Crime emergente

Os seqüestros mudam de perfil.
Duram menos tempo e os pedidos
de resgate estão mais baixos

Rodrigo Cardoso

O que têm em comum o comerciante Ignácio de Loyola Damásio, filho da socialite carioca Vera Loyola, o cantor Latino, Daniela de Almeida, dançarina do grupo Axé Blond, Catarina Luiza Nogueira, mãe do pagodeiro Salgadinho, e Welington de Camargo, irmão de Zezé Di Camargo e Luciano? São ricos recentes – ou parentes próximos de pessoas ricas. Também todos eles passaram pelo pavor de um seqüestro num período de tempo apertado: entre setembro de 1998 e março deste ano. A maior novidade da atividade criminal no Brasil é o seqüestro dos representantes dessa parcela da população. No passado, os seqüestradores só se interessavam por milionários. Quando eles começaram a andar em carros blindados, com guarda-costas ao lado, os seqüestradores passaram a atacar a classe média ou média alta e a fazer exigências mais modestas em matéria de pagamento de resgate. Neste momento, até donos de padaria da Baixada Fluminense se tornaram vítimas. De uns tempos para cá, entraram na mira os artistas emergentes. Donos de fortunas recentes, não tinham ainda percebido que eram alvos perfeitos para os marginais. Apesar do dinheiro novo e da fama recém-conquistada, nenhum deles dispunha de aparatos de defesa. Circulavam para cima e para baixo sem a proteção de seguranças particulares ou carros blindados. Desde que surgiu com força na década de 70, com o seqüestro por motivações políticas, esse crime hediondo só tem crescido no país. Nos últimos cinco anos, o número de casos praticamente dobrou. E, nessa escalada, o perfil do seqüestro está mudando.

1986, SÃO PAULO – Nos 41 dias em que ficou no cativeiro, o banqueiro Antônio Beltran Martinez não viu a luz do sol. Num quarto fechado, uma lâmpada era mantida sempre acesa. Resgate pago: 4 milhões de dólares

1989, SÃO PAULO – O seqüestro do empresário Abilio Diniz levou seis dias. Os bandidos prepararam o caixão de Diniz para o caso de o resgate de 32 milhões de dólares não ser pago. Foram presos antes

1989, SÃO PAULO – O publicitário Luiz Salles ficou 65 dias seqüestrado. A polícia suspeitava de que se tratava da mesma quadrilha que manteve Martinez no cativeiro. Dois e meio milhões de dólares e ele foi solto

1990, RIO DE JANEIRO – O empresário Roberto Medina quase perdeu a vida quando policiais prenderam a mãe de um dos bandidos. A polícia cedeu e soltou-a. Pagos 2,5 milhões de dólares, foi libertado depois de quinze dias

1998, RIO DE JANEIROSeqüestrado em setembro, Ignácio de Loyola Damásio, de 31 anos, filho da socialite Vera Loyola, foi libertado cinco dias depois. Na troca de tiros com a polícia, três criminosos morreram

1999, SÃO PAULO A dona de casa Catarina Luiza Nogueira, de 50 anos, mãe do pagodeiro Salgadinho, conseguiu escapar pulando a janela do cativeiro, cinco dias depois do seqüestro. Dois bandidos foram presos

Os donos de fortunas consolidadas, como o empresário Abilio Diniz, da rede de supermercados Pão de Açúcar, os publicitários Luiz Salles e Roberto Medina ou o banqueiro Antônio Beltran Martinez, vítimas do terror do cativeiro em meados dos anos 80, hoje andam cercados por um séquito de seguranças especializados. Não estão imunes aos ataques, mas conseguem se defender, como se viu há duas semanas. Na terça-feira 9, o Passat importado do empresário Jorge Paulo Lemann, ex-dono do Banco Garantia e um dos homens mais ricos do Brasil, foi encurralado numa rua de São Paulo. Dentro do carro estavam os três filhos pequenos de Lemann. Dois homens dispararam quinze vezes contra o veículo. Apesar da artilharia pesada, o motorista sofreu um leve ferimento no braço direito, e as crianças saíram ilesas. A blindagem do Passat foi a salvação. Não há uma só pessoa no Brasil que esteja livre de sofrer a agressão do banditismo. Mas gente como Lemann e Diniz conhece e usa os mecanismos existentes para abortar a ação criminosa. Percebendo a reação de seus alvos tradicionais, os bandidos muitas vezes optam agora pelo ataque aos desprotegidos.

Outra coisa: o seqüestro adquiriu formas variadas com o passar do tempo, capazes de se adaptar aos interesses dos seqüestradores. Nos últimos anos, floresceu por exemplo o seqüestro relâmpago. Nesses casos, a vítima não é rica nem famosa – aliás, esses crimes nem saem nos jornais. Basta que o seqüestrador a pegue num lugar qualquer e leve para sacar dinheiro de sua conta bancária num caixa eletrônico. De sete meses para cá foram registrados, apenas na cidade de São Paulo, cerca de 800 seqüestros relâmpagos. Quando a vítima não tem o cartão eletrônico do banco, os ladrões tentam conseguir dinheiro em mercadorias. O golpe é simples. O bandido a conduz até algum shopping e a obriga a fazer compras com cartão de crédito ou cheque. Depois, roda com ela de carro e a abandona em um local ermo. Foi assim com a professora paulistana Milene Rabechi, 31 anos. Em 1998, quatro ladrões levaram-na para fazer compras. Uma vendedora desconfiou e acionou a segurança do shopping. Três dos bandidos foram presos, mas Milene até hoje está traumatizada. "Por mais que eles digam que só querem dinheiro, você sempre acha que vai morrer. Eu até hoje me assusto com qualquer coisa", diz.

