
estasemana
colunas
seções
arquivoVEJA
 |
 |
| (conteúdo
exclusivo para assinantes VEJA ou UOL) |
 |
Crie
seu grupo

|
|

Acesso rápido |
|
|
|
Fora
do
mapa
Especialista em América Latina diz
que só o comércio e o eleitorado
hispânico podem tornar a região
mais visível para os Estados Unidos
Raul
Juste Lores
O
americano Peter Hakim passou as últimas quatro décadas de
sua vida acompanhando de perto a América Latina. Morou no Brasil
nos anos 60 como bolsista da Fundação Ford, viveu no Chile
e visitou inúmeras vezes quase todos os países ao sul dos
Estados Unidos. Presidente do Inter-American Dialogue, um centro de estudos
especializado em análise política e nas relações
entre os países do continente, ele também é conselheiro
do Banco Mundial para a América Latina. No momento, Hakim está
atarefado tentando entender uma série de crises simultâneas:
a confusão na Venezuela, a guerra civil na Colômbia, a crise
por que passa a economia argentina e também as eleições
presidenciais no Brasil. Mas ele está especialmente intrigado com
a política do presidente George W. Bush em relação
aos vizinhos latinos. "Até agora, Bush demonstrou entusiasmo pouco
comum com a América Latina", diz. "Mas sem uma política
específica, sem foco no que pretende fazer na região." Hakim
falou a VEJA em seu escritório em Washington.
Veja O governo americano agiu de modo tão confuso
em relação à tentativa de golpe de Estado na Venezuela
que ficou a impressão de que Washington estava envolvida com os
golpistas. O que aconteceu?
Hakim
O
governo atuou de forma tola ao parecer aplaudir o golpe, sem demonstrar
uma mínima preocupação com a maneira irregular e
inconstitucional como foi feito. A Casa Branca pareceu indiferente ao
processo democrático, só preocupada com a queda do presidente
Hugo Chávez. É uma atitude que achávamos que tinha
desaparecido com a Guerra Fria. Washington manchou sua credibilidade em
assunto de democracia.
Veja Por que a sociedade venezuelana chegou a esse ponto
de polarização tão radical, de confronto?
Hakim
Divisões de classes existem em todas as sociedades. Tornaram-se
mais profundas na Venezuela, porque os venezuelanos pensavam que seu país
era rico. Os pobres achavam que sua parte da riqueza tinha sido roubada
por quem tem dinheiro. Chávez tirou vantagem dessas divisões
e as agravou como uma estratégia política. Se ele quiser
mudar essa situação, pode fazer duas coisas. Uma seria adotar
uma política de menos confrontação, mais conciliatória,
para atingir seus objetivos. A segunda é nomear uma equipe econômica
competente.
Veja A tentativa de golpe e o clima de instabilidade do governo
Chávez reforçam a imagem da América Latina como um
lugar de badernas?
Hakim
A imagem da região sofreu claramente. Golpes militares, colapsos
financeiros, instabilidade política são cenas que dominam
a visão pública da América Latina. Muito agora depende
do que acontecerá no Brasil nos próximos meses. Um Brasil
bem-sucedido, estável, pode contrabalançar o que acontece
no resto da América do Sul.
Veja Qual a responsabilidade brasileira no futuro da América
Latina?
Hakim
A preocupação com a eleição brasileira tem
a ver com a economia. O temor é que o manejo da economia entre
numa fase populista. E o populismo está representado pelo Lula,
que está na frente nas pesquisas. Como seria a política
econômica dele? As dúvidas são menores quanto a José
Serra, que representa o continuísmo. O problema é que todo
mundo acha que o Brasil não terá mais um presidente tão
excelente como Fernando Henrique. Ele é visto como o top do que
o Brasil pode ter nesse cargo.
Veja Quando o presidente Bush assumiu, dizia-se que ele daria
especial atenção à América Latina. Por que
isso não aconteceu?
Hakim
Os
primeiros meses de Bush foram animadores. Ele tem uma amizade especial
com o presidente Vicente Fox, do México, e chegou a dizer que o
México era o país mais importante para os Estados Unidos.
Também se encontrou com vários presidentes latino-americanos.
Mas o entusiasmo não era parte de uma estratégia. A rigor,
a prioridade de Bush nem era a América Latina, mas apenas o México.
Depois dos atentados terroristas de 11 de setembro, mudaram-se as prioridades.
As questões relativas à economia foram superadas pelas preocupações
de defesa. Bush não tem política para a guerra civil e o
narcotráfico na Colômbia. A América Latina não
pode ser prioridade se a Argentina é tratada do jeito desastroso
como está sendo feito. O que a América Latina deseja é
aumentar a cooperação econômica. Bush nada tem de
novo a oferecer sobre imigração e comércio, os temas
que mais interessam.
