"Fizemos nossa parte"

Depois do episódio da orelha decepada,
Zezé Di Camargo e Luciano pagam o
resgate e esperam a libertação do irmão

Sandra Brasil, de Goiânia

Foto: Ricardo Stuckert

Zezé e Luciano: história de tragédias

Dois dias antes do réveillon passado, um dos bandidos que seqüestraram Welington José Camargo, 28 anos, irmão da dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano, ligou para a família e, numa conversa rápida, fez uma ameaça macabra: iria mandar uma orelha do seqüestrado, que já estava no cativeiro havia duas semanas. Era só um blefe de criminoso, destinado a apressar o pagamento do resgate, na época de 5 milhões de dólares. No sábado 13 de março, porém, a brutalidade se consumou. Um pacote foi deixado no estacionamento da TV Serra Dourada, a retransmissora do SBT em Goiânia: nele, havia uma vasilha de plástico e, dentro dela, metade da orelha esquerda de Welington, embrulhada num pano ensangüentado, junto com um bilhete manuscrito num português trôpego. Era o que faltava para transformar o caso de Welington de Camargo, paraplégico desde os 2 anos de idade, arrancado de sua cadeira de rodas por quatro homens encapuzados e levado para o cativeiro na noite de 16 de dezembro do ano passado, num dos seqüestros mais dramáticos e brutais dos últimos tempos.

"Nem quando eu tinha 12 anos e perdi meu irmão (Emival, morto num acidente de carro, aos 11 anos, em 1975) sofri um trauma assim tão grande. É como morrer aos pouquinhos."

Zezé Di Camargo,
líder da dupla sertaneja

Na madrugada de sábado, o seqüestro completava 94 dias e a família vivia uma tensa expectativa. Na tarde de sexta-feira, a negociação foi encerrada. Os familiares de Welington acertaram o valor do resgate em 300000 dólares. Em seguida, receberam uma prova de vida – desta vez, civilizada – na forma de um bilhete escrito por Welington, no qual havia uma informação, não revelada, que só ele tinha e poderia ter escrito. À noite, os 300000 dólares, em dinheiro vivo, foram entregues no local combinado. Os seqüestradores queriam que o dinheiro fosse levado pelos pais da vítima, Francisco José, 61 anos, e dona Helena, 55 anos. A família resolveu não submetê-los a esse drama, mas o dinheiro foi pago. Em Fortaleza, onde se encontrava numa turnê, Zezé Di Camargo dizia, na madrugada de sábado: "Resta agora que os seqüestradores tenham o bom senso de libertar meu irmão. Nossa parte já foi feita".

Já houve casos de seqüestradores que filmaram suas vítimas sendo violentadas, para chantagear as famílias com o vídeo, mas o seqüestro de Welington é o primeiro caso que se tem notícia, no Brasil, de um refém ter sofrido uma mutilação física no cativeiro. Um dia antes da aparição da orelha no estacionamento da TV Serra Dourada, as negociações estavam bem encaminhadas, com o pedido de 300000 dólares. Emanuel Camargo, 31 anos, irmão da vítima e negociador da família, pediu aos seqüestradores uma prova de vida de Welington. "Eu queria um bilhete, uma foto ou qualquer outra coisa. Nunca pensei que eles poderiam mandar a orelha do meu irmão. Foi como se tivessem arrancado um pedaço de mim", diz ele, olhos marejados. À noite, o apresentador Carlos Massa, do Programa do Ratinho, do SBT, propôs em pleno ar recolher dinheiro para pagar o resgate (veja reportagem). As negociações desandaram. Um bandido voltou a ligar para Emanuel, pouco antes da meia-noite, aumentou o valor do resgate para 2 milhões de dólares e deixou um recado: "Vamos mandar uma homenagem para vocês e para a polícia". Na manhã do dia seguinte, apareceu a "homenagem": cartilagem, sangue e bilhete.

"Num dos momentos mais dramáticos, pedi uma prova de vida. Eu queria um bilhete, uma foto. Nunca pensei que iam mandar a orelha do meu irmão. Naquela hora, foi como se tivessem arrancado um pedaço de mim."

Emanuel Camargo,
o negociador da família

A orelha de Welington foi mutilada com um corte na diagonal. Tem 5 centímetros de comprimento e, na parte maior, chega a 2,5 centímetros de largura. Deceparam-lhe quase todo o lóbulo, onde Welington tinha um furo de brinco. Das oito partes em que se divide uma orelha, só duas – o trágus e a fossa triangular – não foram cortadas. "Tudo indica que o corte foi feito com uma tesoura, porque a borda da orelha estava amassada, como num isopor cortado por tesoura", explica o geneticista Anor Antônio de Oliveira Neto, encarregado do exame de DNA para certificar-se de que a orelha pertencia mesmo a Welington. Se o exame de DNA fosse feito em Goiânia, levaria trinta dias para se ter o resultado. Assim, o médico embarcou para São Paulo num avião King Air, cedido pelo governo de Goiás. Levava a parte da orelha e, em São Paulo, pegou uma amostra de sangue de uma irmã de Welington. Deu apenas 85% de certeza de que a orelha era da vítima. O médico voltou a Goiânia, foi a uma fazenda do interior do Estado, colheu sangue da mãe de Welington, dona Helena, e voltou a São Paulo. Desta vez, o exame indicou 99,99% de chances de a orelha ser de um filho de dona Helena. O mistério acabava aí, mas o drama de uma família estava apenas se aprofundando.