"Eu estava no portão da minha casa, conversando com um amigo. Percebi quatro pessoas estranhas se aproximando, mas não deu tempo de fugir. Dois deles estavam armados e nos obrigaram a entrar no carro. Nem conseguia olhar para a cara deles, de tanto pânico. Rezava sem parar. Eles diziam que só queriam dinheiro. Como não tínhamos dinheiro vivo, eles nos levaram para fazer compras. Foi traumatizante. Por três meses, não saí de casa sozinha."

Milene Rabechi, 31 anos, professora, seqüestrada durante uma hora, em 1998. A polícia prendeu três dos quatro bandidos

A substituição dos grandes seqüestros pelos de preços menores e duração mais curta tem lógica. Quanto maior a quantia pedida, mais tempo dura o cativeiro, mais dispendiosa é a operação e maiores as chances de os criminosos serem descobertos. Só para ficar no caso do empresário Abilio Diniz: ele foi alvo de uma quadrilha superespecializada, que exigia 32 milhões de dólares pelo resgate. Para montar o esquema, dez criminosos, entre homens e mulheres, foram mobilizados. Dispunham de vários carros e casas, como forma de despistar a polícia. A notoriedade do seqüestrado e o volume de dinheiro pedido, no entanto, colocaram toda a polícia de São Paulo no encalço dos bandidos. Seis dias depois do seqüestro, o próprio tamanho descomunal da operação acabou denunciando os criminosos. Todos foram presos. Os 32 milhões de dólares pedidos para libertar Abilio Diniz são uma soma fora do comum. Mas os 2 milhões de dólares exigidos pelos algozes de Welington Camargo são também uma fortuna que seqüestradores raramente esperam obter, especialmente com o tipo de seqüestro preferencial que ocorre hoje em dia – o seqüestro barato. Pagaram-se, por exemplo, apenas 10.000 reais pela liberdade de Carmem Lúcia, filha do bicheiro Castor de Andrade, morto em 1997.

"Passei mais de uma hora no porta-malas do carro até chegar ao cativeiro. Tive falta de ar e, com o movimento do veículo, rolava e batia em tudo lá dentro. Fiquei algemada durante todo o seqüestro. Não conseguia comer nada. Emagreci 4 quilos em seis dias. Eu só via um dos bandidos, que era ex-colega da minha irmã. Ele nem se preocupou em esconder o rosto! Tinha certeza de que iria ser morta, para que não o reconhecesse mais tarde."

Daniela de Almeida, 23 anos, dançarina do grupo Axé Blond, seqüestrada durante seis dias, no início deste ano. A polícia descobriu o cativeiro

Regra de ouro – Uma conseqüência perversa do barateamento do seqüestro é que bandidos que a polícia chama de pés-de-chinelo começaram a se envolver com esse tipo de crime. Quanto maior o despreparo dos marginais, maior a ameaça à vida da vítima. É por isso que os investigadores são unânimes ao dizer que a mãe do cantor Salgadinho, do grupo Katinguelê, nasceu de novo ao conseguir escapar da quadrilha que a mantinha cativa. No domingo 14, eles esqueceram de algemá-la e foram à casa do vizinho ver televisão. A senhora de 50 anos aproveitou o descuido e fugiu. As negociações estavam truncadas, e esse seqüestro tinha tudo para acabar em desgraça.

O Brasil aparece em posição de destaque na lista dos mais perigosos no quesito seqüestro, ao lado de Colômbia, México, Filipinas, Paquistão e Guatemala, todos emergentes. São países com aparatos estatais menos eficientes no combate à criminalidade. Nações como a Itália ou os Estados Unidos conseguiram vencer a indústria do seqüestro usando a regra de ouro de qualquer atividade econômica: a de que um negócio só vale a pena se a balança dos custos e ganhos pender para o lado dos ganhos. Por isso, os especialistas apontam a atuação forte da polícia como fundamental para aumentar os riscos do seqüestro e tornar o negócio inviável. Também se passou a dificultar o pagamento do resgate pelas famílias das vítimas. Elas continuaram tentando arrumar o dinheiro, na forma de empréstimos de amigos ou parentes, mas a vida dos seqüestradores se complicou, porque a negociação demorava mais, o risco de o cativeiro ser estourado aumentava, e os custos subiam. Nos Estados Unidos, quem arrisca um seqüestro acaba tendo de lidar com a polícia federal americana, o FBI, que dispõe de maiores recursos e pode atravessar as fronteiras dos Estados para caçar os suspeitos. São resolvidos 95% dos casos, que são cada vez mais raros. Esse é o único caminho.

"Passei mais de dois meses em um quartinho de 5 metros quadrados. Minhas mãos e pés estavam sempre amarrados. Passava até três dias sem que os seqüestradores me dessem algo para comer. Eu rezava e chorava quando estava sozinho. Só uma vez chorei na frente dos seqüestradores, quando eles começaram a falar que minha família não estava interessada em pagar o resgate. Hoje só me sinto seguro dentro de casa."

Hilton Raposo da Rocha, 21 anos, estudante, mantido em cativeiro por 69 dias, em 1996. Libertado pelos bandidos, não confirma o pagamento de resgate

 

 




Copyright © 1999, Abril S.A.

Abril On-Line