| |
O melhor amigo do homem
Figuras asquerosas, os ratos,
pasme, agora são quase pais
de seres humanos
Eduardo Junqueira
Rato, ratazana, roedor. Habitante de pântanos e esgotos. Bicho imundo.
Transmissor de pestes horrendas que dizimaram meio mundo na Europa medieval.
E que hoje responde pelos surtos da ameaçadora leptospirose que se seguem
a cada enchente brasileira. Pois bem. Na segunda-feira 15, num
congresso em Veneza, o ginecologista italiano Severino Antinori fez uma
revelação surpreendente repugnante para a maioria. Nos testículos
de ratos, o médico cultivou os espermatozóides imaturos de quatro homens
estéreis. Depois de três meses, dentro do organismo dos bichos, as células
estavam aptas a fecundar um óvulo. Fez-se então a fertilização in
vitro, da qual resultaram quatro crianças saudáveis. A mais nova
já tem 2 meses e meio. Vamos repetir: as quatro crianças foram geradas
por espermatozóides humanos que maturaram em testículos de ratos.
O doutor Antinori é famoso por suas "inovações" no campo da
reprodução assistida. Em 1994, ele causou polêmica ao conseguir fazer
engravidar Rossana Della Corte, uma senhora de 63 anos, usada como "barriga
de aluguel" para gestar um embrião obtido em laboratório. O ginecologista
volta ao debate novamente, ao usar os ratos como "testículos de aluguel"
para gerar vidas humanas. Essas vidas são em parte filhas adotivas dos
roedores. Discussões éticas sobre os experimentos do doutor italiano à
parte, ao menos seja feita justiça aos ratos. De inimigos atávicos, agora
eles se tornam quase parentes nossos.
É o ponto de maior conjunção entre homens e ratos. Mas há centenas de
outros. Os ratos estão presentes, na condição de cobaias, em nove entre
dez pesquisas científicas de novos tratamentos e drogas. Graças à engenharia
genética, hoje se podem fabricar ratos de todos os tipos. Há cerca de
500 diferentes linhagens de roedores criadas em laboratório. O camundongo
SJL, por exemplo, desenvolve naturalmente a esclerose múltipla, uma doença
degenerativa do sistema nervoso central que aflige milhões de pessoas
em todo o mundo e contra a qual não há droga definitiva. Em vez de testar
novas drogas em humanos, usam-se os bichinhos. A cientista Silvia Massironi,
da Universidade de São Paulo, criou o RHINO. Sem pêlos, de pele seca e
enrugada, o bichinho (assustador!) é utilizado em testes para novos tratamentos
de rejuvenescimento. Há as cobaias desprovidas de seus próprios sistemas
imunológicos. Mantidos em isolamento completo, esses animais podem ser
"contaminados" por doenças humanas. Transformam-se em organismos
perfeitos para a experimentação de remédios contra a Aids e o câncer,
por exemplo. Para a hipertensão e a depressão, se os testes de novos medicamentos
transcorrem sem problemas com ratos, as drogas podem ser imediatamente
experimentadas em humanos. Para outras patologias, como as do fígado,
o rato é o primeiro e necessário passo. Depois do roedor, vêm mamíferos
maiores.
Os ratos servem para isso tudo porque, apesar de não ser tão semelhantes
ao homem quanto os macacos, têm nas pesquisas outras tantas vantagens.
As chimpanzés, tal qual as mulheres, tendem a dar à luz uma cria por vez.
Uma única ninhada de uma ratinha de laboratório costuma contar com doze
filhotes. Os macacos precisam de áreas extensas para viver e só ficam
confortáveis quando em grupo. Um macho tem de estar cercado geralmente
por sete fêmeas. Para manter os primatas saudáveis é preciso muita comida.
Os ratos são mais econômicos. Tem mais. Enquanto os chimpanzés vivem por
décadas, o tempo médio de vida de um rato é de dois anos. Nesse ritmo,
é mais fácil para os cientistas acompanhar o desenvolvimento de uma droga
num organismo jovem, adulto e velho. Com dois meses, um rato já está apto
a procriar. A ciência tem pressa, e os pequenos roedores suprem essa urgência.
Esqueça, portanto, ao menos por um momento, a idéia do rato de esgoto.
Ele segue existindo, ameaçador, como um marginal nas grandes cidades.
Os ratos de laboratório são a versão mauricinho dos roedores. Vivem em
ambientes de extrema assepsia. Comem uma alimentação balanceada e esterilizada.
Até a qualidade do ar que respiram é controlada. O ar é puríssimo, livre
de vírus e bactérias. "Só assim se tem a garantia de que os resultados
de uma pesquisa não sofrerão interferência de fatores externos",
diz Ana Maria Aparecida Guaraldo, diretora do Centro de Bioterismo da
Universidade Estadual de Campinas. O maior centro mundial de produção
de ratos para experimentos, o Laboratório Jackson, fica estrategicamente
localizado em uma ilha da costa do Estado do Maine, no nordeste dos Estados
Unidos. A água funciona como uma espécie de barreira natural contra a
entrada de doenças. De lá, anualmente, saem 6 milhões de ratos para centros
de pesquisa de todo o mundo. Preço? Cinqüenta dólares cada exemplar. Pensando
bem, esses "testículos de aluguel" nem são tão horrorosos assim.
|
|