Ao saber da mutilação, dona Helena teve uma crise de hipertensão e, daí em diante, passou a alternar momentos de serenidade com crises de choro. Evangélica recém-convertida, não parava de rezar. Isolada numa fazenda em Novo Mundo, a 400 quilômetros de Goiânia, pediu que enviassem um pastor para ajudar nas orações. Zezé Di Camargo passou a ter dificuldades de dormir. "Tudo ficou mais dramático. Não consigo dormir sobretudo depois dessa coisa macabra que mandaram", diz. De toda a família, pai, mãe e oito filhos, Luciano, que nos primeiros dias ficava colado ao telefone de contato com os seqüestradores, foi o que mais se transtornou. Revoltado, chegou a quebrar vários móveis do apartamento de um dos seus irmãos em Goiânia. Depois disso, foi aconselhado pelos familiares a viajar. Foi para os Estados Unidos, acompanhado de 22 pessoas, entre sobrinhos, tios e amigos da família. "Eu fui perdendo as forças", diz ele. "Quando voltei para o Brasil, fiquei sem coragem de aparecer. Não queria saber de novas informações. Acho que é um pouco de covardia minha", desabafa. Emanuel, o negociador, perdeu 5 quilos desde o início do seqüestro. Walter, o irmão gêmeo de Welington, é o mais apático. Fica calado a maior parte do tempo, como se vivesse num estado de sonambulismo.

Quinto filho, Welington é uma figura especial na família. Há algum tempo, ganhou um apartamento de três quartos de presente, num bairro nobre de Goiânia, mas não gostou. Preferiu alugá-lo e morar numa casa humilde, de dois quartos, de onde foi seqüestrado. A paraplegia nunca o impediu de badalar e sair com os amigos. Com as investigações da polícia, descobriu-se que também freqüenta bares barra-pesada na periferia de Goiânia. Gosta de beber, adora a vida noturna e sente-se muito bem cercado de mulheres. Há dois anos, teve um filho fora do casamento, que gerou uma separação temporária de sua mulher, Ângela, com quem tem um filho, Daniel, de 5 anos. "Apesar do defeito, ele faz sucesso com as mulheres porque é o irmão do Zezé Di Camargo", diz o locutor de rádio Milton da Silva, um velho amigo do cantor. No Natal de 1997, Welington ganhou um Gol, adaptado a sua deficiência, e logo tratou de incrementá-lo com faróis potentes e aparelho de CD. Para reforçar sua renda, Zezé coloca Welington como compositor de algumas músicas, mas ele nunca compôs para a dupla. Seu nome aparece só para engordar sua renda em 1 500 reais mensais com direitos autorais.

História de tragédias – O seqüestro de Welington, para tomar dinheiro dos dois irmãos ricos e famosos, tem pouco paralelo com crimes semelhantes. Primeiro, durou mais do que o normal. Passou dos três meses. Os valores do resgate oscilaram de 5 milhões de dólares até cair para os 300000 dólares, e apareceram suspeitas de envolvimento até da própria família. Ângela, a mulher da vítima, chegou a ser investigada, bem como seus parentes. Na última sexta-feira, a polícia de Goiás ainda suspeitava que algum parente distante da família pudesse estar envolvido no seqüestro. A polícia teve de averiguar 25 telefonemas diários com pistas – todas falsas. "Houve gente que ligou somente para tentar falar com os irmãos famosos da vítima. Mas todas as pistas que tinham alguma consistência foram checadas", diz o secretário de Segurança Pública do Estado de Goiás, Demóstenes Xavier Torres. Foram checados 57 possíveis cativeiros, sem sucesso. Mas, antes de qualquer desfecho, a polícia goiana tomou um cuidado de marketing: mandou fazer uma camiseta, com a sigla GAS, de Grupo Anti-Seqüestro, para Welington vestir na hora em que o seqüestro tivesse fim.

A família Camargo já viveu de perto o desespero das tragédias. A primeira foi em 1974, quando Welington contraiu paralisia infantil e ficou paraplégico. Um ano depois, Emival, então com 11 anos, fazia uma dupla sertaneja com Zezé, que tinha 12 anos. Era a dupla Camargo e Camarguinho. Durante uma viagem no Maranhão, sofreram acidente de carro. Zezé ficou dois dias em coma induzido, mas Emival morreu na hora. Seu trauma foi tão forte que ficou três anos sem cantar.

No bunker dos investigadores, antecipou-se a providência do marketing: camiseta para o seqüestrado
A casa de onde Welington foi raptado, em dezembro: invasão de quatro homens encapuzados
Welington, de cadeira de rodas, no casamento de seu irmão Emanuel, e sua mulher, Ângela
(à dir.)
fotos: Deana Araújo/álbum de família  

Dos oito filhos do casal, o que mais avançou nos estudos foi a caçula Maria Lucier, que faz curso superior de teatro em São Paulo. Depois, vem Emanuel, que parou de estudar no terceiro ano do 2º grau. O pai da família, Francisco, ganhou a vida como pedreiro, encerrando a carreira como mestre-de-obras. A mãe, Helena, foi lavadeira e cozinheira de restaurante. Em 1992, quando Zezé Di Camargo e Luciano começaram a fazer sucesso, a vida mudou para todos. Os pais, que moravam numa casa na periferia de Goiânia, hoje vivem num espaçoso apartamento no melhor bairro da cidade, o Setor Bueno. Com o dinheiro dos cerca de 2 milhões de discos vendidos por ano desde 1992, a dupla de cantores encarregou-se de arrumar a vida não só dos pais, mas de todos os irmãos. Assim, ricos e famosos há pouco mais de seis anos, os Camargo percorreram uma trajetória fulminante, da periferia de Goiânia ao estrelato – e agora trombaram com o lado cruel dos que têm fama ou fortuna.





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