Veja Por que a América Latina é sempre tão
desimportante na política externa americana?
Hakim
Os
Estados Unidos, como a maioria dos países, têm a grande dificuldade
de enfrentar mais de um problema ao mesmo tempo. Na Guerra Fria, a América
do Sul não era alvo de uma política constante. Vietnã,
Coréia, China mereciam muito mais atenção. Quando
acabou a Guerra Fria, abriu-se espaço para uma política
mais consistente e mais coerente em relação à região.
Bill Clinton escolheu o livre comércio como meta, mas não
pôde avançar, pois o Congresso rejeitou o fast track,
que daria ao presidente autoridade para negociar acordos comerciais.
Ironicamente, a América Latina não chama a atenção
porque não provoca o tipo de crises criadas pelo Oriente Médio
e o Afeganistão.
Veja O que o governo americano deveria fazer para ajudar
a Argentina?
Hakim
Os Estados Unidos, junto com o FMI, deveriam apresentar um programa de
ajuste para a Argentina. Algo do tipo: se vocês comprovarem que
podem fazê-lo, damos um pacote de xis bilhões de dólares
de ajuda. Os argentinos não têm como resolver, sozinhos,
seus problemas. Quando uma casa está em chamas, os vizinhos não
podem esperar que seus donos controlem o fogo. Têm de ajudar. O
único país que pode ajudar para valer são os Estados
Unidos. Já somos vistos como a superpotência que deu as costas
à agonia argentina. É uma imagem de grande impacto para
a relação dos Estados Unidos com os vizinhos. A Argentina
foi o maior aliado dos Estados Unidos na região e é ignorada,
na mesma época em que a Turquia que tem problemas parecidos
recebeu ajuda por motivos estratégicos.
Veja O que deveria mudar em relação à
Colômbia?
Hakim
A Colômbia não pode resolver seu conflito sozinha. É
importante que a entrada dos Estados Unidos lá seja para valer.
A prioridade deveria ser fortalecer o governo e o Exército colombianos.
É um governo democrático, que quer ajuda externa. Os vizinhos
também deveriam participar mais. A impressão que eu tenho,
e que as autoridades colombianas também têm, é que
o Brasil quer manter distância do conflito colombiano. Como principal
vizinho, o Brasil teria de estar mais envolvido. É curioso que
o Brasil pareça mais incomodado com o papel que os Estados Unidos
desempenham na Colômbia do que com a guerra que é travada
lá.
Veja O governo americano tem algum objetivo para a América
Latina?
Hakim
Não há uma estratégia. De qualquer forma, é
muito complicado ter um único plano. Em termos práticos,
a América Latina são 33 países muito diferentes uns
dos outros. Uma estratégia para o Brasil não serve para
Honduras. É como um time de futebol: não se pode esperar
que o técnico dê ao jogador perna-de-pau o mesmo tratamento
concedido ao artilheiro da equipe. A política americana precisa
ter como eixo central a economia, com claro apoio ao fortalecimento das
instituições democráticas, livre comércio.
Os Estados Unidos podem ajudar a evitar crises e a resolvê-las.
Veja Como a Casa Branca deveria tratar o Brasil?
Hakim
Os
Estados Unidos precisam ter uma relação mais fluida com
o Brasil. Por causa de seu tamanho, sua economia e seu grau de desenvolvimento,
o Brasil é um país que desempenha um papel importante no
continente. Temos de pensar de que modo os dois países podem relacionar-se,
sem ser adversários.
Veja A presença de tantos imigrantes latino-americanos
já influi no modo com que os políticos americanos vêem
a América Latina?
Hakim
Com certeza. A mudança é muito rápida. O número
de novos cidadãos e de eleitores hispânicos não pára
de crescer, bem acima da média nacional. Um terço dos parlamentares
da Califórnia é de hispânicos. Em dez anos, podem
chegar a ser metade. Dessa forma, o México se tornou mais importante
em razão da política interna americana. Não é
à toa que Bush passa tanto tempo com o presidente Fox. No Texas,
houve um debate em espanhol entre os candidatos democratas a governador.
É de um simbolismo enorme.
Veja O senhor vê possibilidade de o Brasil fechar sua
economia?
Hakim
O Brasil está em um processo de abertura econômica lento
e mais gradual que o do México ou o do Chile, que o fizeram rapidamente.
Mas a direção é a mesma. Imagino que a abertura será
mais lenta do que foi nos anos FHC. Em parte isso se deverá às
negociações para a formação da Alca, o mercado
comum das Américas. Mas também porque os Estados Unidos
não têm sido muito abertos em política comercial.
