente de doações. A falta de confiança
na hierarquia está levando muitos fiéis a fechar o talão
de cheques, com conseqüências devastadoras nos Estados Unidos.
A organização de caridade do cardeal Law, que no ano passado
arrecadou 16 milhões de dólares, neste ano espera menos
da metade. Os efeitos são sentidos igualmente nos cofres do Vaticano.
Os 66 milhões de católicos americanos representam apenas
6% do rebanho de 1 bilhão, mas é uma minoria rica. Em 2000,
ano do último balanço financeiro divulgado pelo Vaticano,
o óbolo, dinheiro doado pelos fiéis ao papa, chegou a 63,6
milhões de dólares e representou um terço da renda
total da Santa Sé. Os maiores doadores foram a Alemanha e os Estados
Unidos, países de onde se estima que tenha saído metade
do óbolo.
Algumas características dos Estados Unidos contribuiriam para dar visibilidade aos pecados de seus padres. Uma dessas particularidades é o fato de o catolicismo não ser hegemônico no país. Isso deixa a Igreja Católica mais exposta ao crivo da opinião pública. Além disso, a sociedade americana é sempre a primeira a discutir em público questões delicadas, como racismo, assédio sexual a mulheres ou direito ao aborto. As vítimas também se dispõem mais a se expor denunciando seus agressores nos EUA que em outros países. Isso não significa de forma alguma que a violência sexual de padres contra meninos seja uma particularidade americana. Esse câncer tem-se espalhado por todos os países. Talvez ocorra até numa taxa superior à dos EUA em países mais relaxados em matéria de moral e de investigação policial e judiciária. Nem na terra natal do papa, a Polônia, a Igreja escapou. O arcebispo de Poznan, Juliusz Paetz, renunciou na Páscoa após denúncias de que teria molestado jovens seminaristas anos atrás. Paetz era amigo de João Paulo II. Em países como França e Inglaterra, dezenas de padres acusados de molestar meninos estão cumprindo pena atrás das grades. Há pilhas de processos contra a Igreja na Irlanda, na Austrália e no Canadá. Só a Igreja irlandesa gastou 110 milhões de dólares em indenizações.
No Brasil, os casos começaram a pipocar. Nos últimos oito meses, uma dezena de padres foi denunciada por abusos sexuais de menores. Só neste ano três sacerdotes foram presos no Brasil, dois deles neste mês. Diante das dimensões epidêmicas, a questão óbvia é se a proporção de pedófilos entre sacerdotes é maior que em outros setores da sociedade. Calcula-se que 1% da população em geral sofra de distúrbios de preferência sexual, sendo a pedofilia o mais comum deles. Não há estudos conclusivos sobre a incidência entre os religiosos, só especulações sobre a existência de tantos pedófilos de batina. Uma hipótese é que muitos procuram o sacerdócio com a esperança de que a vida religiosa os ajude a controlar o impulso sexual pervertido. Outros, ao contrário, teriam se tornado padres justamente para se aproveitar da imunidade da batina e se aproximar de menores. "Estimo que 6% dos padres americanos tenham tido contato sexual com menores, 4% deles com adolescentes e o restante com crianças", disse a VEJA o psiquiatra americano A.W. Richard Sipe, que estuda o comportamento sexual de religiosos há quarenta anos.
A sucessão de escândalos põe fogo em outro debate envolvendo o sacerdócio o celibato obrigatório para o clero, o que obviamente não tem nenhuma relação direta com pedofilia. Estima-se que, entre os padres católicos acusados de avanços sexuais indevidos, poucos tenham se envolvido com pedofilia. Em seus 23 anos de pontificado, João Paulo II sempre afastou a idéia de revogar o celibato. A solteirice dos padres não é um dogma teológico, mas uma regra interna do catolicismo que só começou a ser aplicada rigorosamente há cinco séculos nos 2002 anos de história da Igreja. Em termos globais está na raiz de muitas encrencas. É complicado encontrar um candidato a bispo na África porque a maioria dos padres africanos tem concubinas. A "mulher do padre" é uma instituição em muitos países latino-americanos. Pior são casos como o de Franziskus Eisenbach, bispo auxiliar de Mainz, na Alemanha, que renunciou após ter sido acusado de abusar sexualmente de uma mulher durante sessões de exorcismo. Mas não há evidência alguma de que a abstinência sexual leve à perversão. "O que se pode imaginar é que alguém com conflitos de sexualidade seja atraído pelo celibato, pois dessa maneira a sociedade não exige dele uma vida sexual normal", diz o psiquiatra José Cássio do Nascimento Pitta, professor na Universidade Federal de São Paulo.
Algumas dioceses americanas já repassam à polícia toda denúncia de abuso sexual contra padres que mereça credibilidade. O cardeal Theodore McCarrick, da arquidiocese de Washington, que adotou essa política em 1993, diz que é preciso cautela, pois ele próprio foi injustamente acusado por uma carta anônima. O que fez foi procurar imediatamente seus superiores e comprovar sua inocência. Depois de contar sua história a repórteres, na semana passada, o cardeal McCarrick acrescentou: "Se alguém está interessado, eu posso dizer que estou com 71 anos e nunca tive relações sexuais com quem quer que seja homem, mulher ou criança". Se um cardeal chega a ponto de fazer uma declaração tão espantosa, é porque a situação é muito grave. A reunião no Vaticano será capaz de dar conta dela? Um encontro de dois dias, convocado com apenas uma semana de antecedência, parece pouco diante da seriedade do tema, exceto se o papa já tiver uma solução pronta na gaveta. O jornal Boston Globe, responsável pelas primeiras revelações sobre a pedofilia nos domínios do cardeal Law, afirmou que o papa convidou as pessoas erradas. "Por que o papa não tem abraçado os pais dessas crianças, da Irlanda à América Latina e aos Estados Unidos, que foram estupradas pelos padres, em lugar de dar boas-vindas aos homens que fracassaram na tarefa de supervisioná-los?", escreveu em editorial. O fato de ter reunido um grupo tão pequeno de prelados, cuja idade média está acima dos 70 anos, não é bom presságio. Talvez o que a Igreja Católica necessite para começar a superar essa crise seja maior transparência. Foram a aversão a escândalos e a cultura de segredo nos bastidores das catedrais que criaram o ambiente favorável aos abusos que agora minam a autoridade moral da Igreja nos Estados Unidos.
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UM PEDÓFILO COM A BÊNÇÃO DO CARDEAL
O padre Paul Shanley era conhecido nos anos 60 e 70 como o "padre hippie", por desenvolver trabalhos com meninos de rua e viciados em drogas. Documentos da Arquidiocese de Boston mostram que a Igreja sabia que ele fazia proselitismo do homossexualismo e da pedofilia desde 1967. Há mais de quarenta denúncias contra Shanley, entre elas a de Gregory Ford, hoje com 24 anos. Ford foi estuprado dos 6 aos 12 anos, quando freqüentava aulas de religião na igreja em que Shanley era pároco. A divulgação dos documentos mostrou a omissão da arquidiocese e deixou em situação difícil o cardeal Bernard Law, arcebispo de Boston e bom amigo do padre pedófilo. Shanley, de 71 anos, está aposentado e sumiu após a divulgação do caso. |
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| Uma
crise mundial
Escândalos envolvendo abusos sexuais atingem a Igreja Católica em vários países ESTADOS
UNIDOS ALEMANHA FRANÇA IRLANDA INGLATERRA POLÔNIA AUSTRÁLIA CANADÁ |
Com
reportagem de
José Eduardo Barella,
Eduardo Salgado, Natasha Madov e Rosana Zakabi
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