O vale-tudo pelo Ibope

Ratinho sugere criação de um disque
0900 para arrecadar resgate, atrapalha
a família e ajuda os seqüestradores

Ricardo Valladares

 
 

 

"Se o irmão do Zezé morrer nas mãos dos seqüestradores, o Ratinho está ferrado." Durante uma semana, a frase rondou o Programa do Ratinho, exibido diariamente pelo SBT. Pela primeira vez desde que se transformou em um fenômeno de audiência, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, teve seu prestígio ameaçado. Especialista do bizarro – casais estapeiam-se em pleno ar e exibem-se crianças portadoras de doenças raras –, Ratinho está acostumado a polêmicas. Mas desde a noite de sexta-feira 12 ele passou a viver na corda bamba. Todos concordam, telespectadores, diretores da emissora e, para efeitos oficiais, o próprio Ratinho, que naquela noite ele foi longe demais. Urrando como sempre, meteu-se a dar opiniões sobre o seqüestro de Welington José Camargo. Disse no ar que poderia ajudar os cantores a arrecadar os 3 milhões de dólares exigidos como resgate e sugeriu a criação de um disque 0900, por meio do qual o público poderia fazer contribuições. "Faço uma campanha e arrecado! O Brasil inteiro quer esse menino vivo!", bradou.

O delírio inconseqüente de seqüestro interativo virou uma armadilha para o próprio Ratinho. Isso porque, um dia antes, a família de Welington chegara a um acordo com os seqüestradores. Em negociações sigilosas, eles tinham aceitado um resgate de 300.000 dólares. Graças a Ratinho, o trato foi por água abaixo. Os criminosos viram o programa, gostaram da idéia de ganhar 900% a mais do que estava acertado e resolveram continuar com o seqüestro.

Ninguém pode imaginar que o apresentador quisesse em sã consciência prejudicar o seqüestrado e sua família. Ele provavelmente agiu movido pelo instinto básico dos que trabalham em televisão: a fome insaciável de índices no Ibope. Mas Ratinho foi além – muito além – do razoável. Na madrugada de sábado 13, ele estava irremediavelmente envolvido. Quando os criminosos resolveram cumprir a ameaça de amputar a orelha de Welington, ocorreu-lhes a idéia óbvia de entregar o objeto de chantagem a quem lhes prometia um resgate mais polpudo: o próprio Ratinho. Os jardins da TV Serra Dourada, retransmissora do SBT em Goiânia, receberam não só o pedaço de orelha como dois bilhetes. Escritos por Welington, como comprovaram os exames grafotécnicos, talvez sob ameaça dos seqüestradores, um deles estava endereçado a Zezé Di Carmargo. Avisava que a senha para as negociações mudara de "Romário" para "Sadam". O outro bilhete, como era de esperar, destinava-se a Ratinho. O texto, publicado pela revista Contigo!, pedia a ajuda do apresentador e criticava a atuação da família nas negociações. O tom da carta é rancoroso com os irmãos (veja texto no final da página). Parecia ter sido feito sob medida para ser lido em rede nacional, como forma de mobilizar os telespectadores para contribuir com o pagamento do resgate. Em menos de 24 horas, quase três meses de negociações voltaram à estaca zero. E, pelo tom dos criminosos, a vida de Welington nunca esteve tão ameaçada. Na quarta-feira 17, a família recebeu mais um bilhete. Dessa vez, a letra não mais era de Welington.


Pacote deixado na sede da TV, com pedaço da orelha. No desenho, a parte amputada

Onde está Wally? – Quando souberam da proposta de Ratinho de criar o disque 0900, depois de um show em Manaus, Zezé e Luciano ficaram atônitos. "Falei: foi tudo por água abaixo", conta Zezé. Telefonaram para o irmão Emanuel Camargo, um dos negociadores do resgate, que estava em Goiás. Souberam que horas antes de o programa ir ao ar Emanuel fora procurado pelo chefe de reportagem do Programa do Ratinho, José Ribeiro Junior, para comentar o seqüestro. "Eu disse que não iria falar e pedi para eles não tocarem no assunto", diz Emanuel. Ratinho foi em frente. Na segunda-feira, um Silvio Santos preocupado com a péssima repercussão do episódio convocou uma reunião de emergência. Os diretores do grupo montaram uma operação de guerra para salvar Ratinho. Até o padre Marcelo Rossi foi convidado a ir ao programa. Aceitou, é claro, e rezou contrito por Welington.