O empresariado brasileiro é mais fechado que a média latino-americana.
As grandes empresas brasileiras são orientadas para o mercado interno.
Cresceram muito, modernizaram-se, mas não têm a necessidade
de conquistar outros mercados, como ocorre com os chilenos. A longo prazo,
a abertura econômica é inevitável. Países fechados
são mais vulneráveis a crises. Veja o que ocorre com o Brasil.
Depende de investimentos externos, exporta pouco, o que o obriga a ajustes
econômicos contínuos.
Veja O populismo ainda é uma tentação
para os países latino-americanos?
Hakim
Desde que começou a abertura econômica na América
Latina, leio que há o perigo da volta do populismo. Mas veja: o
sandinista Daniel Ortega perdeu várias eleições na
Nicarágua. No Chile venceu um socialista que é neoliberal.
O PT está cada vez mais centrista, menos radical, buscando aliados
na direita. Os populistas perderam em todos os lugares, exceto na Venezuela.
É evidente que há menor confiança nas reformas econômicas,
mas o único país que voltou ao passado foi a Venezuela.
Nenhum país na América Latina, fora o Haiti e a Nicarágua,
teve resultados econômicos tão ruins nos últimos tempos
como a Venezuela. O populismo lá é um desastre.
Veja Qual é a maior ameaça neste período
de recessão em quase todos os países do continente?
Hakim
O desânimo e a falta de confiança nas reformas e em si próprio
são um perigo bem maior que o populismo. A Argentina é um
país rico, de classe média, um povo bem-educado, e não
consegue sair desse ciclo de crises. A imigração, que é
um fenômeno em quase todos esses países, de jovens que vão
embora por falta de perspectivas é um péssimo sinal para
a região. Significa que a juventude perdeu a confiança nas
instituições, em seu país.
Veja Como contornar o fato de que os produtos mais competitivos
do Brasil, como os agrícolas e o aço, sejam exatamente os
que enfrentam maiores barreiras para entrar nos Estados Unidos?
Hakim
As
indústrias mais modernas, com alto grau de tecnologia, competem
sem subsídios. São as mais antigas, as de aço e de
produtos agrícolas, que pedem subsídios. Não há
maneira de evitar. Os parlamentares americanos lutam pelos interesses
de seus eleitores e vão votar para defender as indústrias
que representam. Se o Brasil insistir em que os Estados Unidos acabem
com os subsídios, nenhum acordo irá em frente. O Brasil
tem de se perguntar: estamos melhor com ou sem esse acordo?
Veja O senhor acha que é por causa das medidas protecionistas
americanas que a Alca tem uma imagem negativa tanto para a esquerda quanto
para o empresariado do Brasil?
Hakim
Até o Nafta tem uma imagem ruim nos Estados Unidos. Há uma
oposição muito grande ao acordo com o México. Todos
têm uma história desastrosa para contar: aqui havia uma fábrica
que foi para o México, agora há mais desempregados etc.
O México ganhou muito com o Nafta, mas lá tampouco o Nafta
é muito popular. O cultivo de milho mexicano está sendo
destruído. E é injusto, porque o milho americano que vai
para lá é subsidiado. Mas, se você soma tudo, o México
saiu ganhando muito, vive uma grande história de sucesso.
Veja Para que setores da economia brasileira um acordo de
livre comércio com os EUA poderia ser benéfico?
Hakim
Todos os estudos dizem que o Brasil ganharia com a abertura da economia.
O aço não seria beneficiado, mas chegariam investimentos
para os setores que têm acesso seguro ao maior mercado do mundo.
O mercado americano vale 10 trilhões de dólares. Em dois
anos, a economia dos Estados Unidos cresce o equivalente à de um
Brasil inteiro. Para qualquer investidor, é algo muito atraente.
Esse acordo acaba dando confiança ao mercado, seria uma garantia
de estabilidade. O Brasil deve negociar o melhor acordo possível.
O que faz a Alca ser atrativa para o empresariado americano é o
mercado brasileiro, que responde por 70% da economia da América
do Sul.
Veja O Brasil corre o risco de ficar isolado pela pressão
americana para que os demais vizinhos entrem para a Alca?
Hakim
O Brasil é muito grande e muito importante para ser isolado. Sem
o Brasil, esse acordo de livre comércio perde muito do interesse
para o mercado americano. O grosso do investimento americano na América
do Sul vai para o Brasil. E a Alca não é só comércio,
é também investimento. O Brasil deve negociar seriamente.
Afinal, é interesse dos dois países chegar a um acordo.
|
|
 |