Alívio xiita

Filhos do Paraíso tem
crianças, lágrimas e humor

Marcelo Camacho


Bahare Sediqi:
atuação primorosa

Comparado aos arrastados filmes que o Irã tem produzido nos últimos anos, só recomendados ao pessoal afeito às coisas "de arte", o drama Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye Aseman, Irã, 1997), em cartaz no Rio de Janeiro e em São Paulo, é um alívio: perde em ambições estéticas mas ganha em abrangência de público. Com essa fábula envolvente sobre as peripécias de um menino pobre que perde o único par de sapatos da irmã mais nova, o diretor Majid Majidi arranjou um lugar de concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro, espremido numa disputa em que a arrancada ficou com a tragicomédia italiana A Vida É Bela, de Roberto Benigni, seguida por Central do Brasil, de Walter Salles. Se as chances de o filme brasileiro ganhar já soavam remotas, as do iraniano pareciam ainda menores.

Filhos do Paraíso conta uma bela história a partir de um episódio banal que tinha tudo para resvalar na pieguice. Na linha do estilo neo-realista italiano, a fita destila humor a partir das mazelas da pobreza. Como as crianças não têm dinheiro para comprar um novo par de sapatos e resolvem não compartilhar o problema com os pais, a solução é recorrer a um jeitinho iraniano. De manhã, Zahra vai à escola calçando o único e surrado par de tênis do irmão. Quando retorna para casa, Ali recupera então seu calçado e parte em disparada para o colégio. Para o público ocidental, a obra serve ainda como uma espécie de documentário sobre o Irã, fechado ao mundo ocidental com a revolução fundamentalista dos aiatolás, em 1979, e agora vivendo um incerto processo de abertura. No país, uma das funções da alfabetização é introduzir as crianças nos rígidos cânones do Corão.

O grande trunfo de Filhos do Paraíso é a atuação de seus dois atores mirins, Amir Hashemian, que vive Ali, e Bahare Sediqi, que faz Zahra. Juntos, eles vertem boas lágrimas. Como se sabe em Hollywood, não há platéia que resista a uma criancinha chorosa. Tanto essa fita quanto A Vida É Bela ou Central do Brasil têm crianças em situações lacrimosas. Nos últimos dois anos, o Oscar de filme estrangeiro foi para produções que traziam pimpolhos sensíveis: Kolya Uma Lição de Amor, em 1997, e Caráter, em 1998. Mas para o Irã, colocado na lista de inimigos dos Estados Unidos durante duas décadas e indicado ao Oscar neste ano pela primeira vez, só a indicação de Filhos do Paraíso já é vitória, tanto cinematográfica quanto política.




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