Depois, Ratinho fez um mea-culpa. "A história do 0900 foi uma grande besteira", reconheceu. Nos bastidores do programa, no entanto, o fracasso das negociações – e até a amputação de Welington – recebia tratamento de coisa engraçada. "Pelo menos conseguimos trazer um pedaço do Welington de volta para a família'', brincava um produtor. Um dos chefes do programa fazia trocadilhos com o personagem dos livros infantis Onde Está Wally? Sugeria em tom de blague que o programa abrisse um concurso do tipo "Onde está Welington?" O humor nigérrimo dos companheiros de trabalho de Ratinho tinha um porquê: na semana passada, a média do programa pulou de 18 para 23 pontos. Na quinta-feira, teve picos de 30 pontos.

Ratinho está em um enrosco jurídico. Os cantores ainda não sabem se vão processá-lo. "Se encontrasse com ele naquele dia, daria uma porrada", disse Zezé Di Camargo. "Mas com o tempo fui ficando mais calmo." Mesmo assim, o departamento jurídico do SBT prepara-se para o que pode vir. "Ao atrapalhar a negociação, ele feriu o direito à privacidade de uma família", diz o jurista Celso Bastos, diretor do Instituto Brasileiro de Direito Constitucional. A barbeiragem de Ratinho também corre o risco de ser classificada como estímulo à criminalidade. "Mobilizar a opinião pública para pagar resgates pode incentivar outros seqüestros. Ratinho pode pegar cadeia por isso", diz Dalmo de Abreu Dallari, da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Não foi a primeira vez que o SBT se viu em apuros do gênero. Em 1982, o programa O Povo na TV mostrou a morte ao vivo de um bebê de 9 meses, com a música Ave Maria de Gounod ao fundo, enquanto o apresentador Wilton Franco bradava contra a rede de hospitais públicos. O programa acabou tirado do ar. Em 1993, outra cena do gênero. Ao ver um carro da equipe do Aqui Agora, uma jovem de 16 anos tomou coragem e se jogou de um prédio em São Paulo. As cenas do suicídio foram exibidas por dez minutos. Como a audiência do telejornal aumentou 33,5%, os pais da adolescente processaram a emissora por tirar proveito econômico da morte e ganharam indenização de 700 salários mínimos. Se não for pela vida de Welington, ao menos este pode ser um bom argumento para a equipe de Ratinho começar a se preocupar.

Exames grafotécnicos mostram que o bilhete enviado ao apresentador foi mesmo escrito por Welington: texto dramático e rancoroso, pode ter sido ditado à vítima

" Ratinho, eu vi no seu programa, pois eles me deixaram ver, que você não me deixaria morrer, pois faria uma campanha e arrecadaria o dinheiro. Pelo que eu vi, o Ratinho é mais irmão meu que todos os outros, pois eles não querem nem propor nada, pois meu próprio irmão mandou cortar minha orelha. Eu te faço uma imploração, por favor, pague por minha vida. Eles deixaram até 300 mil dólares.

Só que eles querem 2 milhões de dólares. Quarenta minutos antes do seu programa, os sequestradores entrou em contato com o Emanuel. Ele mandou cortar minha orelha eu tenho até segunda-feira para eles cortar meu pescoço. Tenho certeza que eles vão deixar acontecer.

Não me deixe morrer. Num bilhete que foi para o Zezé, a minha orelha está junto. Eu quero te agradecer pessoalmente no seu programa. Eles tem duas fotos minha judiado, pelado, com minha higiene e não se importa. Quem tá fazendo tudo isso é o Paulo Viana, o Zezé e o Emanuel. Pelo amor de Deus, entrega para o Ratinho. Se você quiser me ajudar, se apresenta no programa de hoje. Coloca um telefone disponível, para que os sequestradores entrem em contato."

 




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